RESENHA POLÍTICA
ROBSON OLIVEIRA
VOTAÇÃO
O número 22 atravessou o país de norte a sul, de leste a oeste. A exceção ficou por conta do Nordeste, onde Lula preservou sua principal fortaleza eleitoral. Flávio Bolsonaro e o PL, como se diz no popular, estouraram a boca do balão e terminaram o primeiro turno na frente. Os prognósticos anunciavam uma eleição polarizada, de diferenças mínimas, quase voto a voto. Flávio terminou com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Uma diferença superior a dois pontos percentuais, suficiente para mudar o ambiente político, embora insuficiente para decidir a eleição. Uma vez que havia a expectativa de Lula vencer o primeiro turno.
ROBUSTEZ
Não existe eleição ganha antes da apuração final. O que existe são sinais, mapas e tendências. E o mapa produzido pelas urnas mostrou uma direita eleitoralmente robusta em boa parte do país, enquanto o Nordeste permaneceu como o grande território de resistência ao avanço do PL.
MÁXIMA
Rio de Janeiro e Minas Gerais merecem atenção especial. O Rio, berço político da família Bolsonaro, confirmou a força de Flávio. Força que catapultou o gonçalense Douglas Ruas para primeira posição passando tranquilamente Eduardo Paes, o favorito. Minas Gerais, velha senhora das eleições presidenciais e tradicionalmente tratada como uma espécie de termômetro nacional, também acompanhou o candidato do PL. Há uma máxima no jornalismo político de que quem ganha Minas ganha a eleição nacional. Máximas, evidentemente, não votam. Mas às vezes as urnas gostam de lhes emprestar alguma razão.
FADIGA
Há várias explicações para tentar decifrar o resultado. Há para todos os gostos. Custo de vida, segurança pública, desgaste político, polarização, avaliação do governo, rejeições acumuladas e a força própria do bolsonarismo compõem esse mosaico. A verdade é que o eleitor sinalizou algum grau de fadiga com Lula e seu governo não conseguiu transformar a promessa de pacificação nacional em realidade política. Ao contrário, a polarização continuou sendo alimentada dos dois lados e aprofundou uma divisão que já vinha atravessando a sociedade brasileira.
DIFICULDADE
Esta será, portanto, a campanha mais difícil para Lula ao Palácio do Planalto. A tendência desenhada pelas urnas aponta para uma tarefa hercúlea: reverter, em poucas semanas, uma diferença construída nacionalmente e recuperar territórios eleitorais que nesta primeira rodada escaparam ao petismo.
MIGRAÇÃO
Não se trata de uma eleição ganha para Flávio. Mas também seria ingenuidade imaginar que os dois candidatos começam o segundo turno exatamente do mesmo ponto. Lula ainda tem espaço para crescer, mas esse espaço não é infinito. Os votos dos demais concorrentes somaram pouco mais de 8% e, entre eles, existe uma parcela expressiva de eleitores identificados com posições conservadoras. Se essa migração ocorrer majoritariamente para Flávio, o candidato do PL poderá ser o mais aquinhoado na redistribuição desse espólio eleitoral. Ademais, sua votação no nordeste cresceu em relação ao pai.
COMPLEXIDADE
É aí que está uma das dificuldades de Lula. Para virar o jogo, precisará conquistar votos fora de sua zona tradicional de conforto e, ao mesmo tempo, impedir que o adversário transforme a votação dos demais candidatos em combustível para uma vantagem maior. A verdade nua e crua é que Flávio venceu o primeiro turno. E começa o segundo com uma vantagem concreta, com possibilidade de ampliar seus percentuais caso consiga atrair parte relevante dos votos que ficaram pelo caminho. A Lula tentar como última cartada mobilizar quem se absteve para que vá votar e votar nele. Tarefa de alta complexidade.
MILAGRES
Isso não significa eleição ganha. A história eleitoral brasileira é pródiga em lembrar que segundo turno é outra eleição, com outra lógica, outros movimentos e outros erros. Mas Flávio chega à segunda etapa carregando um patrimônio eleitoral que Lula terá de desmontar. Agora começa a campanha de verdade. Lula terá de convencer mais do que seus eleitores habituais. Flávio terá de manter a vantagem e capturar os votos dos nanicos. Vais ser uma campanha titãs, mas a tarefa de Lula inspira milagres.
FUTURO
A urna, como sempre, não lê biografia, não respeita torcida e muito menos obedece prognóstico. Ela simplesmente cobra a conta. O tom curricular dado por Lula na primeira entrevista revela que não há uma estratégia visando concreta para apresentar e vão tentar apontar para o passado para que ambos sejam comparados. O problema é que o eleitor olha para o futuro. Os petistas e oráculos de plantão da esquerda explicam tudo, inclusive o fracasso como fosse virtude. E são incapazes de analisar o cenário fazendo autocrítica. Parece que o errar seja algo simplório e que o eleitor entenderá os erros. É mais fácil desqualificar quem analisa dados reais com isenção do que enxergar o que as urnas indicaram.
GOVERNADOR ELEITO
Marcos Rogério, do PL, venceu a eleição para governador de Rondônia de forma espetacular. Mais do que uma vitória em primeiro turno, o resultado representa uma mudança importante no mapa político do Estado: é a primeira vez que um candidato sem ocupar o cargo de governador consegue chegar ao Palácio Rio Madeira já na primeira rodada das urnas.
BAMBURANDO
E Marcos não chegou sozinho. Trouxe consigo os dois senadores mais votados e uma bancada federal robusta. O PL elegeu três deputados federais, entre eles Lúcio Mosquini, que ultrapassou a marca dos 150 mil votos, uma votação de tamanho quase extravagante para os padrões eleitorais de Rondônia. Foi voto suficiente, em outra matemática eleitoral, para eleger vários candidatos e ainda deixar sobra.
ONDA
A explicação não está apenas em Marcos Rogério. Há uma onda nacional que deu ao PL uma votação extraordinária e que encontrou em Rondônia um terreno particularmente fértil. O eleitor rondoniense repetiu, em boa medida, o comportamento das últimas eleições: votou majoritariamente em candidatos identificados com o bolsonarismo. O número 22 virou uma espécie de senha eleitoral.
MÉRITOS
Mas seria simplificar demais atribuir tudo à onda nacional. Marcos teve méritos próprios. Fez uma campanha estruturada, organizada e, sobretudo, leve. Foi diferente do candidato de quatro anos atrás, quando perdeu a eleição e saiu dela carregando também a fama de arrogante, marca que seus adversários fizeram questão de explorar durante esta campanha. O Marcos de 2026 parecia outro político.
POSTURA
Mais afável, mais atento, mais tranquilo e menos preocupado em demonstrar que sabia mais do que os adversários. Nos debates, confirmou a condição de bom orador. Mesmo quando foi acuado por perguntas sobre sua capacidade de manter o ritmo e a lucidez diante das responsabilidades do cargo, não perdeu o fio da meada. Em vez de comprar a provocação, voltou às propostas. Na política, às vezes, amadurecer é descobrir que nem toda provocação merece resposta.
ALIADO
Outro personagem importante dessa vitória foi Léo Moraes. O prefeito da capital, embora não estivesse na urna, esteve presente nela por procuração política. Empenhou-se de corpo e alma na campanha de Marcos Rogério e conseguiu uma façanha eleitoral particularmente significativa: reverter, em Porto Velho, uma diferença que parecia favorável ao ex-prefeito Hildon Chaves, seu adversário político. Léo foi além.
CAPITAL
Apoiou a candidatura do irmão, Paulo Moraes, que terminou entre os deputados estaduais mais votados, e também transferiu parte de seu capital político para as candidaturas de Jaime Gazola e Cristiane Lopes, ambos eleitos para a Câmara Federal. É um patrimônio político que não apareceu na urna com o nome de Léo, mas apareceu nos votos dos aliados.
COMBINAÇÃO
A vitória de Marcos, portanto, é resultado de uma combinação rara: a onda nacional do PL, a força do bolsonarismo em Rondônia, uma campanha mais madura do candidato e a operação política construída no Estado, especialmente na capital.
COMPANHEIRO
E há ainda um personagem que merece atenção nessa história: o vice-governador eleito, delegado Camargo. Muitos apostavam que a convivência entre dois políticos de personalidade forte produziria atritos. Até aqui, aconteceu o contrário. Camargo não foi um figurante na chapa. Teve protagonismo eleitoral e, durante a campanha, mostrou-se colaborativo com Marcos. No Vale do Jamari, região onde possui forte identificação política e eleitoral, a chapa do PL teve desempenho particularmente expressivo. Mais importante que isso será o papel que Camargo desempenhará no governo.
EXPERTISE
Sua experiência técnica em orçamento e segurança, acumulada na Assembleia Legislativa, poderá ser útil na transição e, principalmente, na discussão do primeiro orçamento que Marcos Rogério terá para administrar o Estado. Governar começa quando acaba o discurso. E o orçamento é justamente o lugar onde a política descobre que promessa não cabe inteira dentro do caixa.
ATRITOS
Camargo poderá ser importante nesse processo, não apenas pelas atribuições que receberá formalmente, mas pela capacidade de ajudar na construção técnica do governo. Se conseguir manter a relação colaborativa que apresentou até aqui, poderá se tornar uma peça relevante da administração.
CAPACIDADE
Rondônia elegeu, portanto, um governador experiente na política, com passagem pelo Senado e conhecimento da máquina pública. A expectativa agora é que a experiência política se converta em capacidade administrativa. E é aqui que começa a parte mais difícil da história
RETÓRICA
Durante a campanha, as promessas foram muitas. A partir de agora, elas deixam de ser retórica eleitoral e passam a ser cobrança. O eleitor que entregou a Marcos Rogério uma vitória tão larga não lhe concedeu apenas quatro anos de mandato. Entregou também uma lista de expectativas.
URGÊNCIA
Entre elas está o novo Hospital de Urgência de Porto Velho, promessa que ganhou eco durante a campanha e que certamente será cobrada desde os primeiros dias do governo. Saúde pública não espera inauguração de mandato. A fila continua existindo no dia seguinte à posse.
CHAVE
Marcos Rogério venceu de maneira retumbante. A onda 22 foi forte o suficiente para levar governador, senadores e deputados federais. Léo Moraes mostrou que possui capital eleitoral próprio. Camargo saiu da condição de vice para assumir uma posição potencialmente estratégica. Agora começa outra eleição, sem urna e sem santinho: a eleição diária pela entrega do governo. É nela que Marcos Rogério terá de provar que a grandeza da vitória não foi apenas eleitoral. Porque ganhar de forma espetacular é uma coisa. Governar à altura da expectativa que produziu é outra, bem mais difícil. A urna lhe deu a chave do Palácio. O tempo dirá o que ele fará com ela.
MARMITA
O governo quer gastar R$ 49,9 milhões em um ano com a comida dos presos de Porto Velho (Pregão 90646/2025). Em março eram R$ 36,8 milhões. Em junho, um adendo da própria SUPEL acrescentou 35,5% do valor. Comida de presídio também sente a inflação e as emendas orçamentárias chamam a atenção.
ABRIL
Dias antes da data marcada para a primeira disputa, a SEJUS revisou para cima os cinco contratos que já alimentam as unidades: R$ 25,2 milhões, publicados no Diário Oficial de 13 e 24 de abril. A licitação nasceu justificada pelo "desinteresse" da atual fornecedora em continuar. Desinteressada, mas com contrato reajustado. Vida de fornecedor do Estado tem dessas incongruências.
JANTAR
A própria SEJUS admite, por escrito, que o jantar do edital novo tem a mesma composição do atual. Pelos números que uma licitante levou ao governo, ele custa R$ 9,72 hoje e passa a R$ 14,72 no edital. Mesmo prato, 51% mais caro. Quem explica? Até agora, ninguém fez a conta no papel. Pode ser que a contra esteja certa, mas é preciso explicar como chegou ao cálculo.
PROJEÇÃO
Feita a multiplicação, a mesma licitante chega a R$ 12,9 milhões a mais por ano. É a conta de uma interessada, e o governo responde que o cardápio mudou: entrou fruta, entrou farinha, entrou a ceia. Pode ser. Mas fruta que custa milhões merece, no mínimo, planilha.
RASCUNHO
A SEJUS também reconheceu que publicou como Termo de Referência uma "minuta de trabalho", ou seja, um rascunho. Em licitação de quase R$ 50 milhões, o rascunho foi para o mundo e a sessão foi só remarcada.
SANFONA
O pregão já foi suspenso três vezes e reaberto duas, sempre a poucos dias da disputa. No Compras.gov.br, aparece hoje "compra suspensa", com sessão "sem prazo definido". Abre, fecha, abre de novo. Quem não tem pressa é porque não está pagando a conta.
INSTÂNCIAS
O caso está na 1ª Vara da Fazenda Pública, em ação popular. O Tribunal de Contas arquivou uma denúncia em abril, sem julgar o mérito, porque o certame estava suspenso. Suspenso ele continua, mas muito mais caro. Com objeto alterado e majorado. O Estado parece não estar sentindo o cheiro de algo estranho nessas marmitas. A ver.


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