PORTO VELHO, RO - Adailton Fúria (PSD) foi colocado no centro de um dos confrontos mais duros do debate entre candidatos ao Governo de Rondônia realizado pelo Sistema Gurgacz de Comunicação (SGC), afiliado da RedeTV! no estado, na quinta-feira, 1º de outubro. Questionado por Pedro Abib (MDB) sobre o uso de recursos públicos em um projeto denominado “Fúria Sobre Rodas”, o candidato afirmou que renunciaria à candidatura caso fosse provado que recebeu qualquer valor relacionado aos eventos. O debate também foi marcado pela ausência do candidato Hildon Chaves, do União Brasil.
O encontro foi mediado pelo jornalista Fernando Pereira e também abriu espaço para perguntas de profissionais de diferentes veículos de comunicação de Rondônia. Entre os participantes estiveram Adilson Honorato, pela Rede Rondônia de Rádios; Fábio Camilo, pela Jovem Pan, que participou por meio de pergunta gravada; Eduardo Copanaxi, da Rádio Conecta FM; Leteliê Oliveira, do Humor Rondoniense; Juan Pantoja, do Eu Ideal; Arimar Souza de Sá, do Rondonotícias; Ivan Frazão, do Rondônia ao Vivo; e Rubens Coutinho, do Tudo Rondônia. As perguntas aos candidatos foram definidas conforme a dinâmica de sorteios estabelecida pela organização.
A troca entre Abib e Fúria ocorreu no bloco de confrontos diretos. O candidato do MDB começou tratando do princípio da impessoalidade na administração pública e perguntou ao adversário o que pensava sobre gestores utilizarem recursos públicos para autopromoção.
Antes de o tema ser especificado, Fúria respondeu que tinha as contas aprovadas pelo Tribunal de Contas, disse ter deixado a Prefeitura de Cacoal sem responder a processos e voltou a mencionar sua trajetória pessoal. A resposta ganhou um componente pessoal quando afirmou que Abib vinha de uma família rica e talvez não tivesse passado pelas mesmas dificuldades que ele.
“O senhor vem de uma família rica e o senhor talvez não passou por aquilo que eu passei, que é o que a boa parte da geração do meu Estado está passando”, declarou.
Fúria também reagiu à referência feita por Abib ao período em que trabalhava com carrinho de espetinho.
“Lamento muito o senhor ter falado a questão do carrinho de espetinho, mas talvez se o senhor tivesse essa história de vida, talvez o senhor hoje poderia estar inclusive no segundo turno”, afirmou.
Abib respondeu que respeitava a trajetória do adversário, mas pediu o mesmo tratamento para a própria história. Em seguida, identificou o objeto de sua pergunta: o “Fúria Sobre Rodas”. Segundo ele, o projeto levava o nome do ex-prefeito de Cacoal, recebeu recursos provenientes de emendas parlamentares e esteve associado à imagem de Fúria no período anterior à campanha.
“Eu estou falando aqui do Fúria Sobre Rodas. É um projeto que tem o nome do ex-prefeito de Cacoal, que recebeu recursos de emendas parlamentares registrado no Diário Oficial, e isso com dinheiro público”, afirmou Abib durante o debate.
O candidato então perguntou diretamente se houve utilização de dinheiro público no projeto. Na resposta, Fúria estabeleceu um desafio público.
“Candidato, se eu tiver recebido um centavo, eu renuncio hoje da minha candidatura”, declarou.
Fúria explicou que municípios receberam recursos e contrataram apresentações, citando o piloto Joaninha. Segundo sua versão, ele participou gratuitamente dos eventos e não recebeu recursos públicos pela presença.
“Eu fui de graça lá nesses eventos, participei desses eventos e não vejo nada de errado nisso”, disse.
O candidato acrescentou que estruturas de proteção foram montadas pelas prefeituras e reiterou que não recebeu pagamento.
“A prefeitura foi lá e colocou um alambrado de proteção para o público ir lá participar. Muitas famílias foram e não tem nada de errado nisso, não”, afirmou.
Outro momento de tensão ocorreu logo depois, quando Fúria escolheu Samuel Costa (PSB) para o confronto e perguntou quais seriam as ações dos primeiros 100 dias de governo para as rodovias estaduais, além das estradas que o adversário pretendia pavimentar.
Samuel utilizou parte da resposta para discutir o orçamento estadual. Afirmou que os repasses ao Ministério Público seriam superiores aos investimentos destinados ao Departamento de Estradas e Rodagem e defendeu redução de gastos e enfrentamento aos chamados supersalários no serviço público.
“Nós vamos cortar os privilégios dos super salários dos marajás no serviço público”, declarou.
Na réplica, Fúria enumerou diferentes trechos rodoviários que, segundo afirmou, fazem parte de seu plano de ação, incluindo ligações envolvendo Parecis, Alta Alegre, Alta Floresta, Novo Horizonte, Nova Brasilândia, Urupá, Mirante da Serra, Tarilândia, Alto Paraíso, Bom Futuro, Triunfo, Cujubim e Machadinho.
Samuel respondeu com uma provocação ao conhecimento demonstrado pelo adversário sobre as rodovias.
“Olha, Fúria, eu vou fazer aqui um compromisso publicamente em rede estadual. Se eu for governador, você vai ser meu diretor do Departamento de Estado e Rodagem. Você conhece muito bem nominalmente as rodovias do Estado”, disse.
O candidato do PSB voltou então ao discurso de redução de privilégios e fez críticas à Assembleia Legislativa. Em uma das declarações mais contundentes de sua participação, afirmou que, caso chegasse ao governo, não aceitaria pressão de parlamentares e mencionou a Draco e o Gaeco ao falar sobre eventual tentativa de impeachment.
Na sequência, Samuel Costa escolheu Expedito Netto (PT) para um confronto sobre neurodivergência, famílias atípicas, saúde mental e apostas on-line. Samuel perguntou quais políticas públicas seriam adotadas para pessoas neurodivergentes e para famílias atingidas pela ludopatia relacionada a bets, cassinos, Tigrinho e outros jogos de azar.
Expedito afirmou considerar a pauta das famílias neurodivergentes importante e concentrou parte de sua resposta nas apostas. Segundo ele, as bets provocaram danos às famílias e também ao esporte.
Samuel, na réplica, defendeu ampliação da Rede de Atenção Psicossocial e fortalecimento dos Centros de Atenção Psicossocial nos municípios.
“Depressão não é frescura, é um problema de saúde pública a qual o governo do Estado não pode eximir-se da sua função social”, afirmou.
Ele também propôs CAPS funcionando 24 horas por dia e sete dias por semana. Expedito concordou com a necessidade de ampliar o atendimento e voltou ao tema das apostas, afirmando que quem joga no Tigrinho não aposta na sorte, mas contra um sistema previamente definido.
O último confronto colocou Expedito Netto diante de Marcos Rogério (PL). O candidato do PT pressionou o adversário com questionamentos relacionados a corrupção. Marcos rejeitou as acusações feitas contra ele, classificando-as como “mentira” e “fake news”, e afirmou que pretendia concentrar o debate nas propostas para os problemas do estado.
“Eu lamento, mas eu não vim aqui discutir fofoca”, declarou Marcos Rogério antes de direcionar sua resposta para a saúde pública.
O senador defendeu a descentralização do atendimento, afirmou que pacientes do interior não deveriam depender de deslocamento até Porto Velho e propôs ampliar o uso das estruturas municipais como retaguarda da saúde estadual. Também apresentou proposta para a construção de dois hospitais.
Expedito voltou ao assunto original durante a réplica e cobrou uma resposta direta de Marcos. O embate provocou manifestações na plateia, levando o mediador a pedir que o público não interferisse. Na tréplica, Marcos reiterou que as acusações eram falsas e retomou as propostas para a saúde.
Antes dos confrontos diretos, o debate também produziu declarações de repercussão nas apresentações iniciais. Expedito Netto dedicou parte de sua fala ao racismo, feminicídio, pedofilia e religião. Ao defender uma interpretação do cristianismo voltada aos mais vulneráveis, afirmou:
“Jesus, se voltasse para cá, estaria do lado dos bêbados, estaria do lado da prostituta, estaria no lado dos mais necessitados”.
Nas considerações finais, Pedro Abib afirmou ter sido procurado três meses antes por uma empresa transnacional interessada em mineração em Rondônia. Segundo o candidato, a empresa teria oferecido apoio suficiente para levá-lo ao segundo turno em troca de três secretarias.
“Eu mandei eles correr daqui, Fúria. Eu não me vendi, eu não vou ser governado por ninguém”, declarou.
Abib não identificou a empresa durante a fala no debate.
Fúria, por sua vez, encerrou sua participação destacando realizações de sua administração em Cacoal e contrapondo sua trajetória à atuação de políticos ligados a Brasília.
“Nós não precisamos de político de Brasília, do terno, da gravata, do Rolex, do avião”, afirmou, defendendo a escolha de alguém que, segundo sua própria definição, esteja “com o pé na poeira”.
Samuel retomou no encerramento as críticas aos supersalários e aos “barões da soja”, além de defender a criação de uma Universidade Estadual de Rondônia. Expedito reforçou sua vinculação política ao presidente Lula, enquanto Marcos Rogério defendeu um governo articulado com os prefeitos dos 52 municípios.
O debate ocorreu na reta final da campanha eleitoral. O primeiro turno das eleições está marcado para este domingo, 4 de outubro.


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