Publicada em 10/02/2026 às 08h10
Uma célebre frase atribuída a Umberto Eco e também a muitos outros pensadores antifascistas ressalta que o fascismo quando chega ao poder não diz que é o fascismo, mas sim ele se disfarça com máscaras de liberdade, ordem ou democracia. Ele chega na sociedade explorando as crises da própria democracia, utilizando para isso discursos nacionalistas e populistas para conseguir apoio popular, disfarçando o seu autoritarismo, a militarização da política, a perseguição aos opositores e a eliminação de todos os seus adversários. Foi assim com o nazismo na Alemanha de Adolf Hitler, foi assim nos países da Cortina de Ferro, que se diziam comunistas, foi assim na Itália com Mussolini e é assim ainda hoje com todos os países dominados por ditaduras. No Brasil, os militares, aliados à elite civil, golpearam as instituições democráticas e instalaram o terror político.
Essa barbárie aconteceu em 1964 em pleno contexto da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. O obscurantismo político no Brasil durou pelo menos 21 anos ininterruptos com cassações, privação de eleições diretas para presidente da República, censura à mídia, demonização e perseguições a intelectuais e artistas, mortes, torturas e exílios de oposicionistas. Entre desaparecidos e mortos, a ditadura militar do Brasil conta pelo menos com o macabro número de 436 cidadãos. Já os torturados passam de 20 mil pessoas. Impossível negar a existência do DOI-CODI e as torturas que muitos brasileiros sofreram por terem cometido o bárbaro crime de “pensarem diferente”. Mas há inúmeras pessoas que negam hoje em dia a existência de uma ditadura militar no Brasil. Ignorância e estupidez, o mau-caratismo e o desconhecimento da História podem estar por trás disso.
“O Brasil não teve uma ditadura militar”, dizem alguns desinformados. Teve um “militarismo vigiado”. Essa declaração surreal e absurda foi do cantor sertanejo Zezé de Camargo. Já o bolsonarista e cantor brega Amado Batista disse publicamente em uma entrevista à TV que foi torturado pelo regime militar, mas que mereceu. Ou seja, admitiu que houve tortura por parte de um governo constituído, ainda que ilegalmente. Devem sofrer da Síndrome de Estocolmo. Outros dizem que houve sim um regime militar no Brasil, mas que foi uma “ditadura boazinha”. Resta saber com quem essa ditadura foi tão boazinha assim. Com Vladimir Herzog, com Rubens Paiva, com Alexandre Vannuchi Leme, com Carlos Marighela, Frei Tito, Ana Rosa Kucinski, com Manuel Fiel Filho e com tanta gente assassinada covardemente nos “porões” do governo militar é que não foi.
Muitos dos atuais bolsonaristas saudosos e também muitas das “viúvas” do Jair Bolsonaro falam hoje de uma “Ditadura da Toga” referindo-se ao ministro Alexandre de Moraes do STF, por este ter sacramentado a condenação e depois a prisão do ex-presidente golpista. Esse povo realmente não sabe o que é de fato uma ditadura. Moraes foi indicado pelo presidente, também golpista, Michel Temer e foi sabatinado no Senado, que lhe deu 55 votos e ele então se tornou ministro vitalício do Supremo. Nenhum desses votos foi do PT ou de qualquer outro partido de esquerda. Ora, e se Moraes é mesmo um ditador como dizem, por que o próprio Senado da República não lhe cassa o mandato? Muitos brasileiros flertam com o obscurantismo e com as ditaduras ferozes e assassinas. Será que Millôr Fernandes estava certo quando dizia que “democracia é quando eu mando em você e ditadura é quando você manda em mim”? Viva a democracia! Sempre!
*Foi Professor em Porto Velho.
(LEIAM o https://blogdotionaza.blogspot.com/)



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