PORTO VELHO (RO) - O conjunto de anotações atribuídas ao senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro projeta luz sobre a lógica interna de organização do Partido Liberal para as eleições de 2026 e, ao fazê-lo, revela de forma direta como Rondônia aparece no desenho estratégico da legenda. O material, que teria sido produzido durante reunião partidária, sugere um mapa de prioridades, preocupações e cenários em construção, funcionando como um retrato do processo decisório que normalmente permanece restrito aos bastidores.
No recorte estadual, a centralidade atribuída ao senador Marcos Rogério indica a tentativa de consolidar um polo de liderança local capaz de concentrar o projeto do partido. Embora o nome do parlamentar apareça também entre as opções listadas para o Senado, o próprio desenho estratégico indica que seu rumo tende a se firmar na disputa pelo Governo de Rondônia, reforçando a percepção de que a prioridade do grupo é a corrida ao Palácio Rio Madeira.
O cenário projetado para o Senado, portanto, passa a ser compreendido a partir dessa premissa. Com Marcos Rogério direcionado ao Executivo estadual, a equação se reorganiza em torno de outras possibilidades, entre elas a eventual migração de Fernando Máximo para o partido e a consolidação do nome de Bruno Scheid como alternativa competitiva. Se esse arranjo se confirmar e houver êxito nas urnas, a legenda poderá ampliar de forma relevante sua presença na representação rondoniense, uma vez que o senador Jaime Bagattoli, eleito em 2022, permanece no cargo até 2030, configurando a possibilidade de até três nomes vinculados ao partido ao longo do ciclo político.
Pretensioso, mas possível
A presença do nome do governador Coronel Marcos Rocha nas anotações ganha contornos particulares diante do atual reposicionamento político do chefe do Executivo estadual. Hoje filiado ao PSD, após saída recente do União Brasil, Rocha tem alinhamento público com o projeto da própria legenda em Rondônia, devendo apoiar a pré-candidatura ao governo do prefeito de Cacoal, Adaílton Fúria, seu correligionário.
Nesse contexto, o fato de aparecer no material atribuído a Flávio Bolsonaro pode ser lido como indício de que, mesmo fora da mesma estrutura partidária, o governador ainda é percebido, no campo político ligado à família do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso no Complexo da Papudinha, como figura situada no mesmo espectro ideológico, um aliado de longe. Ao mesmo tempo, o registro sugere que, dentro da engenharia eleitoral desenhada pelo PL, a trajetória de Rocha tende a seguir por uma bifurcação própria no campo da direita, distinta do arranjo prioritário do partido para 2026 no estado.
Em dimensão nacional, o documento integra Rondônia a um mosaico mais amplo de estratégias, alianças e avaliações que o PL estaria realizando em diferentes estados. A existência de um material com projeções regionais demonstra que o planejamento local se insere em uma lógica de articulação nacional, na qual candidaturas e composições são pensadas de forma interdependente e ajustadas conforme diagnósticos de viabilidade.
Após a repercussão, Flávio Bolsonaro afirmou que as anotações não refletem necessariamente sua opinião pessoal, mas registros de sugestões e informações recebidas durante as discussões internas. Em movimentos posteriores, segundo relatos, o senador buscou interlocução com aliados para reduzir tensões e reforçar a necessidade de unidade em torno do projeto político do partido, indicando preocupação com os efeitos do episódio sobre a coesão da base.
O conteúdo do documento, ao tornar visíveis avaliações que normalmente permanecem no plano reservado, evidencia como a disputa eleitoral começa antes da formalização das candidaturas, estruturando-se em hipóteses, diagnósticos e negociações preliminares. Em Rondônia, as anotações funcionam como um indicativo das prioridades e das tensões potenciais do grupo, oferecendo uma leitura antecipada de como o PL organiza seu tabuleiro e busca calibrar seu projeto para o ciclo eleitoral de 2026.



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