A startup Ecotech Amazônia, criada na Universidade Federal de Rondônia (UNIR), foi recentemente habilitada pelo Ministério da Saúde (MS) para integrar o Laboratório InovaSUS Digital. Com o resultado final da seleção de parceiros digitais divulgado no último dia 28 de abril (acesse aqui), a iniciativa reforça o protagonismo da Amazônia no desenvolvimento de soluções tecnológicas aplicadas ao SUS.
A Ecotech Amazônia foi selecionada por meio de um chamamento público coordenado pela Secretaria de Informação e Saúde Digital do MS, passando a compor um banco estratégico de instituições aptas a desenvolverem projetos voltados ao SUS Digital e ao programa Agora Tem Especialistas.
Inovação desenvolvida a partir da realidade amazônica
Um dos principais diferenciais da startup está justamente na forma como enfrentou desafios reais da vigilância em saúde. A principal solução apresentada, a plataforma EGGSCAN-AI, voltada ao monitoramento do Aedes aegypti, surgiu a partir de um problema prático: a baixa qualidade das amostras de palhetas das ovitrampas coletadas em campo
Coletadas em ambiente externo, as amostras frequentemente apresentam sujeira, presença de outros insetos e variações que dificultam a identificação dos ovos do mosquito, que são extremamente pequenos.
Segundo o coordenador do programa, Ilton Alves, o desenvolvimento da plataforma enfrentou obstáculos importantes relacionados à qualidade das amostras coletadas em campo. “Os principais desafios técnicos foram encontrar um padrão nas palhetas, que vêm com muita sujeira e insetos por serem coletadas em campo. Nenhum algoritmo convencional funcionou por causa da dificuldade em identificar os ovos do Aedes aegypti, que são muito pequenos. A solução foi usar scanners de impressoras para gerar imagens de alta qualidade em ambiente controlado e viabilizar o treinamento da inteligência artificial.”
Após cerca de dois anos de testes sem sucesso com métodos convencionais, a equipe encontrou uma solução criativa: utilizar scanners de impressoras comuns para capturar imagens em alta resolução e em ambiente controlado. A estratégia permitiu gerar grandes volumes de imagens com qualidade suficiente para treinar os modelos de inteligência artificial, superando um dos principais gargalos do projeto.
Tecnologia acessível e eficiente
Outro ponto que diferencia a EGGSCAN-AI é sua acessibilidade. Ao contrário de outras soluções que exigem microscópios ou equipamentos de alto custo, a plataforma foi desenvolvida para funcionar com um scanner doméstico e em ambiente web, sem necessidade de infraestrutura avançada.
O sistema utiliza redes neurais especializadas em visão computacional, mas foi otimizado para operar sem uso intensivo da Unidade de Processamento Gráfico (GPU), o que permite sua adoção por municípios e equipes com recursos limitados.
Além disso, a tecnologia foi pensada especificamente para o substrato oficial utilizado pelo Ministério da Saúde, a palheta de fibra de madeira, o que facilita sua integração com os protocolos já existentes no país.
Testada em 130 palhetas reais coletadas em campo, a solução alcançou cerca de 98% de precisão em comparação com a contagem manual feita por especialistas. Na prática, isso significa reduzir significativamente o tempo de análise e ampliar a capacidade de monitoramento sem necessidade de ampliar equipes.
Integração entre ensino, ciência e tecnologia
O desenvolvimento da plataforma também evidencia o papel da formação acadêmica na inovação. Três estudantes participaram diretamente do projeto, integrando diferentes áreas do conhecimento.
O pesquisador William Cardoso Barbosa iniciou sua trajetória ainda na graduação, na UNIR, e atualmente integra o programa de pós-graduação em Ciências de Computação e Matemática Computacional da Universidade de São Paulo (USP). Atuando no desenvolvimento técnico da solução, ele foi responsável pela modelagem da inteligência artificial, processamento das imagens e construção da plataforma web.
Já os estudantes Matheus de Araújo Paz e Mirilene Mendes Martins, vinculados ao programa de Biologia Experimental da Fiocruz em parceria com a UNIR, atuaram na parte entomológica do projeto. Eles foram responsáveis pela instalação das ovitrampas, pela coleta das amostras em Porto Velho e pela contagem manual dos ovos em microscópio, etapa essencial para treinar e validar o sistema.
A colaboração entre computação e biologia foi determinante para o sucesso da iniciativa, unindo conhecimento técnico e experiência de campo.
Próximos passos
Com a habilitação no InovaSUS Digital, a Ecotech Amazônia passa a integrar um seleto grupo de instituições aptas a colaborar com o Ministério da Saúde em projetos estratégicos. Embora não haja contratação imediata, a startup poderá ser acionada para futuras demandas dentro do SUS.
A expectativa agora é avançar para novas etapas de validação e expansão da tecnologia, ampliando seu uso em diferentes regiões do país e contribuindo para o enfrentamento de arboviroses que seguem como um dos principais desafios da saúde pública brasileira.



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