Publicada em 12/02/2026 às 09h21
PORTO VELHO, RO - A poucos dias do desfile de 2026, a Banda do Vai Quem Quer (BVQQ) levou para o centro do debate público, em entrevista ao podcast Resenha Política com Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, um conjunto de temas que vai além da folia: denúncias em órgãos de controle, propostas financeiras recusadas, vigilância policial em larga escala, restrições a “paredões” e um discurso de enfrentamento à violência contra a mulher. À frente do bloco há 15 anos e identificada como “Rainha do Carnaval de Rondônia” durante a conversa, Siça Andrade afirmou que a BVQQ já foi alvo de questionamentos formais quando o nome de um político apareceu associado à banda e disse que, atualmente, rejeita qualquer tipo de financiamento público ou vínculo partidário no desfile.
Segundo Siça, a única vez em que a banda foi vinculada a um político durante sua gestão ocorreu quando ela era casada com um homem do meio político e decidiu colocar o nome dele no bloco, “por uma questão mesmo familiar e não financeira”. A escolha, de acordo com a entrevistada, desencadeou suspeitas e denúncias em sequência. “Por eu ter colocado o nome dele, fui denunciada no Ministério Público, Tribunal de Contas, em tudo que era órgão, alegando que ele tinha colocado dinheiro na banda”, afirmou. Ela disse que foi aos órgãos citados para apresentar comprovações de que não havia recursos públicos no bloco e sustentou que, à época, a banda sequer teria estrutura administrativa para receber verbas. “Na época, a banda não tinha nem cadastro em lugar nenhum, nem pra receber recursos públicos. Nem conta bancária a banda tinha. Não tinha nem como ela receber recursos”, declarou.
O tema voltou quando Robson Oliveira mencionou blocos com nomes de políticos e financiamento por agentes públicos, além do uso de emendas parlamentares em iniciativas carnavalescas e o aumento do escrutínio de órgãos de controle sobre a aplicação desses recursos. A entrevistada respondeu que propostas foram feitas, mas recusadas. Questionada sobre valores, afirmou que recebeu oferta de “dois milhões de reais” e que disse não. “Resisti, porque a banda está acima desse valor”, disse, acrescentando que o bloco não é sua fonte de renda. “Eu sou empresária, sou advogada. Então, a banda, ela realmente é a minha paixão”, afirmou, ao relacionar a continuidade do desfile ao legado do pai, Manelão. Siça também sustentou que não há “nenhum tipo de recurso público, nenhum repasse, nenhuma ajuda financeira de políticos no desfile” e que os nomes estampados hoje seriam de patrocinadores privados.
A entrevista também expôs um capítulo de tensão com estruturas paralelas de som e ocupação de vias. Siça relatou que, no ano anterior, o que classificou como “paredões” teria interferido diretamente na segurança e na circulação de pessoas no percurso, com impactos que ela descreveu como permanentes na própria saúde emocional. “Eles fecharam todas as ruas transversais… colocaram gradeamento e fechavam com enforca-gato bem grosso. Então ninguém conseguia entrar e nem sair da avenida”, afirmou. Ela disse que tentou sair do trajeto e não conseguiu, e que, diante do bloqueio, pensou no risco de uma tragédia caso algum atendimento emergencial fosse necessário. “Se tivesse acontecido algum acidente… e se precisasse entrar ambulância, o polícia não entrava, porque os paredões estavam fechando todas as ruas”, declarou. Ao descrever a reação naquele momento, relatou sintomas de mal-estar e medo. “Eu comecei a passar mal… eu fiquei com crise de pânico… eu pensei, meu Deus, se vier um acidente vai morrer todo mundo”, afirmou. Siça acrescentou que, desde então, evita elevadores e disse que passou a subir escadas, inclusive em compromissos no Ministério Público, por associar o confinamento ao episódio do trajeto bloqueado. “Eu olhava para aquele elevador e falei, não, eu vou subir de escada… porque eu não consigo entrar em elevador. E isso foi por conta dos paredões”, disse.
Na conversa, Robson Oliveira indicou que teria visto um decreto de proibição e Siça afirmou que a medida teria sido adotada pela Prefeitura, destacando o impacto dos paredões no desfile anterior. Ela apontou dois problemas: a descaracterização musical do bloco e a criação de barreiras físicas. “Música que não tinha nada a ver com o carnaval… eles estavam descaracterizando totalmente a banda… com músicas de funk… totalmente fora do que é a nossa essência”, afirmou, antes de reforçar que o bloqueio de transversais foi o ponto que considerou mais preocupante.
No plano da segurança, a entrevista detalhou um esquema de monitoramento com múltiplas camadas, incluindo tecnologia e atuação de inteligência. Siça afirmou que o planejamento começou em outubro do ano anterior, com reuniões para tratar de logística, estrutura e segurança. Para 2026, estimou entre 150 mil e 200 mil pessoas no trajeto. Ao lembrar que o bloco já teria levado 250 mil foliões, atribuiu os números à Polícia Militar. “Esses dados são fornecidos pela polícia militar… não sou eu que faço esses cálculos”, disse, após mencionar que a contagem teria sido feita com base em medições por área e, hoje, com recursos como GPS e drones.
A entrevistada afirmou que o desfile terá seis trios elétricos e um contingente de “quase 500 policiais na avenida”, somando forças de segurança e apoio, além de seguranças particulares e “cordeiros”. Também citou o uso de helicóptero, drones e câmeras 360 para acompanhamento do público. Ao abordar a atuação velada, disse que a organização entrega uma “quantidade X” de abadás para forças policiais com o objetivo de inserir agentes no meio dos foliões. “Eles vão infiltrados, como se fosse folião, e eles estão ali acompanhando e monitorando”, afirmou, citando Polícia Civil e Polícia Militar. Relatou ainda que, no ano anterior, pessoas com tornozeleira eletrônica que não poderiam estar no evento teriam sido identificadas e recolhidas, com acompanhamento da Polícia Penal. “Acho que ano passado foram pegos seis… estavam com tornozeleira e não poderiam estar no Carnaval”, disse.
Como novidade, Siça afirmou que a Polícia Militar pretende usar pulseiras de identificação em crianças, com dados dos responsáveis, para reduzir ocorrências de menores perdidos. “Eles vão com pulseira de reconhecimento… vão estar preenchendo na pulseira os dados dos pais, telefone, endereço”, explicou, dizendo que o evento ocorre durante o dia, com início às 15h e término por volta das 21h. No tema da vigilância aérea, ela reforçou que o espaço seria controlado pela polícia por causa do helicóptero e do drone institucional, o que limitaria a presença de drones civis sem autorização e coordenação. “O espaço aéreo é da polícia”, disse, afirmando que, para operar, seria preciso autorização e comunicação com quem opera o equipamento oficial, por risco de colisões e acidentes.
A entrevista também destacou o eixo social como parte central do desfile. Siça afirmou que a BVQQ adotou ações como “Carnaval Sustentável”, com distribuição de mudas, e colocou como campanha principal de 2026 o “Não ao Feminicídio”, justificando a escolha pelos índices mencionados na conversa como altos em Rondônia. Para fixar a mensagem, relatou que mudou a identidade visual do bloco para lilás e roxo. “Eu mudei toda a identidade visual da banda… pra entrar na mente das pessoas a questão da conscientização da vida”, disse. Ela também afirmou que precisou conciliar o tema da violência contra a mulher com mensagens de conscientização eleitoral por ser “um ano político”, e descreveu como isso apareceu no abadá. “Para o Brasil continuar contente, vote consciente”, afirmou ser a frase estampada, com uma urna eletrônica que, segundo ela, exibiria a mensagem da campanha. Ao explicar a peça, disse que adaptou o ditado popular para incentivar intervenção em casos de violência. “Em briga de marido e mulher… a banda mete a colher”, afirmou, dizendo que a intenção era mobilizar atenção para o “não é não” e para o combate à violência.
Siça listou instituições que, segundo ela, aderiram à campanha. Citou o Ministério Público como primeiro a abraçar a iniciativa e mencionou apoio de Defensoria Pública, Polícias Militar e Civil, PRF, OAB e conselhos da mulher, além de mencionar adesão do Tribunal de Justiça para confecção e distribuição de materiais no dia do desfile. Ela citou nomes associados ao MP durante a entrevista, incluindo integrantes ligados à área de violência doméstica, e afirmou que a campanha vinha sendo trabalhada desde o início de janeiro, com distribuição de material e planejamento de uma ação ampliada no dia do evento, antes da saída dos trios.
No terço final, a entrevista entrou em detalhes operacionais e de rotina do desfile, com foco em serviços e orientações ao público. Siça afirmou que haverá 150 banheiros químicos ao longo do percurso, com separação por gênero e estrutura para pessoas com deficiência, e comentou que a existência de banheiros não elimina totalmente comportamentos inadequados, citando experiências em outras cidades. Também afirmou que ambulâncias e equipes de atendimento estarão posicionadas em pontos estratégicos e acompanhando o bloco; ao falar de emergências, relatou ter presenciado uma crise de epilepsia no ano anterior e disse que bombeiros civis atuaram de forma imediata, com encaminhamento para ambulância após identificação do quadro pela mãe da pessoa atendida.
A organização do comércio ambulante foi descrita como vinculada ao cadastro municipal. Siça afirmou que vendedores são cadastrados e fiscalizados por órgão ligado ao Código de Postura, com pagamento de taxa, e que há fiscalização para impedir garrafas e copos de vidro na avenida. Segundo ela, itens de vidro podem ser apreendidos, com possibilidade de o folião transferir a bebida para outro recipiente antes do recolhimento. Ela também mencionou orientações para ambulantes sobre objetos pontiagudos, como espetinhos, com ajuste para reduzir risco de perfuração.
Sobre limpeza urbana, Siça disse não acompanhar qual empresa executa o serviço, mas relatou que, após a dispersão policial, equipes entram para recolhimento e lavagem das ruas. Mencionou atuação de catadores e parceria com empresa de reciclagem para coleta de latas e garrafas e afirmou que o local é lavado após o evento, citando uso de “água perfumada”. Na parte de transmissão, disse que haverá cobertura ao vivo por emissoras de TV, com a Band confirmada, e que existia a possibilidade de ações via redes sociais, embora ela não tenha programado transmissão direta pela internet.
No repertório, Siça afirmou que a BVQQ mantém marchinhas, muitas de composições próprias, com músicos e compositores locais, e explicou a logística dos seis trios: os últimos não recebem o sinal em tempo real do primeiro e, por isso, tocariam repertório gravado em estúdio, repetindo as mesmas músicas. Como novidade musical, disse que incluiria quatro toadas amazônicas, duas do Boi Garantido e duas do Boi Caprichoso, mantendo a base de marchinhas. Por fim, reforçou o convite: o desfile ocorre no sábado de carnaval, 14 de fevereiro, a partir das 15h, com saída na Praça das Três Caixas d’Água, e, segundo ela, a participação é aberta “com abadá ou sem abadá”, desde que com respeito, especialmente às mulheres. “Tem que respeitar, entender que o não é não… não ultrapassar os limites”, afirmou, ao pedir que a folia não seja espaço de confusão.
Ao longo do episódio, Robson Oliveira apresentou o Resenha Política como um conteúdo multiplataforma e afirmou que o podcast é feito em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, além de citar o patrocínio do Sesc Brasil naquela edição.
DEZ FRASES DE SIÇA ANDRADE DA BANDA DO VAI QUEM QUER NO RESENHA POLÍTICA:
01) "Fui denunciada no Ministério Público, Tribunal de Contas, em tudo que era órgão, alegando que ele tinha colocado dinheiro na banda."
Ela relata que isso ocorreu no único ano, na gestão dela, em que vinculou a banda ao nome do então marido, que era político, e diz que precisou ir aos órgãos para comprovar que não havia dinheiro público.
02) "Na época, a banda não tinha nem cadastro em lugar nenhum, nem pra receber recursos públicos. Nem conta bancária a banda tinha. Não tinha nem como ela receber recursos."
Ela afirma que, quando as denúncias surgiram, a BVQQ sequer teria estrutura formal para receber verbas, e usa isso como argumento de defesa contra suspeitas de financiamento político.
03) "Proposta recebemos, mas não aceitamos."
Ela responde sobre ofertas de recursos e emendas, dizendo que houve abordagem, porém a organização recusou qualquer apoio financeiro ligado a agentes públicos.
04) "Eram dois milhões de reais."
Ela revela o valor da proposta que diz ter recusado, após ser questionada por Robson Oliveira sobre “se era bom o dinheiro” e se poderia informar a quantia.
05) "Resisti, porque a banda está acima desse valor."
Ela justifica a recusa dos R$ 2 milhões dizendo que, para ela, o bloco tem um peso maior do que a proposta financeira.
06) "Eles fecharam todas as ruas transversais... Então ninguém conseguia entrar e nem sair da avenida."
Ela descreve o que chama de principal problema provocado por “paredões” no ano anterior, apontando bloqueios físicos que teriam travado o fluxo de pessoas e veículos no entorno do trajeto.
07) "Se tivesse acontecido algum acidente... e se precisasse entrar ambulância, o polícia não entrava, porque os paredões estavam fechando todas as ruas."
Ela explica por que diz ter considerado a situação perigosa, sustentando que as barreiras poderiam impedir atendimento de emergência no meio da multidão.
08) "Eu comecei a passar mal."
Ela relata o que diz ter sentido no momento em que tentou sair do trajeto e se viu presa por causa dos bloqueios, descrevendo uma reação física imediata.
09) "Eu não consigo hoje subir, entrar em elevador."
Ela afirma que ficou com sequelas emocionais após o episódio e usa o elevador como exemplo do que passou a evitar, dizendo que prefere escadas mesmo em compromissos no Ministério Público.
10) "Se quer arrumar confusão, não vai pra banda. Fica em casa. Na banda não é lugar de confusão."
Ela dá um recado direto ao público, reforçando que o desfile é diurno, familiar e que a proposta do bloco é manter paz, segurança e respeito durante o percurso.



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