Adailton Fúria abre minha série de análises dos pré-candidatos ao Governo de Rondônia em 2026. Tanto ele, quanto Marcos Rogério e Hildon Chaves, já passaram por entrevista em meu podcast e esses e os demais serão analisados nas próximas edições com o mesmo critério.
Adailton Fúria foi prefeito de Cacoal por cinco anos. Colocou o município em evidência, fez muita mídia da Prefeitura e deixou Cacoal numa posição de maior visibilidade. Tinha mandato, estrutura e reconhecimento regional construído. Renunciou em 2 de abril de 2026 para disputar o Governo do Estado. Uma aposta corajosa cuja execução, até aqui, não está à altura do que exige.
Existe uma regra no marketing político que aprendi ao longo de quase duas décadas de trabalho. Quando um executivo renuncia ao mandato para disputar um cargo maior, o vice que assume precisa manter absolutamente tudo como estava pelos meses que antecedem a eleição. Não mexe em uma peça sequer. Não é uma regra de lealdade. É estratégica. O eleitor percebe quando a gestão muda de tom. E quando percebe, começa a questionar o que estava sendo entregue antes.
No caso de Cacoal, o ex-vice Tony Pablo assumiu e em poucos dias já gerava conteúdo público questionando a situação financeira do Município e a herança que recebeu. Declarou que precisa cuidar do seu CPF. Uma frase legítima individualmente, mas devastadora para a narrativa de quem deixou o cargo. Vale um parêntese aqui. Tony Pablo parece esquecer que é Prefeito entrando e que, mais cedo ou mais tarde, será também o Prefeito saindo. Quem não conhece essa regra vai conhecê-la da pior forma possível quando chegar a sua vez. A política tem memória, e todo o meio da administração municipal também.
O resultado é que Fúria, que deveria estar construindo narrativa de candidato ao Governo, gasta energia respondendo sobre parcela de precatório e gravando lives para explicar que Cacoal não está quebrada. Isso não é campanha ao Governo de Rondônia. É gestão de crise municipal.
Há ainda um erro mais grave. Em uma live recente, Fúria relata ter ligado para a secretária de Fazenda e para a procuradora do Município para obter informações financeiras da cidade, usando essas informações para contrapor publicamente o discurso do prefeito atual. Do ponto de vista jurídico, isso levanta questões sérias. Servidores comissionados que repassam informações internas sem autorização da gestão vigente também podem ter seus cargos questionados. Mas o problema mais imediato é estratégico. Fúria sinalizou que ainda manda em Cacoal, tornou-se corresponsável por tudo que der errado na gestão Tony Pablo e entregou à oposição exatamente a narrativa que ela precisava. Um candidato a Governador não deveria estar provando que controla uma Prefeitura. Deveria estar provando que é capaz de administrar um Estado.
Nem tudo é erro. Fúria saiu de Cacoal de moto, passando pelas praças de pedágio da BR-364, e chegou à BR-425 que liga a BR-364 a Guajará-Mirim, com os buracos que tornam a rodovia intransitável. Filmou tudo e endereçou diretamente a Marcos Rogério, como atual presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado. Com humor, sem agressividade, mas com alfinetada precisa. O problema é que bater em adversário não constrói narrativa própria. Marcos Rogério, mesmo sem querer, estava reagindo no mesmo dia, capitaneando uma audiência sobre a BR-364. Fúria usa o gancho mas não fecha. O eleitor quer saber o que você vai fazer, não só o que o outro não fez. E há um risco adicional que poucos estão enxergando. Concentrar os ataques em Marcos Rogério consolida uma oposição entre os dois. E Marcos Rogério é identificado com o bolsonarismo. Em Rondônia, o outro é associado à esquerda, e Fúria pode, sem perceber, atrair para si uma pecha que compromete sua viabilidade num eleitorado majoritariamente conservador.
O que mais chama atenção ao analisar os vídeos de Fúria é a ausência de um eixo condutor. Em um vídeo ele é o ex-prefeito defendendo Cacoal. Em outro, o pré-candidato atacando quem considera seu maior desafeto. Em outro, fazendo visitas como pré-candidato. Em outro, prestando contas sobre precatórios. E o eleitor, ao consumir esse conteúdo fragmentado, não consegue montar uma imagem clara de quem é Fúria e o que ele representa. Narrativa em marketing político não é o que o candidato fala. É o que o eleitor consegue repetir sobre ele sem que ele esteja presente. Identidade não se constrói em campanha. Se constrói agora.
O vínculo com Tony Pablo não tem solução simples. Cada vez que Fúria aparece comentando Cacoal, está dizendo ao eleitor que ainda é o Prefeito de Cacoal. A única saída é narrativa. Fúria precisa se tornar tão claramente pré-candidato ao Governo que Cacoal se torne uma parte da história, não o centro dela. Quanto mais Tony gera conteúdo questionando a gestão anterior, mais urgente se torna essa separação.
Fúria tem resultado, tem boa comunicação e tem disposição de campo. A visita ao Cone Sul, onde disseram que não precisava ir porque os Prefeitos já estavam fechados com o adversário, é sinal de quem não espera o palanque chegar. O problema não é a falta de ativos. É a falta de gestão estratégica desses ativos.
A pré-campanha de Fúria está muito frágil e pode ser a mais frágil de todas neste momento. Bem por causa disso, deveria ser o candidato com maior investimento em planejamento e estratégia, para que um alinhamento cirúrgico de narrativa seja construído e conduzido com consistência até a campanha. Cada vídeo reativo, cada live se explicando e cada ligação divulgada para servidor de Prefeitura custa tempo que, em ano eleitoral, não volta. Ainda dá para corrigir. Mas o relógio está correndo.
Ivan Lara é jornalista, consultor de marketing político e autor do livro Marketing Político Sem Achismo. Atua em campanhas municipais e estaduais em Rondônia. As análises desta série são independentes e não representam apoio ou oposição a qualquer candidatura.



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