PORTO VELHO, RO - Nesta edição do podcast RD Entrevista, apresentado por Vinícius Canova nos estúdios do Rondônia Dinâmica em parceria com o Informa Rondônia, o ex-prefeito de Porto Velho Hildon Chaves (União Brasil) concentrou boa parte de suas declarações nos temas mais sensíveis de sua pré-campanha ao governo de Rondônia, ao falar sobre adversários, alianças, mudança partidária, composição de chapa, antigas rupturas políticas e episódios que marcaram sua trajetória pública recente.
Ao ser questionado sobre uma declaração anterior em que havia dito que Adaílton Fúria poderá ser governador “um dia”, Hildon reafirmou a avaliação, mas a cercou de ressalvas e passou a marcar diferenças entre a experiência administrativa que atribui a si e a que enxerga no adversário. Segundo ele, “o que eu disse naquele momento, eu mantenho. Ele é um prefeito esforçado, um prefeito que tem seus compromissos, etc. Mas eu entendo que ele ainda não está pronto. Por isso que eu falei que, possivelmente, um dia ele possa vir a ser governador. Eu acho que falta cabelo branco ainda, falta um estofo maior, entendeu?”. Na mesma resposta, ele comparou o porte das administrações de Porto Velho e Cacoal e afirmou que a gestão da capital lhe impôs desafios mais amplos, inclusive orçamentários.
CONFIRA:
Ainda nesse trecho da entrevista, Hildon procurou se afastar da interpretação de que poderia atuar, ainda que involuntariamente, como cabo eleitoral de Fúria. Embora tenha mantido o elogio à atuação do prefeito de Cacoal, acentuou que discorda da forma como o adversário conduziu sua trajetória eleitoral ao deixar o cargo antes do fim do mandato. Disse que “ele foi prefeito por cinco anos e três meses. Eu fui prefeito por oito anos. Eu tenho uma certa reticência, eu acho que eu não acho legal você sair pulando mandatos. O Fúria foi vereador [depois deputado] e na metade do mandato se elegeu prefeito de Cacoal e larga o mandato, o segundo mandato, com um ano e três meses. Eu acho que isso... Eu penso diferente, e tanto é que da forma como nós fizemos, fomos até o final”. Quando foi observado que a fala já se tornava mais crítica, Hildon respondeu em tom irônico, sem recuar do contraste que havia feito.
A discussão sobre disputas regionais e ocupação de espaço político apareceu com clareza quando foi perguntado se a escolha de Cirone Deiró para a vice não representaria uma tentativa de “invadir território” em áreas onde outras pré-candidaturas já vinham sendo identificadas. Hildon não negou o cálculo e admitiu expressamente a estratégia. Afirmou que “de certa forma, sim. De certa forma, sim. E surgiu o efeito. O efeito foi imediato”. Em seguida, passou a descrever a capilaridade política de Cirone, mencionando a força eleitoral do deputado, sua presença na região central, sua origem em Vilhena e o alcance familiar e político que, segundo ele, também projeta o nome do parlamentar no Cone Sul. Ao ampliar essa leitura, citou ainda o deputado Ismael Crispin e sugeriu que a articulação da chapa busca irradiar influência por diferentes áreas do estado.
Foi nesse mesmo bloco que surgiu o nome de Ivo Cassol, ex-governador de Rondônia. Ao mencionar conversas sobre alianças e aproximações, Hildon confirmou proximidade pessoal com o ex-governador e relatou convivência recente com a família dele. Disse que “nós fizemos uma viagem recente agora, inclusive com o Ivo e com a Dona Ivone. Passamos uns dias na França com toda a família dele também. Foi bem bacana”. Provocado logo depois sobre a chamada “maldição do Ivo”, expressão usada para se referir à tese de que Cassol teria êxito para si, mas não para os nomes que apoia, Hildon rejeitou a leitura e inverteu a responsabilidade dos insucessos. Respondeu que “essa maldição não existe. Não existe. Eram os outros que eram ruins de voto. Nem com o Ivo apoiando, eles foram”.
Outro eixo politicamente delicado da entrevista envolveu a troca de partido. Foi recordado que Hildon havia lançado sua pré-candidatura ao governo ainda no PSDB em agosto de 2025, em evento que contou com a presença de Marconi Perillo, e observado que, depois de um período de aparente recuo, ele reapareceu filiado ao União Brasil, já com vice definido e em nova etapa de articulação. Ao reconstruir esse movimento, Hildon atribuiu a mudança ao esfriamento de compromissos após a troca do comando tucano nacional. Declarou que “quem era o presidente naquela época era o Marconi Perillo. (...) Então, o Marconi sai do partido, e vai por conta da candidatura, e entra o Aécio, o Aécio Neves. E muitas das tratativas que foram feitas com o Marconi esfriaram um pouco”. Na sequência, afirmou que o PSDB se tornou pequeno e insuficiente para sustentar sua movimentação, e acrescentou que a entrada no União Brasil ocorreu a partir de costura política conduzida por Maurício Carvalho e pelo próprio Cirone Deiró.
Nesse mesmo segmento, Hildon também procurou explicar por que, segundo ele, sempre enfrentou certa resistência na classe política. Ao fazê-lo, associou esse isolamento à forma como descreve sua atuação administrativa e ao fato de não responder, segundo declarou, a acusações envolvendo sua gestão ou ex-secretários. Disse que “a classe política, de uma forma geral, ela não é que não gosta de mim. (...) Assim, eles me olham um pouco torto porque nós temos um problema muito sério na classe política. É a seriedade com que a gente trata as coisas. Para você ter uma ideia, nem o ex-prefeito Hildon Chaves e nenhum dos nossos secretários respondem absolutamente nada. Nada. Zero. Zero. Isso é inédito. Isso é inédito. Então, isso às vezes... Nós ficamos, de certa forma, isolados”.
A passagem para o União Brasil levou, inevitavelmente, à pergunta sobre a cisão envolvendo os irmãos Gonçalves. Ao ser questionado se abraçaria esse racha e se haveria espaço para Júnior Gonçalves ou Sérgio Gonçalves em eventual governo, Hildon respondeu delimitando a estrutura formal das decisões partidárias e negando qualquer compromisso nesse sentido. Primeiro, mencionou o papel de Júnior Gonçalves como presidente partidário e a recente formação da federação. Depois, fixou que as decisões sobre candidaturas majoritárias passam pela direção nacional. E, ao ser perguntado de forma direta se teria obrigação de “patriar” os Gonçalves ou se existia conversa para isso, respondeu: “não, de maneira nenhuma” e “nunca existiu nenhuma conversa nesse sentido”. Assim, o pré-candidato descartou publicamente qualquer acerto prévio relacionado aos irmãos no desenho de sua eventual administração.
A entrevista também abriu espaço para um tema antigo de sua trajetória eleitoral: a escolha de vice e os desdobramentos posteriores. Instado a comentar o histórico de seus vices, Hildon falou primeiro de Edgar do Boi, sem citar o nome na resposta, mas em referência explícita à primeira chapa que montou na disputa pela prefeitura. Disse que sua candidatura “se materializou numa quinta-feira, às 11 horas da noite” e que a convenção ocorreria no sábado, o que lhe deixou apenas a sexta-feira para buscar um vice. Ao resumir o desfecho, foi direto: “o primeiro que eu achei foi esse. Aí, deu errado”. Questionado sobre o que havia dado errado, afirmou que houve problemas de posicionamento e “uma manipulação em algumas situações, querendo passar por cima de secretário”. Em seguida, revelou que houve ruptura efetiva e relatou um episódio que, segundo ele, nunca havia contado publicamente: uma busca e apreensão no gabinete do então vice, realizada pela Polícia Civil, quando os pertences já estariam empacotados em razão de desentendimentos anteriores. Hildon disse que a coincidência levou uma delegada a estranhar a situação e negou qualquer conhecimento prévio sobre a operação, tratando o caso como “um problema dele”.
Ao falar do segundo vice, Maurício Carvalho, Hildon afastou a leitura de abandono de mandato que foi tentada aproximar do debate anterior sobre políticos que deixam cargos antes do término. Segundo ele, a situação de Maurício foi distinta porque houve renúncia para disputar mandato de deputado federal. Hildon frisou que mantém relação “fantástica” com Maurício Carvalho, descreveu encontros recentes com a família e, ao ser provocado com a presença de Mauro Nazif no Republicanos, ao lado do grupo político dos Carvalho, tratou o tema com naturalidade. Disse que sempre teve relação próxima com o ex-prefeito Mauro Nazif e que, inclusive, participou da intermediação para que ele ocupasse uma das cadeiras partidárias. Na conversa, corrigido sobre o partido de Mauro, Hildon reconheceu a filiação ao Republicanos e destacou também a proximidade do ex-prefeito com o médico Aparício Carvalho.
Esse trecho sobre Mauro Nazif levou a uma lembrança do surgimento de Hildon como figura pública na política municipal, período em que, segundo foi lembrado, houve embates duros com o então prefeito. Hildon respondeu com uma recordação doméstica e bem-humorada, ao dizer que a deputada Ieda Chaves lhe teria pedido para não bater em Mauro por considerá-lo “bonzinho”. A fala apareceu como contraste com o ambiente de disputa e serviu de ponte para o debate sobre a montagem de chapas e a relação com aliados e adversários ao longo do tempo.
Em outra frente, Hildon tratou do presidenciável que, naquele momento, dizia lhe trazer maior solidez: Ronaldo Caiado. Questionado se mantinha o posicionamento de que votaria em Caiado no primeiro turno, ele evitou fechar a porta para a dinâmica futura da eleição presidencial, mas reforçou a avaliação positiva sobre o governador de Goiás. Declarou que “vamos ver como vai estar as eleições daqui a quatro, cinco meses. Então, vamos analisar. Vamos ver as propostas, etc. Agora, o Caiado foi um grande gestor de Goiás, transformou o estado de Goiás, terra dele. Então, ele tem muitas qualidades. Quem governou por dois mandatos um estado do porte de Goiás está credenciado, sim, a governar o Brasil”. No desenvolvimento da resposta, Hildon voltou a sustentar a ideia de que experiências prévias em cargos executivos pesam mais na formação de credenciais para disputas maiores.
Na parte em que abordou obras e marcas de sua gestão, Hildon chamou a nova rodoviária de Porto Velho de “menina dos olhos” e fez uma defesa contundente do empreendimento e do estágio em que a obra se encontrava ao fim de seu mandato. Segundo ele, “a rodoviária estava pronta. Estava pronta. Embora, naquela época, o CREA fez um laudo fake, mentiroso. Para atender os interesses políticos do prefeito que iria ser empossado na sequência”. Em sua versão, faltava apenas a ligação do sistema de ar-condicionado, atrasada em razão do recesso da fabricante, e não havia justificativa para que esse processo se prolongasse por quase um ano. Hildon também exaltou o resultado arquitetônico da obra, afirmando que ela seria “sem sombra de dúvidas, a rodoviária mais bonita do Brasil”, além de sustentar que sua construção ocorreu em prazo excepcional para os padrões de obra pública.
A entrevista avançou ainda para uma proposta que marcou sua entrada na política, em 2016: a doação do salário. Perguntado se reeditaria a promessa caso fosse eleito governador, Hildon deslocou a resposta para a atuação da deputada Ieda Chaves e tratou o tema em tom pessoal. Disse que “quem vai resolver isso é a deputada Ieda Chaves”, acrescentando que ela “gasta o dinheiro dela todo com a causa animal”. A partir daí, descreveu as atividades da parlamentar com gatos, cães, feira de adoção e bandeiras ligadas à proteção animal, à mulher, ao feminicídio e à infância. Embora não tenha afirmado de modo categórico que repetirá a promessa de doar o salário, vinculou qualquer encaminhamento à influência da esposa sobre o orçamento familiar.
No fim da conversa, já na reta derradeira do programa, foi recuperado o episódio em que Hildon teria sido interceptado em um restaurante por um empresário, caso que, à época, gerou especulações sobre ameaça de morte. Ao responder, o ex-prefeito fez questão de separar esse episódio de uma frase dita em outra ocasião, quando afirmou reconhecer um empresário corrupto “com dois minutos de conversa”. Segundo ele, essa frase não se referia ao caso do restaurante, mas à discussão sobre a modelagem do novo hospital. Sobre a interceptação, porém, foi objetivo ao afirmar: “a justiça os condenou por ameaça. (...) Ele foi condenado por ameaça. Isso pra mim não existe mais, mas enfim, ele realmente me ameaçou”. Hildon acrescentou que a divergência estava relacionada à empresa do homem envolvido, citou problemas da companhia em outros estados e declarou considerar o assunto superado, sem guardar rancor.
Logo depois, ao esclarecer a frase sobre empresários e corrupção, Hildon a vinculou à crítica que fez ao modelo do hospital do chamado Heuro. Disse que a observação se referia ao líder do consórcio envolvido na modelagem do empreendimento e resumiu sua objeção com uma formulação incisiva: “a modelagem do hospital, o líder do consórcio, já foi preso quatro vezes. Foi dentro desse contexto. Por isso que não deu certo o Heuro. Como é que você vai fazer uma modelagem do empreendimento desse porte, um investimento superior a 300 milhões, com quem já foi preso quatro vezes?”. Na mesma parte da entrevista, ele voltou a dizer que pretende abandonar o nome Heuro, manter a referência ao João Paulo II e iniciar uma nova obra hospitalar sem cerimônias simbólicas, apenas com execução efetiva.
Ao encerrar a participação, Hildon retomou sua biografia e suas credenciais, apresentando-se como alguém que chegou a Rondônia aos 23 ou 24 anos para atuar como promotor de Justiça, permaneceu 21 anos no Ministério Público, participou da criação de um grupo educacional depois vendido à Estácio e governou Porto Velho por dois mandatos, segundo ele com mais de 80% de aprovação ao final. Foi nesse fecho que ele condensou a tese central de sua pré-candidatura, ao afirmar que pretende levar ao governo estadual a experiência acumulada na capital e que cargos como prefeito e governador exigem margem mínima para erro, porque, segundo sustentou, o dano provocado por uma escolha errada nessas funções é muito maior.



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