PORTO VELHO, RO – A briga aberta no campo da direita entre Flávio Bolsonaro, Gilberto Kassab e Ronaldo Caiado nasceu no tabuleiro presidencial, mas tem potencial para atravessar as fronteiras dos estados e produzir efeitos onde o PSD disputa governos locais. Em Rondônia, quem pode acabar recebendo parte dessa carga, ainda que indiretamente, é Adaílton Fúria, candidato do PSD e nome do grupo que atualmente ocupa o Governo do Estado na disputa pelo Palácio Rio Madeira. Fúria não participou da troca de ataques, mas Flávio colocou em circulação uma associação política simples, de fácil reprodução e especialmente sensível diante do eleitorado conservador: “PSD é Lula”.

Flávio Bolsonaro: "PSD é Lula". Frase pode respingar na campanha de Adaílton Fúria em Rondônia / Reprodução-Captura de tela (X/Twitter)
O efeito dessa ofensiva em Rondônia não pode ser tratado como certeza eleitoral, muito menos como sentença sobre o futuro da candidatura de Fúria. Trata-se de uma possibilidade política. O problema começa a existir se adversários locais passarem a reproduzir a associação feita pelo filho de Jair Bolsonaro e conseguirem transformar uma disputa presidencial em questionamento dirigido ao candidato do PSD no Estado. Nesse cenário, Fúria poderá ser pressionado a explicar até que ponto sua candidatura representa uma construção própria e até que ponto as posições nacionais de Kassab e do partido devem ou não ser relacionadas ao projeto estadual.
A situação ganha importância porque Fúria vem buscando construir identidade própria na corrida pelo Governo. É o candidato do grupo que ocupa atualmente o Palácio Rio Madeira, mas procura não permitir que sua candidatura seja apresentada apenas como extensão da administração estadual. Essa tentativa de individualização é politicamente compreensível. Ser o postulante da situação traz consigo a estrutura política construída pelo grupo governista, mas também significa administrar os desgastes naturalmente acumulados por qualquer governo ao longo do tempo.
Agora existe um componente adicional, produzido fora de Rondônia. Kassab e Caiado passaram a confrontar Flávio Bolsonaro justamente em um dos pontos centrais da disputa presidencial: quem teria melhores condições de enfrentar Lula. Na última sexta-feira, 14, Kassab voltou a sustentar que Flávio não venceria a eleição, afirmou que a postura de partidos do Centrão acabava favorecendo Lula e apresentou Caiado como a alternativa oposicionista capaz de derrotar o presidente.
Há um interesse eleitoral direto nessa discussão. Kassab não é apenas presidente do PSD ou articulador da candidatura de Caiado. Desde a convenção nacional do partido realizada em 26 de julho, integra oficialmente a chapa presidencial como candidato a vice-presidente. Caiado disputa a Presidência; Kassab disputa a Vice-Presidência. Quando o dirigente do PSD questiona a capacidade eleitoral de Flávio, portanto, também participa de uma disputa concreta por espaço dentro do eleitorado contrário a Lula.
Flávio respondeu no ponto em que o histórico de Kassab oferece mais material aos adversários: a relação do PSD com governos de campos diferentes. Ao resumir sua reação na ideia de que “PSD é Lula”, procurou transformar a trajetória pragmática da legenda em uma identidade política direta com o petismo. É uma simplificação. Ter filiados ocupando ministérios, integrar uma base parlamentar, participar formalmente de um governo e definir uma posição partidária nacional são situações diferentes. Mas campanha eleitoral raramente se desenvolve apenas em torno dessas distinções.
É justamente aí que Rondônia entra na equação. O Estado possui histórico recente de forte presença eleitoral do campo conservador e bolsonarista. Jaime Bagattoli, por exemplo, foi eleito senador em 2022 pelo PL, legenda de Jair Bolsonaro naquele pleito, basicamente só entoando o nome do patriarca do bolsonarismo. Nesse ambiente, manifestações produzidas por integrantes da família Bolsonaro tendem a encontrar audiência política relevante. Isso não significa que o eleitor rondoniense necessariamente transferirá a Fúria uma acusação dirigida a Kassab. Significa que existe terreno eleitoral para que adversários tentem estabelecer essa ligação.
Se isso acontecer, perguntas que hoje não estão necessariamente no centro da campanha estadual podem começar a aparecer. Fúria concorda com a avaliação de Kassab sobre Flávio? Como se posiciona diante do governo Lula? Até onde a estratégia presidencial de Caiado representa o PSD de Rondônia? O fato de o partido possuir integrantes no primeiro escalão federal significa alguma coisa para a candidatura estadual? Nenhuma dessas perguntas demonstra alinhamento de Fúria com Lula. Elas apenas mostram como uma disputa nacional pode alterar o enquadramento de uma campanha regional.
Também é necessário separar os fatos da retórica. Não seria correto afirmar que o PSD, como instituição, foi simplesmente um partido integrante do governo Jair Bolsonaro. O que pode ser demonstrado objetivamente é que políticos filiados à legenda de Kassab ocuparam o primeiro escalão durante parte daquela administração.
Fábio Faria assumiu o Ministério das Comunicações em junho de 2020 ainda filiado ao PSD. Permaneceu nessa condição até 24 de março de 2022, quando deixou o partido e ingressou no PP, continuando como ministro até dezembro. Poucos dias depois de sua mudança partidária, Marcos Montes, que já havia liderado a bancada do PSD na Câmara, assumiu o Ministério da Agricultura e permaneceu filiado à legenda até o encerramento do governo Bolsonaro.
No terceiro governo Lula, a presença ministerial de filiados ao PSD foi numericamente maior e começou já na formação da administração. Carlos Fávaro assumiu a Agricultura e Pecuária, Alexandre Silveira ficou com Minas e Energia e André de Paula recebeu Pesca e Aquicultura. Eram três integrantes do PSD simultaneamente no primeiro escalão federal.
Essa configuração mudou em 2026. Fávaro deixou o Executivo para retornar ao Senado e disputar a reeleição. André de Paula saiu da Pesca e assumiu justamente a Agricultura, enquanto Alexandre Silveira permaneceu em Minas e Energia. Em agosto de 2026, portanto, Lula mantém dois ministros filiados ao PSD, e não três.
A diferença é relevante. Bolsonaro teve políticos do PSD ocupando ministérios ao longo de seu mandato, essencialmente um filiado à legenda por vez. Lula começou o terceiro governo com três integrantes do partido simultaneamente na Esplanada e, mais de três anos depois, continua com dois. Isso não transforma automaticamente o PSD inteiro em petista, da mesma maneira que a presença de Fábio Faria ou Marcos Montes não tornou automaticamente o partido bolsonarista. Mas oferece aos adversários elementos objetivos para explorar politicamente a capacidade de Kassab de manter sua legenda próxima de diferentes centros de poder.
O próprio percurso de Kassab amplia esse argumento. Em 2014, o PSD apoiou oficialmente a reeleição de Dilma Rousseff. No início de 2015, Kassab assumiu o Ministério das Cidades no segundo governo da petista. Em abril de 2016, depois da decisão da bancada pessedista de apoiar o impeachment, deixou o ministério. Pouco depois, já sob Michel Temer, voltou ao primeiro escalão como ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, onde permaneceu até 2018.
Anos mais tarde, enquanto integrantes do PSD ocupavam ministérios no governo Lula, Kassab estava em São Paulo trabalhando diretamente na administração de Tarcísio de Freitas, governador identificado politicamente com o campo que levou Jair Bolsonaro à Presidência. Kassab assumiu a Secretaria de Governo e Relações Institucionais paulista em janeiro de 2023 e permaneceu no cargo até 25 de março de 2026, quando saiu para se dedicar ao processo eleitoral.
Essa fotografia ajuda a explicar por que o rótulo de fisiologismo acompanha Kassab entre seus críticos. De um lado, integrantes de seu partido em posições importantes no governo Lula. De outro, o próprio presidente nacional da legenda participando do governo Tarcísio. Antes disso, Kassab havia sido ministro de Dilma e de Temer. O histórico revela uma capacidade incomum de transitar por estruturas administrativas comandadas por forças políticas concorrentes.
Chamar esse comportamento de fisiologismo ou de pragmatismo depende também da leitura política adotada. Para os críticos, trata-se da representação clássica de uma legenda que procura preservar espaço independentemente de quem ocupa o poder. Para seus defensores, significa capacidade de diálogo, construção de governabilidade e autonomia para que diferentes diretórios estaduais estabeleçam alianças distintas. As duas interpretações fazem parte da discussão, mas o histórico das composições existe objetivamente.
A própria origem do PSD contribuiu para essa imagem. Quando o partido ainda estava sendo organizado, em 2011, Kassab tornou célebre a formulação segundo a qual a nova legenda não seria de esquerda, de direita nem de centro. Posteriormente, explicou que a declaração havia sido feita antes da consolidação programática do partido e passou a classificá-lo como uma força de centro. A frase inicial, porém, sobreviveu politicamente e acabou funcionando como uma síntese do grau de flexibilidade demonstrado pela legenda ao longo dos anos.
Essa elasticidade também passou a ser explorada anteriormente pelo bolsonarismo. Em 2024, Nikolas Ferreira participou de uma ofensiva pública contra o PSD, chegou a tratar o partido como adversário e pressionou integrantes da legenda em torno do apoio a iniciativas contra o ministro Alexandre de Moraes. Também utilizou a presença de pessedistas no governo Lula como argumento contra a sigla. A ofensiva atual de Flávio, portanto, não nasce inteiramente do nada: recupera uma desconfiança que já havia sido trabalhada por personagens influentes do mesmo campo político.
O paradoxo de 2026 está justamente aí. Kassab, agora candidato a vice-presidente de Ronaldo Caiado, tenta apresentar o governador como uma alternativa conservadora capaz de derrotar Lula enquanto carrega o histórico de um partido que teve filiados no primeiro escalão de Bolsonaro, passou a ter presença ministerial numericamente maior na administração Lula e manteve seu principal dirigente no governo de Tarcísio de Freitas. Caiado, por sua vez, procura disputar com Flávio o direito de liderar o eleitorado antipetista.
Kassab sustenta que Flávio seria um adversário mais conveniente para Lula em um segundo turno e que Caiado teria melhores condições de derrotar o presidente. Essa é uma tese eleitoral apresentada por alguém que integra diretamente a chapa do PSD, e não uma conclusão definitiva produzida pelas pesquisas.
Há, inclusive, um dado divulgado no mesmo dia que relativiza esse diagnóstico. A pesquisa Quaest registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o nº BR-06773/2026 mostrou Lula com 43% e Flávio Bolsonaro com 40% em uma simulação de segundo turno, resultado considerado empate técnico levando em conta a margem de erro de dois pontos percentuais. Contra Ronaldo Caiado, Lula apareceu com 44%, enquanto o candidato do PSD registrou 37%. O levantamento ouviu 2.004 eleitores entre os dias 10 e 13 de agosto.
Os números não antecipam o resultado das urnas nem impedem Caiado de crescer ao longo da campanha. Também não tornam necessariamente errada uma avaliação política de Kassab sobre o potencial futuro de seu candidato. O que fazem é impedir que a afirmação de que Flávio não teria condições de derrotar Lula seja apresentada como conclusão objetiva dos levantamentos disponíveis. Naquela pesquisa específica, divulgada justamente quando a controvérsia ganhou força, Flávio estava numericamente mais próximo de Lula do que Caiado.
A estratégia política de Kassab é compreensível dentro dessa disputa. Para Caiado ampliar seu espaço, Flávio precisa deixar de concentrar parcela tão grande do eleitorado da direita. Ao questionar sua competitividade contra Lula, Kassab tenta criar uma razão prática para que esse eleitor procure outra candidatura. Flávio responde utilizando o histórico do PSD para construir o argumento inverso: fortalecer Caiado significaria fortalecer um partido que mantém integrantes no governo Lula. Um lado tenta apresentar o outro como funcional à permanência do petista no poder.
É nesse choque que Adaílton Fúria entra involuntariamente. O candidato ao Governo de Rondônia não precisa tomar parte da discussão para ser alcançado por ela. Basta que a disputa presidencial transforme o PSD em objeto de julgamento nacional. Se Flávio conseguir consolidar entre seus apoiadores a associação entre Kassab, PSD e Lula, candidatos pessedistas em estados conservadores poderão ser cobrados a estabelecer alguma distância dessa imagem. Se Caiado e Kassab conseguirem quebrar essa associação e disputar com força o voto antipetista, o efeito poderá ser diferente.
Para Fúria existe ainda uma segunda camada. Ser o candidato do grupo que atualmente governa Rondônia já significa disputar uma eleição carregando simultaneamente os bônus e os ônus naturais da situação. Acrescentar a esse cenário uma guerra nacional envolvendo Lula, Flávio Bolsonaro, Kassab e Caiado aumenta o número de variáveis que não dependem diretamente da campanha estadual. Quanto maior a nacionalização da disputa local, maior também poderá ser a dificuldade de manter o debate concentrado exclusivamente nas questões de Rondônia.
Por isso, a questão central não é afirmar que Fúria tenha se tornado candidato de Lula. Os fatos não permitem essa conclusão. Também seria incorreto transformar a existência de ministros pessedistas em prova de que todo filiado ao PSD integra politicamente o governo federal. O ponto é outro: Flávio Bolsonaro tenta construir justamente essa percepção, e percepções políticas podem produzir consequências eleitorais mesmo quando simplificam relações partidárias muito mais complexas.
O PSD fornece material suficiente para que essa disputa prospere. Teve filiados no primeiro escalão de Bolsonaro. Começou o terceiro governo Lula com três ministros e ainda mantém dois. Kassab foi ministro de Dilma, participou do governo Temer e comandou a articulação política de Tarcísio em São Paulo enquanto integrantes de seu partido ocupavam a Esplanada de Lula. Agora é candidato a vice-presidente na chapa de Caiado e trabalha para retirar de Flávio a condição de principal alternativa da direita.
Esse mosaico é chamado de pragmatismo por quem enxerga capacidade de articulação e de fisiologismo por quem vê uma política excessivamente orientada pela proximidade com o poder. Talvez seja justamente essa ambiguidade a marca mais evidente do PSD de Kassab: uma legenda suficientemente flexível para participar de arranjos distintos e suficientemente ampla para abrigar políticos que, em determinados estados, apoiam projetos nacionais concorrentes.
O problema de Kassab é vender Caiado como nova alternativa nacional sem conseguir apagar a história política da própria legenda que dirige. O problema de Flávio é transformar essa história em argumento forte o bastante para impedir a migração de eleitores da direita. E o problema de Adaílton Fúria é evitar que uma disputa da qual não participou passe a definir a maneira como parte do eleitorado de Rondônia enxerga sua candidatura.
Independentemente de onde desembocar o confronto entre Flávio Bolsonaro, Gilberto Kassab e Ronaldo Caiado, há razões para considerar que seus efeitos não ficarão restritos à corrida pelo Palácio do Planalto. Em Rondônia, o PSD disputa o Governo com Adaílton Fúria. Em um estado onde o eleitorado conservador possui peso expressivo, uma ofensiva nacional que tente associar a legenda a Lula não pode ser simplesmente ignorada. Caso esse enquadramento seja transportado para a campanha estadual, caberá a Fúria encontrar a forma política de responder a ele sem assumir responsabilidades por movimentos nacionais que não controla. Afinal, numa eleição, a sigla ao lado do nome do candidato também conta uma história — e a história recente do PSD passou por praticamente todos os lados da mesa.


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