Todos os anos, milhares de tartarugas-da-Amazônia protagonizam um dos espetáculos mais impressionantes da natureza às margens do Rio Guaporé, na região sul de Rondônia, na fronteira com a Bolívia. Durante a temporada de desova, as praias da região se transformam em verdadeiros berçários naturais, onde os ovos permanecem protegidos pela areia até o nascimento dos filhotes. Nos últimos anos, porém, esse ciclo tem enfrentado desafios cada vez maiores. O nível elevado do rio e a redução das faixas de areia disponíveis para a desova preocupam pesquisadores e voluntários que trabalham para garantir a sobrevivência da espécie.
Em 2023, mais de 1,4 milhão de filhotes nasceram na região. No ano seguinte, esse número caiu drasticamente, chegando a cerca de 350 mil. Em 2025, houve uma leve recuperação, com aproximadamente 500 mil nascimentos, resultado ainda muito distante do registrado em anos anteriores. Em 2026, o cenário permanece preocupante. O nível elevado do Rio Guaporé reduziu as áreas disponíveis para a postura dos ovos, colocando em risco mais uma temporada reprodutiva.
Embora o balanço oficial de nascimentos de 2026 ainda não tenha sido confirmado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), as condições observadas pelas equipes de conservação já acendem um alerta para os possíveis impactos sobre a reprodução das tartarugas.
Menos praias disponíveis para a desova
Na região de São Francisco do Guaporé, o Projeto Quelônios do Guaporé monitora seis grandes praias, conhecidas como tabuleiros, utilizadas pelas tartarugas durante o período reprodutivo. Neste ano, porém, apenas metade desses locais registrou desova, reflexo das condições ambientais desfavoráveis.
“Permanecemos na base durante todo o ano para monitorar a região e proteger os animais da ação de predadores humanos. Neste ano, registramos desova em apenas três das seis praias monitoradas e, em somente uma delas, houve um número expressivo de fêmeas desovando”, relata José Soares, conhecido como Zeca Lula, fundador do Instituto Ecovale e coordenador do Projeto Quelônios do Guaporé.
Além dos desafios impostos pela natureza, a proteção das tartarugas exige vigilância constante contra a ação humana. O trabalho de pesquisadores e voluntários é essencial para preservar os ninhos, acompanhar as mudanças ambientais e aumentar as chances de sobrevivência dos animais.
Tartarugas monitoradas: tecnologia inédita amplia pesquisas no Guaporé
Em meio aos desafios ambientais, uma novidade marca a temporada de 2026: o uso de radiotransmissores para acompanhar os deslocamentos das tartarugas-da-Amazônia. A iniciativa, realizada com apoio da Wildlife Conservation Society (WCS), amplia as possibilidades de pesquisa e pode revelar informações importantes sobre o comportamento desses animais.
Instalados em tartarugas selecionadas, os equipamentos permitem rastrear seus movimentos após a desova, ajudando os pesquisadores a identificar rotas de deslocamento, áreas de alimentação e locais utilizados como refúgio ao longo do rio.
“Com os dados coletados, poderemos entender melhor para onde essas tartarugas vão depois da desova, se permanecem próximas às praias ou se deslocam para outras regiões. São informações importantes para conhecer o comportamento da espécie e aprimorar as estratégias de proteção e conservação”, destaca José Carratte, biólogo e supervisor de Meio Ambiente da Energisa Rondônia, parceira do projeto.
Energia limpa a serviço da preservação
A conservação das tartarugas também depende de infraestrutura para manter as equipes em uma região de difícil acesso. Nesse trabalho, o Projeto Quelônios do Guaporé conta com o apoio da Energisa Rondônia, que contribui com o fornecimento de combustível para as atividades de monitoramento e com a estrutura energética da base de pesquisa.
A distribuidora também foi responsável pela instalação de um sistema de energia solar, que garante o fornecimento de eletricidade à base, proporciona maior autonomia às equipes e permite a realização das atividades com uma fonte de energia limpa e renovável.
Segundo José Carratte, o apoio contínuo é fundamental para a manutenção das ações de conservação, que vão muito além do período de desova.
“O trabalho de preservação acontece durante todo o ano. Por isso, a Energisa contribui com combustível para as atividades de monitoramento e com o sistema de energia solar instalado na base. É uma parceria que ajuda a garantir as condições necessárias para que as equipes continuem protegendo as tartarugas e acompanhando o desenvolvimento da espécie na região”, explica.
Preservação para as próximas gerações
Mesmo diante das dificuldades, o trabalho de conservação continua. A expectativa é que o monitoramento permanente, aliado ao avanço das pesquisas científicas, ajude a compreender melhor os impactos das mudanças ambientais e a fortalecer as estratégias de proteção das tartarugas no Vale do Guaporé.
Desenvolvido pelo Instituto Ecovale, o Projeto Quelônios do Guaporé reúne pesquisadores, voluntários e parceiros em ações de proteção, monitoramento e conservação das tartarugas-da-Amazônia. Mais do que acompanhar o nascimento de milhares de filhotes, a iniciativa busca garantir que um dos maiores espetáculos da natureza na região continue se repetindo pelas próximas gerações.


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