Prof. Me. Herbert Lins – MTE 1143
Prometer é fácil, governar é outra história: o eleitor começa a separar propostas de discursos eleitorais
CARO LEITOR, Passado o 7 de Setembro, a eleição começa, de fato, a entrar na casa do eleitor indeciso. A propaganda na televisão e no rádio ganha atenção, as redes sociais viram palco de disputa e os debates passam a pesar na decisão do voto. Mas o que, afinal, esse eleitor procura para escolher quem receberá seu voto? Mais do que ataques, frases de efeito e promessas genéricas, ele quer propostas. Quer saber o que cada candidato pretende fazer, como fará e de onde virão os recursos. A eleição não se vence apenas com marketing, imagem bonita ou discurso ensaiado. O eleitor está mais atento e começa a separar promessa de projeto, discurso de compromisso e candidato preparado de aventureiro. No fim, a urna cobra coerência: quem pede o voto precisa apresentar razões para merecê-lo.
Cumprir
O eleitor quer saber o que cada candidato pretende fazer, como fará e quem pagará a conta. Afinal, promessa eleitoral é barata: não precisa de orçamento, licitação nem obra pronta. Difícil é cumprir depois que o eleitor carimba o voto na urna.
Palanque
Inaugurar obra no discurso é fácil; difícil é entregar quando o palanque desmonta e a campanha termina. Na política, promessa não tem placa de inauguração, não precisa de orçamento e muito menos de prazo: basta esperar o voto. Mas o eleitor está de olho e, desta vez, pode cobrar a conta na urna.
Promessa
Prometer emprego, saúde, segurança, estrada e prosperidade qualquer candidato promete. Difícil é convencer o eleitor de que a promessa não ficará no palanque. Na urna, o discurso acaba; começa a cobrança por proposta, projeto e resultado.
Recorrem
Falando em palanque, muitos parlamentares em busca da reeleição ou de outro mandato recorrem ao velho “eu fiz”. Mas há diferença entre o “eu fiz” e a realização de um mandato construído em nome da sociedade e do eleitor.
Detalhe
O discurso do “eu fiz” esconde um detalhe: obras e ações podem resultar de emendas ou da execução do Poder Executivo, fruto de articulação política. E o dinheiro? Vem, em última análise, dos impostos pagos pelo cidadão e contribuinte.
Reconhece
Na linguagem do discurso, a diferença importa. Mariana Carvalho, ex-deputada federal por dois mandatos e candidata ao Senado pelo Republicanos, usa outra expressão: “realização do nosso mandato”. É uma escolha que reconhece a origem pública dos recursos.
Registrou
Em Porto Velho, atuação parlamentar de Mariana Carvalho (Republicanos) registrou recursos para saúde, pavimentação, passeios públicos, passarelas e outras obras. Em vez do “eu fiz”, o discurso atribui a realização ao mandato e aos recursos públicos, pagos pelo cidadão eleitor.
Hospitais
Em entrevistas, Marcos Rogério (PL) recorre ao discurso do “eu fiz” ao afirmar que construiu três hospitais, citando inclusive os municípios. Ocorre que sua atuação parlamentar foi destinar emendas, enquanto a execução cabe às prefeituras.
Articulou
Como deputado federal e senador, Marcos Rogério (PL) articulou a destinação de recursos para o Hospital Regional de Ji-Paraná. O projeto avançou após vitória do aliado Affonso Cândido (PL) para conduzir os destinos da Prefeitura de Ji-Paraná.
Entraves
Durante anos, a construção do Hospital Regional de Ji-Paraná enfrentou entraves políticos e administrativos. Em dezembro de 2024, Rogério e Affonso anunciaram R$ 48 milhões para iniciar a obra, sinalizando uma nova etapa para o projeto.
Ganhou
Agora, com Affonso Cândido no comando da Prefeitura e aliado político de Rogério, o hospital ganhou recursos e condições para avançar. Em 2026, outros R$ 20 milhões foram anunciados para a construção da unidade.
Puxou
Em entrevista ao Resenha Política, Acir Gurgacz (PDT) também puxou o “eu fiz” ao falar do Hospital Regional de Ariquemes. De fato, articulou recursos, mas a obra parou e R$ 32 milhões acabaram devolvidos à União.
Além
Acir Gurgacz (PDT) foi além no podcast Resenha Política, com o jornalista Robson Oliveira, ao relatar a história dos R$ 32 milhões destinados à construção do Hospital Regional de Ariquemes.
Suficiente
Segundo Acir Gurgacz (PDT), o recurso foi colocado por ele na bancada federal e, à época, seria suficiente para executar a obra. Mas, conforme seu relato, o Governo de Rondônia não levou o projeto adiante.
Negociações
Na entrevista, Robson Oliveira pergunta: “Por que Confúcio não fez?”. Acir responde, de forma direta: “Williames Pimentel”. Em seguida, relata que a obra chegou a começar, com a execução da fundação, mas que, posteriormente, começaram as negociações com o empreiteiro.
Intrigante
Segundo Acir, o empreiteiro teria ficado revoltado com as tratativas, abandonado a obra e dito: “Não faço mais”. É então que Robson faz a pergunta que apimenta o relato: “Começaram a negociar em que nível?”. Acir responde: “Não sei”, acompanhado de uma expressão de riso. E é justamente nesse “não sei” que a história fica ainda mais intrigante.
Crítica
A crítica de Acir Gurgacz (PDT) ao governador Coronel Marcos Rocha (PSD) é direta: segundo o ex-senador, os recursos que havia articulado para o Hospital Regional de Ariquemes acabaram devolvidos, sem que a obra saísse do papel.
Pergunta
O episódio ganha contorno político porque Marcos Rocha é do mesmo partido de Adailton Fúria (PSD), candidato governista ao Governo de Rondônia. Em política, a pergunta fica no ar: quem articulou o recurso, quem deveria executar e por que o dinheiro voltou para a União?
Registro
Antes da crítica, registro meu carinho e admiração por Silvia Cristina (PP) e sua luta contra o câncer, causa que acompanho de perto, inclusive porque passei meses lutando para que um problema estomacal não evoluísse para um câncer.
Bandeira
Contudo, Silvia recorre ao “eu fiz quatro hospitais”. Falando Sério, não é bem assim. O Hospital do Amor foi uma bandeira do então governador Confúcio Moura (MDB) para transformar Porto Velho em centro de excelência no tratamento do câncer.
Amor
A construção do Hospital do Amor teve apoio do Governo Confúcio e parceria da ex-deputada federal Marinha Raupp e do ex-senador Valdir Raupp, ambos do MDB. A inauguração, em 23 de novembro de 2017, contou até com a presença do então presidente Michel Temer (MDB).
Parceria
Silvia agarrou a parceria com a Fundação Pio XII - para sobrevivência política, mantenedora da rede de hospitais de câncer, e destinou emendas para a instituição. Mas essa rede se sustenta com SUS, emendas, doações e leilões. Portanto, o “eu fiz” cabe às emendas, mas a história é maior. “Realização do nosso mandato” seria mais justo.
Preferem
Existem políticos que admiro justamente porque, ao apresentar suas realizações, preferem a expressão “realização do nosso mandato” ao personalista “eu fiz”. É o caso de Alan Queiroz (PL), Luizinho Goebel (PL), Marcelo Cruz (Avante), Alex Redano (Republicanos), Cássio Gois (PSD), Ismael Crispim (PP), Ieda Chaves (União) e Ribeiro do Sinpol (PRD).
Reconhecer
Não significa diminuir o papel do parlamentar na destinação de emendas ou na articulação política. Pelo contrário: significa reconhecer que a realização é coletiva, envolve Executivo, Legislativo e, principalmente, dinheiro público, ou seja, recursos que pertencem ao cidadão e saem dos impostos pagos por todos.
Sério
Falando sério, existe uma diferença enorme entre dizer “eu fiz” e “realização do nosso mandato”. A primeira frase personaliza o feito; a segunda reconhece a força do mandato e respeita quem realmente paga a conta. Na política, até as palavras revelam quem entende o verdadeiro significado de representar o eleitor.


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