PORTO VELHO, RO - Há exatamente nove meses, em 29 de novembro de 2025, a eleição para o Governo de Rondônia ainda era formada mais por possibilidades do que por certezas. Havia nomes cogitados, alianças por construir, candidaturas ainda indefinidas e desistências que sequer haviam ocorrido. Foi naquele ambiente que surgiu o editorial “Voto da esquerda é o ‘santo graal’ para chegar ao Governo de Rondônia em 2026”.
A provocação era menos ideológica do que matemática.
Num estado de maioria conservadora, o voto capaz de interferir decisivamente no resultado poderia estar justamente fora dessa maioria. O texto resumia a ideia sem rodeios: “O fator definitivo mora em outra gaveta: o voto da esquerda.” Pouco depois, condensava a tese na metáfora que atravessaria os meses seguintes: “É o santo graal.”
O raciocínio nunca pressupôs uma esquerda suficientemente numerosa para conquistar sozinha o Palácio Rio Madeira. A hipótese era outra: esse eleitorado poderia não ter tamanho para eleger o governador, mas conservar força suficiente para ajudar a decidir qual dos dois nomes restantes seria governador.
Agosto de 2026 finalmente colocou alguns números diante daquela hipótese.
Na pesquisa estimulada da Quaest divulgada em 25 de agosto, Expedito Netto, candidato do PT, aparece com 10% das intenções de voto. Hildon Chaves também registra 10%. Outros 22% estão indecisos e 10% declaram voto branco, nulo ou dizem que não irão votar. Entre os entrevistados, 57% afirmam que a escolha atual é definitiva, enquanto 42% admitem que ainda podem mudar de candidato até a eleição.
A Quaest ouviu 804 eleitores com 16 anos ou mais entre 21 e 24 de agosto de 2026. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento foi encomendado pela Rede Amazônica e registrado na Justiça Eleitoral sob os números RO-05711/2026 e BR-00490/2026.
Os 10% de Expedito Netto precisam ser vistos pelo tamanho que efetivamente possuem: sem desprezo, mas também sem lhes atribuir uma dimensão que a pesquisa não oferece.
Netto acredita que chegará ao segundo turno. É direito do candidato acreditar e é natural que seus apoiadores trabalhem para isso. Pesquisa de agosto não substitui urna de outubro, sobretudo quando 22% ainda não escolheram candidato e uma parcela considerável dos entrevistados admite mudar de posição.
Possibilidade, contudo, não é a mesma coisa que probabilidade.
No quadro hoje apresentado, uma candidatura do PT ao Governo de Rondônia continua submetida a uma equação eleitoral difícil. E é justamente essa dificuldade que torna aqueles 10% politicamente interessantes.
Em outra ocasião, já em 2026, o site abordou o tema novamente. A esquerda rondoniense foi apresentada como uma força pequena demais para governar sozinha, mas capaz de ocupar a posição de “fiel da balança” caso a disputa terminasse dividida entre dois nomes de outros campos políticos.
É sob essa perspectiva que o empate entre Expedito Netto e Hildon Chaves chama atenção.
Hildon não chega aos 10% sem história administrativa para apresentar. Governou Porto Velho por dois mandatos e deixou a Prefeitura com índices elevados de avaliação. Em julho de 2024, a Paraná Pesquisas registrou 76,3% de aprovação de sua administração em pergunta direta. Em dezembro do mesmo ano, levantamento do Instituto Perfil foi divulgado com 88% quando somados os conceitos “ótima”, “boa” e “regular” — índice que não deve ser confundido com aprovação direta, mas que ainda assim registra uma percepção amplamente favorável sobre a gestão ao final do mandato.
O contraste é revelador.
De um lado está um ex-prefeito submetido a oito anos de administração da maior cidade do estado, duas eleições municipais e avaliações públicas de seu desempenho. Do outro, uma candidatura que também reúne votos de um eleitorado identificado com determinado campo político, suas bandeiras e suas convicções.
Na fotografia da Quaest, essas trajetórias diferentes desembocam exatamente no mesmo lugar: 10%.
Isso ajuda a recordar algo frequentemente esquecido nas análises eleitorais. Experiência administrativa pesa. Avaliação de governo pesa. Histórico eleitoral pesa. Mas identidade política também vota.
E é a partir daí que os 10% de Expedito Netto passam a interessar menos como medida da possibilidade de sua candidatura chegar ao segundo turno e mais como indicação do tamanho de uma parcela do eleitorado que continuará existindo depois do primeiro.
Se Netto ficar fora da etapa final, os votos hoje depositados nele não serão extintos junto com a candidatura.
Também não serão transferidos automaticamente.
Voto não pertence a partido, dirigente ou candidato. Permanece com o eleitor.
Quando a disputa for reduzida a dois nomes, esse eleitor terá de decidir novamente. Poderá escolher um dos finalistas, votar em branco, anular ou simplesmente não comparecer. Nenhuma dessas decisões pode ser determinada antecipadamente.
É precisamente por isso que essa parcela importa.
Uma candidatura com 10% no primeiro turno representa, caso a fotografia da Quaest se aproxime do resultado das urnas, apenas uma fração de um cenário ainda fragmentado. Quando restarem duas opções, porém, o peso relativo de um grupo eleitoral identificado em torno de determinadas convicções pode crescer consideravelmente.
Não porque a esquerda tenha se transformado em maioria.
Mas porque o segundo turno reorganiza a eleição.
O erro mais fácil em Rondônia é partir de uma constatação verdadeira — a predominância eleitoral do campo conservador — e extrair dela uma conclusão que não necessariamente decorre do fato: a de que somente os votos desse campo interessam para definir o vencedor. A eleição de 2022 deixou uma advertência bastante concreta sobre isso.
“Majoritariamente” não significa “exclusivamente”.
Maioria não é unanimidade.
Primeiro turno mede, sobretudo, a capacidade de cada candidato reunir os seus.
Segundo turno exige algo diferente: conquistar também parte dos eleitores que escolheram outros nomes.
Essa mudança parece óbvia, mas costuma desaparecer quando favoritismo, pesquisas e discursos de campanha produzem a sensação de que determinada candidatura já atravessou a linha de chegada antes de a corrida terminar.
É aí que a matemática fica perigosa.
Quando várias candidaturas dividem o eleitorado, uma fatia de 10% pode parecer periférica. Quando a eleição se reduz a duas alternativas, a mesma parcela pode ser maior do que a diferença entre o primeiro e o segundo colocado.
O “santo graal”, portanto, nunca precisou significar uma candidatura progressista caminhando para o governo. Seu sentido é quase o inverso: uma esquerda eleitoralmente minoritária, com dificuldades para construir uma maioria própria, mas numerosa demais para ser ignorada por quem pretende construir a maioria definitiva.
Há uma diferença fundamental entre esses dois papéis.
O eleitor progressista não precisa abandonar suas convicções nem aderir integralmente ao programa de um dos finalistas. Em segundo turno, precisará decidir qual das alternativas disponíveis prefere — ou qual rejeita menos.
Eleição majoritária também é feita disso.
Por isso, o candidato que chegar à etapa final não terá necessariamente de converter esse eleitor ao seu campo ideológico. Terá de oferecer razões suficientes para que ele atravesse a ponte.
Essa talvez seja uma das nuances mais importantes da eleição de 2026.
Rondônia pode continuar sendo um estado eleitoralmente conservador e, ao mesmo tempo, produzir uma disputa em que parte do eleitorado progressista tenha peso decisivo no desfecho. As duas afirmações não se anulam.
O problema começa quando uma campanha enxerga apenas a primeira.
Quem chegar ao segundo turno imaginando que basta representar melhor a maioria pode descobrir que eleição não é uma disputa abstrata pela hegemonia política do estado. É uma soma concreta de votos. E 2022 já mostrou que os votos que faltam no segundo turno podem estar exatamente onde um candidato decidiu não procurar.
Não há hoje elemento suficiente para afirmar para onde irão os votos que aparecem com Expedito Netto. Também seria imprudente tratá-los antecipadamente como propriedade de qualquer candidatura. A própria eleição ainda está em curso, e as urnas podem contrariar qualquer projeção feita em agosto.
Mas, se Netto não estiver no segundo turno, esses votos terão de ser conquistados outra vez.
Esse é o ponto.
Uma campanha pode entrar na etapa final na frente, reunir o maior campo político do estado e ainda assim perder porque não conseguiu conversar com quem estava fora de sua fronteira original.
Favoritismo é vantagem.
Não é mandato sacramentado.
Quando outubro reduzir o tabuleiro a dois nomes, talvez fique mais claro por que uma parcela minoritária mereceu, ainda em novembro do ano passado, uma metáfora tão grandiosa.
Ela pode não ter votos suficientes para colocar seu candidato no governo.
Mas pode ter votos suficientes para impedir que outro chegue lá.
E, numa eleição equilibrada, essa pode ser a diferença entre comemorar a vitória e descobrir, na última hora, que alguém tirou o doce da boca do "vencedor".


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