PORTO VELHO, RO - O vereador e médico dermatologista Macário Barros, o Dr. Macário, do União Brasil, afirmou, em entrevista ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, que a Câmara Municipal de Porto Velho atravessa um momento de grave desconforto administrativo, marcado, segundo ele, por falhas internas, dificuldade de interlocução com outros poderes e permanência de influência estrutural ligada à gestão passada. Ao descrever o cenário da Casa, ele disse que, apesar de reconhecer qualificação técnica no quadro de vereadores e no comando político da Câmara, o ambiente institucional se deteriorou no início de 2026. Nas palavras dele, “eu acredito que a Câmara esteja com quadro em excelência, entendeu? A Câmara hoje é muito bem representada pelo líder, que é nosso líder, do prefeito. A Câmara tem um quadro muito diversificado tecnicamente. E a nossa Câmara está entrando agora no inferno astral. Era uma previsão de, em 2026, entrarmos num ano de flores. E nós começamos o ano de 2026, vamos dizer assim, num inferno astral”.
Ao detalhar as razões para esse diagnóstico, Dr. Macário atribuiu a crise à área administrativa da Câmara e à incapacidade de resposta a demandas externas, inclusive oriundas do Tribunal de Contas. Segundo ele, o problema não está propriamente no exercício político dos mandatos, mas na retaguarda técnica e burocrática da instituição, que, em sua avaliação, não solucionou pendências que deveriam ter sido resolvidas preventivamente. Durante a entrevista, ele declarou que “eu acredito que falta de... muita falta da parte administrativa em contato com os poderes. Às vezes, você pensa que o poder tal está influenciando na Câmara. Mas ele solicitou vários dados técnicos que a procuradoria, o processo administrativo, teria que responder ao poder tribunal de contas. E não respondeu à contenda”.
A crítica avançou para a estrutura territorial da capital e para a incapacidade operacional da Câmara em alcançar os distritos mais distantes. Dr. Macário afirmou que a fiscalização parlamentar e a organização de pleitos regionais ficam comprometidas porque o Poder Legislativo municipal não dispõe de recursos suficientes para deslocamentos, especialmente em uma capital com localidades longínquas. Ao abordar esse ponto, explicou que “Porto Velho aqui é uma Câmara Municipal da capital. É uma câmara que hoje não atua. Não atua em Jaci, muito menos em Nova Califórnia, extrema. E são locais distantes, até aqui, considerado em países pequenos, quer dizer, praticamente uma localidade a quase que 800 quilômetros”. Ao ser corrigido pelo apresentador sobre a quilometragem, confirmou a distância de 400 quilômetros para alguns distritos, mas manteve o argumento central de que a vastidão territorial, somada à escassez de verba interna, impede o acompanhamento efetivo dessas regiões. Em seguida, resumiu a limitação em duas frentes: “Fiscalização, organização. de pleitos daquela região”.
Quando o tema passou da limitação financeira para a responsabilidade administrativa, Dr. Macário foi direto ao afirmar que o problema está na condução interna da Câmara. Apesar de poupar pessoalmente o atual presidente, Gedeão Negreiros, a quem classificou como “uma boa pessoa” e “um bom presidente”, o vereador disse que a presidência depende do corpo administrativo, da procuradoria e da estrutura herdada. Segundo ele, o desconforto institucional hoje vivido decorre justamente de situações não resolvidas dentro da própria Casa. Nesse trecho, afirmou: “o Gedeão é uma boa pessoa, é um bom presidente, é uma pessoa que já vem de uma administração particular, uma administração de uma empresa particular, tem boa experiência, mas você sabe que um presidente depende do seu corpo administrativo, depende do seu procurador, depende da casa. E muitas vezes, deixa escapar muitas situações que teriam que ter sido previamente resolvido com os outros poderes. Então nos traz, muitas vezes, como está nos trazendo esse desconforto. Desconforto. E esse desconforto, muitas vezes, é causado pela nossa própria administração”.
A parte mais sensível da entrevista surgiu quando Robson Oliveira mencionou que a estrutura de procuradoria e de cargos da Câmara havia sido montada pelo ex-presidente Edwilson Negreiros, irmão do atual chefe do Legislativo. Questionado sobre a permanência desse grupo, Dr. Macário confirmou a continuidade da equipe e reconheceu a existência de influência administrativa externa. Primeiro, disse de forma objetiva: “Continua. a mesma equipe e nós sabemos que a ingerência dele também continua dentro da Câmara”. Depois, ao tentar delimitar a extensão dessa influência, afirmou que não colocaria o problema diretamente sobre a figura do presidente, mas sustentou a crítica à manutenção do núcleo administrativo anterior. Segundo o vereador, “eu não vou dizer que seja o presidente, mas que ele tem influência administrativa e que o contador e outras funções na Câmara Continua a mesma panelinha, a mesma continuidade”. Em outro momento, reforçou a acusação com frase ainda mais enfática, ao declarar: “a realidade dos fatos é que existe ingerência administrativa. Eu seria um covarde de falar que não existe”. E, para não deixar dúvida sobre a percepção interna da Casa, completou: “Todos os geradores sabem que existe a ingerência administrativa”.
Mesmo com as críticas contundentes ao ambiente interno da Câmara, Dr. Macário traçou um quadro distinto quando o assunto foi a relação entre o Legislativo municipal e o Executivo. Segundo ele, os vereadores mantêm convivência harmoniosa com o prefeito Léo Moraes, e o canal institucional estaria funcionando de forma satisfatória, especialmente por meio do secretário-geral do município, doutor Paraguaçu. Ao responder sobre a relação com o prefeito, afirmou: “Tem, nós trabalhamos harmonicamente com o prefeito. E o prefeito tem um secretário-geral em excelência, que é o doutor Paraguaçu. nos atende muito bem e está se adequando. Nós sabemos como o prefeito é, sabemos como o Léo Moraes é. Eu sei muito bem que eu o conheço desde criança”. Em seguida, reforçou que “a relação está indo bem. A tendência, geralmente, é melhorar mais. É melhorar mais ainda. A relação é boa”.
A situação financeira da Câmara reapareceu na conversa quando Robson Oliveira levantou as críticas a diárias e viagens de vereadores em outras cidades do país. Nesse ponto, Dr. Macário afirmou que a realidade de Porto Velho seria oposta à de outras Casas Legislativas alvo de denúncias, porque, segundo ele, a Câmara da capital não está “contida”, mas sim “vacinada”, pela ausência de verba. A frase foi curta e incisiva: “Não, não é contida, está vacinada, porque não tem verba”. Ele sustentou que, se houvesse disponibilidade orçamentária, as prioridades deveriam ser fiscalizações em unidades de saúde nos distritos, e não deslocamentos para eventos. Ao tratar especificamente da Comissão de Saúde, que preside, explicou: “Eu poderia mandar à Extrema, Nova Califórnia, Mutum, JACI, União Bandeirantes e as outras, todas as unidades, uma fiscalização, como estão dando os postos de saúde, as unidades de saúde, as reclamações. Então, nós não temos como mandar, hoje, um assessor viajar. O nosso caso já é o inverso. Nós não temos o recurso”. Ainda sobre viagens, declarou que nem mesmo encontros nacionais estão ocorrendo por falta de dinheiro, e resumiu o quadro com a afirmação de que, em um ano, acredita que nenhum vereador tenha viajado por conta da Câmara.
Na segunda metade da entrevista, o vereador voltou-se com intensidade para a saúde pública de Porto Velho e fez um diagnóstico severo da rede municipal. Disse que a saúde pública vem decrescendo há décadas e identificou a atenção básica como o ponto central do problema. Para ele, o município só conseguirá desafogar a rede de urgência e alta complexidade se reconstruir a base do atendimento preventivo. Ao introduzir esse raciocínio, afirmou: “A saúde é... É difícil a gente falar da saúde, porque nós temos já décadas que a saúde está decrescendo, né?”. Em seguida, construiu uma comparação com a educação para defender que a função principal do município é garantir o básico antes que o problema chegue à complexidade hospitalar. Na fala dele, “nossa obrigação com o município é o básico, ler e escrever. Na saúde, nossa aplicação básica é a atenção básica de saúde”.
Dr. Macário deu ênfase especial ao papel do agente comunitário de saúde, apresentado por ele como porta de entrada para a prevenção, o monitoramento e o encaminhamento precoce de doenças. Ele afirmou que a visita domiciliar é decisiva para evitar agravamentos, internações e tratamentos complexos, e criticou o enfraquecimento histórico dessa política pública. Ao explicar a lógica do sistema, disse: “A saúde do cidadão começa pelo agente de saúde. É aquele que bate na sua casa. Bom dia, seu Robson. Se você se opõe a verificar sua pressão, você vai dizer, não, pode referir. Aí sua pressão está alterada. Então você já vai fazer uma consulta ao posto, você já vai evitar o AVC, já vai evitar ter que fazer um tratamento de alta complexidade no governo”. Em seguida, acrescentou que a destruição progressiva dessa estrutura repercute em toda a rede. Segundo ele, “vem várias, vamos dizer, décadas, né? Que está se acabando. a rede básica, a atenção básica”. E completou: “hoje, nós temos que abrir os olhos e começar a fazer o nosso dever de casa. O nosso dever de casa é atenção básica de saúde. Esse é o nosso dever, atenção básica de saúde. Funcionar a atenção básica de saúde esvazia a UPA. Esvazia a alta complexidade, o João Paulo”.
Outro eixo de crítica apareceu na discussão sobre mobilidade urbana e acidentes de trânsito. O vereador defendeu que a educação de trânsito precisa começar cedo, inclusive nas escolas, e associou o elevado número de acidentes, especialmente com motociclistas, ao impacto sobre o sistema hospitalar. Embora tenha reconhecido que o município não responde diretamente por toda a cadeia da alta complexidade, sustentou que existe omissão histórica em medidas preventivas e em estruturas como a Guarda Municipal. Ao mencionar o tema, disse: “tem que ser feito a educação de trânsito. Você vê parado a educação de trânsito. Eu acho que essa educação deveria começar na escola, porque tem várias campanhas. Quantas vezes nós estamos parados em campanhas de educação de trânsito?”. Em relação à Guarda Municipal, afirmou que ouve essa promessa há cerca de 30 anos, embora tenha admitido acreditar que a iniciativa ainda possa sair.
A crítica mais dura de Dr. Macário sobre saúde, no entanto, recaiu sobre a escassez de leitos hospitalares e sobre a ideia de compra de unidades sem ampliação real da capacidade de atendimento. Para ele, o problema central não é a troca de controle sobre hospitais, mas a permanência do mesmo número de vagas para uma população que cresce e demanda mais atendimento. Em tom enfático, declarou: “Hoje a nossa população precisa de leito. Leitos. Leitos. Precisamos de um hospital vertical de 20 andares ou 18 andares. Precisamos de mais leitos. Não precisamos da mudança de patrão. De mais leitos”. Em outro trecho, reforçou que a mera aquisição de uma estrutura não resolve a carência assistencial se não houver expansão concreta da oferta: “Aumentou algum leito para a população? Mudou de dono. Leito não aumentou”. Ao ser questionado sobre a tese de que a compra de um hospital teria ampliado a rede, contestou: “Não pode ser verdade, né? Aumentar o número de leitos na capital, aí sim”. Para ele, a alta complexidade é obrigação do Estado, e o colapso do João Paulo II respinga sobre o município, que termina absorvendo o caos sem ter, segundo sua fala, os meios adequados para resolvê-lo.
Na parte final da conversa, a entrevista se deslocou para o campo mais pessoal, político e social. Dr. Macário descartou uma candidatura a deputado e afirmou que pretende seguir como vereador, mantendo foco no que chamou de trabalho social contínuo com famílias da capital. Segundo ele, o mandato não pode ser vendido como promessa de execução direta de obras ou serviços, já que o vereador atua como intermediário institucional e não como chefe do Executivo. Ao justificar sua permanência na política municipal, disse: “O meu trabalho é social. O meu trabalho é sábado, domingo, feriado, dia santo. Eu trabalho com as famílias. Eu trabalho com as famílias. Eu sempre digo que o meu trabalho é um trabalho de verdade. É um trabalho verdadeiro, porque eu trabalho com a família”. Também explicou sua visão sobre os limites do mandato: “o vereador é um legislativo” e “ele intercede junto ao poder executivo, que é o prefeito, ele intercede, ele pede, Ele conversa, mas ele não manda no secretário do prefeito”.
Dentro desse mesmo contexto, apresentou a estruturação de uma associação beneficente voltada à oferta de atendimentos médicos e convênios gratuitos. O projeto, segundo ele, pretende firmar parcerias com consultórios, laboratórios e clínicas, começando por clínica geral, dermatologia e pediatria. Ao diferenciar sua proposta de outras associações, Macário afirmou que o caráter beneficente precisa ser integralmente gratuito. Na fala do vereador, “nós vamos ser a primeira associação realmente beneficente. Nós vamos fazer os convênios com todos os consultórios, laboratórios, clínicas, e vão ter todas a carteirinha também grátis. Nada pago. É grátis. Eu fico, às vezes, chateado com a palavra que a gente usa, beneficente e cobra. Então, não é beneficente. A nossa realmente vai ser beneficente. Já está bem adiantado o processo para nós começarmos esse ano”.
A entrevista terminou em tom descontraído, com referências à rotina pessoal do vereador, ao futebol que pratica às quartas-feiras e sábados, às saídas noturnas, às amizades espalhadas por diferentes regiões da cidade e ao modo como lida com pedidos da população. Dr. Macário afirmou que prefere dizer a verdade quando não há possibilidade de atender uma demanda, em vez de prometer o que não pode cumprir. Segundo ele, essa postura o ajuda a circular com tranquilidade por diferentes bairros e ambientes sociais. Ao sintetizar sua postura diante de pedidos que não dependem diretamente de seu mandato, afirmou: “Não gosto de enganar ninguém, de mentir”. E, ao ser perguntado sobre o que responde quando não existe vaga ou solução disponível, resumiu: “Que não tem. Não tem, não tem”. Na despedida, o vereador reforçou o vínculo de longa data com Robson Oliveira, agradeceu o convite e encerrou a participação em clima cordial, mesclando referências à amizade antiga, à trajetória pública e à leveza com que disse tentar conduzir a vida.



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