Publicada em 11/02/2026 às 15h28
A tomada de decisão em câmbio raramente é apenas “comprar moeda quando está barato”. Para pessoas e empresas com vida financeira internacional, o desafio real está em navegar um mercado influenciado por fluxos de comércio exterior, viagens, investimentos e eventos de política monetária, com impactos diretos em prazos, custo efetivo e conformidade.
Em 2026, esse cuidado ganha relevância por dois motivos práticos. Primeiro, porque os números recentes mostram que o país atravessou 2025 com pressões de saída de divisas e um déficit externo expressivo, elevando a sensibilidade do real a mudanças de humor global.
Segundo, porque despesas e recebimentos em moeda estrangeira, especialmente ligadas a viagens e serviços, seguiram em patamar alto, o que aumenta a frequência de operações e o risco de “errar o timing” em movimentos curtos.
O cenário de fluxos que molda o câmbio no curto prazo
A taxa de câmbio sintetiza oferta e demanda por moeda estrangeira, mas, na prática, a formação de preço responde a diferentes camadas de fluxo.
No plano macro, o Banco Central registrou déficit em transações correntes de US$ 68,791 bilhões em 2025. No mesmo período, as reservas internacionais encerraram 2025 em US$ 358,2 bilhões (dezembro), patamar que funciona como amortecedor, mas não elimina volatilidade no preço diário. Os dados constam do material oficial de Estatísticas do Setor Externo divulgado em janeiro de 2026.
Além disso, o noticiário econômico de janeiro de 2026 destacou um dado que ajuda a explicar momentos de pressão no câmbio: o Brasil teve em 2025 a segunda maior saída líquida de dólares da série histórica, segundo informações do Banco Central repercutidas pela Agência Brasil.
Para o público que faz remessas, paga fornecedores no exterior, recebe de clientes internacionais ou planeja viagens, o ponto central é que essas estatísticas não são apenas “macro”: elas se traduzem em spreads mais disputados em janelas de estresse e em variações bruscas dentro do mesmo dia.
Viagens e consumo externo como fonte recorrente de demanda por moeda
Uma fatia importante do câmbio de varejo se conecta a turismo, educação e despesas pessoais no exterior. Em 2025, os gastos de brasileiros no exterior somaram US$ 21,715 bilhões, o maior nível em 11 anos, conforme dados do Banco Central divulgados junto às contas externas.
Essa informação é valiosa por dois ângulos:
1. Regularidade do fluxo: despesas de viagem não dependem apenas de decisões de investimento; elas ocorrem por calendário (férias, intercâmbios, viagens de negócios);
2. Concentração em períodos: alta temporada tende a concentrar compras de moeda e pagamentos internacionais, o que pode piorar cotações em certos momentos, especialmente quando coincide com eventos globais.
Em termos operacionais, isso sugere que o planejamento cambial deve ser contínuo, estabelecendo práticas que envolvam dividir compras, usar instrumentos adequados (papel-moeda, cartão pré-pago, remessa) e coordenar datas de liquidação ajuda a reduzir exposição a picos pontuais.
Microestrutura e formação de preço: onde o “timing” realmente acontece
O debate público costuma tratar o câmbio como um número que “sobe” ou “desce”, mas a dinâmica intradiária depende da microestrutura de mercado, isto é, de como ordens e negociações se organizam.
Pesquisas acadêmicas sobre o câmbio no Brasil, ao aplicar a ótica de microestrutura, apontam que o fluxo de ordens carrega informação e ajuda a explicar movimentos de curto prazo, conectando negociações, liquidez e volatilidade.
Trabalhos como Mercados futuro e à vista de câmbio no Brasil: o rabo abana o cachorro (SciELO) e a tese da USP sobre câmbio contratado e fluxo de ordem discutem justamente essa relação entre negociação e preço.
Para quem faz remessas, a implicação é direta: em dias de baixa liquidez ou de notícias relevantes (decisões de juros, indicadores de inflação, eventos geopolíticos), pequenas mudanças no balanço de ordens podem provocar deslocamentos rápidos. O risco não está apenas no “nível” do dólar, mas no custo final de execução, que inclui spread, tempo de processamento e eventuais variações entre cotação e fechamento.
Leitura de fluxo e disciplina de execução em operações de câmbio
A leitura de mercado, no contexto de câmbio, pode ser tratada como um conjunto de práticas para reduzir ruídos na decisão e aumentar previsibilidade do custo em reais. Isso envolve distinguir três camadas:
● Tendência (semanas/meses): mais ligada a diferencial de juros, risco global e contas externas;
● Movimento tático (dias): respostas a agenda econômica, expectativas e reposicionamentos;
● Execução (minutos/horas): liquidez, spread, horários e concentração de ordens.
É nessa camada de execução que abordagens orientadas a fluxo ganham valor. Após compreender como o fluxo influencia a formação de preço e por que o mercado reage a determinadas zonas de liquidez, torna-se mais simples organizar compras e vendas por critérios objetivos.
Um ponto de aprofundamento relevante nessa linha é o conteúdo sobre tape reading, que detalha como a leitura do fluxo de negócios pode apoiar decisões e reduzir decisões por impulso. Na prática, a disciplina que nasce dessa leitura tende a melhorar a consistência da execução, sobretudo em dias com ruído informacional.
O que muda na prática para remessas, pagamentos e comércio exterior
A operação internacional tem uma particularidade: ela combina câmbio com logística documental e prazos. Por isso, “acertar o dólar” não é suficiente; é necessário evitar fricções que elevam custo ou criam risco jurídico.
Remessas internacionais e recebimentos
Em remessas pessoais ou empresariais, decisões táticas normalmente passam por três perguntas:
1. Qual é o prazo real para liquidar a obrigação? O prazo define se a operação pode ser fracionada ou se exige execução imediata;
2. Qual é a moeda e o canal de destino? Custos e tempo variam conforme o arranjo e o país;
3. Qual é o limite de tolerância a variação? Definir um intervalo aceitável evita redefinir a cada oscilação.
Comércio exterior
No comércio exterior, o câmbio se soma a risco de margem e precificação. Uma alta súbita pode corroer a rentabilidade de importações, enquanto uma apreciação pode reduzir receita em reais de exportações, dependendo da estrutura de custos.
A literatura de microestrutura sugere que o preço pode se mover antes de o “macro” ficar evidente, justamente porque participantes com informação ou com necessidade de hedge entram no mercado com ordens concentradas. A consequência é a importância de processos: política de hedge, regras internas de autorização, e acompanhamento da liquidez em horários críticos.
Limites, riscos e boas práticas de responsabilidade
Leitura de fluxo e ferramentas de análise ajudam a organizar decisões, mas não eliminam risco de mercado. A taxa pode reagir a eventos imprevisíveis, e modelos de curto prazo são sensíveis a mudanças de regime.
Boas práticas recomendadas em operações cambiais incluem:
● Separação entre decisão e execução: definir critérios antes do dia da operação reduz a influência de ruído.
● Fracionamento quando possível: dilui risco de cotação em um único ponto.
● Atenção a custos completos: spread, tarifas, prazo e tributos relevantes devem entrar no cálculo.
● Conformidade documental: origem/destino e natureza da operação precisam estar corretamente enquadrados.
Para perfis globalizados, a consistência tende a vir de processos repetíveis, não de “chutes” sobre o próximo movimento. O câmbio, quando tratado como uma disciplina operacional, torna-se menos um evento e mais uma rotina controlável.
Referências
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas do setor externo: texto de estatísticas do setor externo (jan. 2026, dados até dez. 2025). 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/content/estatisticas/histestatisticassetorexterno/202601Textodeestatisticasdosetor_externo.pdf.
BANCO CENTRAL DO BRASIL. Estatísticas do setor externo. 2026. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/estatisticas/estatisticassetorexterno.
AGÊNCIA BRASIL (EBC). Brasil tem segunda maior saída de dólares da história em 2025. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-01/brasil-tem-segunda-maior-saida-de-dolares-da-historia-em-2025.
GARCIA, Marcio; VENTURA, André. Mercados futuro e à vista de câmbio no Brasil: o rabo abana o cachorro. Revista Brasileira de Economia, 2012. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbe/a/SfnfmHGKfWtBZDrwSSJ56pN/?lang=pt. Acesso em: 04 fev. 2026.
LÁZARO, Felipe A. Câmbio contratado, fluxo de ordem e taxa de câmbio no Brasil. 2017. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/96/96131/tde-02032017-115006/en.php.
BRASIL. GOV.BR. Emitir Relatório de Câmbio e Transferências Internacionais. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/servicos/gerar-relatorio-de-operacoes-de-cambio-e-transferencias-internacionais.



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