Publicada em 12/01/2026 às 10h43
A manifestação pública do pecuarista Bruno Scheid, vice-presidente do Partido Liberal (PL) em Rondônia e apontado pela própria cúpula da legenda como pré-candidato ao Senado em 2026, introduz um elemento sensível — e politicamente incômodo — no debate interno da sigla: o limite entre estratégia eleitoral e lealdade pessoal ao ex-presidente Jair Bolsonaro, hoje preso e enfrentando problemas de saúde.
O texto publicado por Scheid nas redes sociais não menciona nomes, não faz ataques diretos e tampouco questiona formalmente decisões partidárias. Ainda assim, o conteúdo carrega uma crítica inequívoca a setores do próprio PL que já articulam agendas, reuniões e gestos típicos de pré-campanha, mesmo diante do atual contexto envolvendo o presidente de honra do partido.
Logo no início, Scheid assume publicamente que aceitou o convite e o pedido feitos por Bolsonaro para disputar o Senado. O reconhecimento não é apenas político, mas pessoal. Ao explicar por que não tem comparecido a eventos ou iniciado viagens pelo estado, o dirigente deixa claro que a ausência não decorre de hesitação eleitoral, mas de uma escolha consciente. Segundo ele, a prioridade, neste momento, não é a construção de palanque, mas o cumprimento de um compromisso moral assumido com alguém que considera mais do que um aliado político.
Em um dos trechos mais significativos do post, Scheid afirma que não consegue ir às ruas “pedindo voto, falando de Senado e dizendo que sou o escolhido, usando o nome de um homem que hoje está preso”. A declaração estabelece uma fronteira clara entre dois comportamentos dentro do mesmo campo político: o de quem entende a pré-campanha como um movimento legítimo dentro do calendário informal da política e o de quem considera inadequado avançar eleitoralmente enquanto Bolsonaro permanece privado de liberdade.
A noção de lealdade é apresentada como princípio inegociável. Para Scheid, não se trata de discurso ou conveniência, mas de coerência pessoal. Ele ressalta que aguarda o retorno de Bolsonaro ao convívio familiar — “tê-lo de volta em casa, ao lado da esposa e da filha Laura” — para, só então, assumir plenamente a condição de pré-candidato nas ruas. Nesse contexto, a campanha aparece como consequência, não como urgência.
O trecho mais emblemático do posicionamento, e que concentra o núcleo do recado político, surge quando o vice-presidente do PL afirma: *“Nada contra quem faz diferente. Mas eu sou amigo dele de verdade, não apenas colega. Eu não consigo agir como se nada disso importasse.”* A frase funciona como síntese e, ao mesmo tempo, como divisor de águas. Ao reconhecer que outros adotam posturas distintas, Scheid evita o confronto direto, mas deixa implícita uma hierarquia de vínculos: amizade versus coleguismo, compromisso pessoal versus pragmatismo político.
O pano de fundo dessa manifestação ganha ainda mais relevância diante do contexto partidário recente. Poucos dias antes do post, o senador Marcos Rogério, presidente estadual do PL, conduziu uma reunião com lideranças em Ji-Paraná para discutir o projeto eleitoral de 2026. No encontro, Rogério reafirmou publicamente sua disposição de disputar o Governo de Rondônia e detalhou a estratégia da legenda de lançar candidaturas próprias aos principais cargos, alinhadas à direita e ao conservadorismo.
Durante o evento, Marcos Rogério confirmou que a chapa do PL ao Senado seria composta por Fernando Máximo e Bruno Scheid, citando, inclusive, um compromisso assumido por Bolsonaro antes de sua prisão. Scheid, no entanto, não esteve presente na reunião. A ausência, posteriormente explicada em tom pessoal nas redes sociais, passa a dialogar diretamente com o discurso de unidade e mobilização antecipada defendido pela direção estadual.
CONFIRA:
Marcos Rogério reforça pré-candidatura ao Governo de Rondônia e garante Máximo e Scheid ao Senado
Ao mesmo tempo em que Marcos Rogério prega diálogo amplo, soma de forças e organização prévia para 2026, Scheid sinaliza que há limites éticos que, em sua avaliação, antecedem qualquer cálculo eleitoral. Não há ruptura declarada, tampouco negação do projeto partidário. O que existe é uma tensão latente entre tempos distintos: o tempo da política institucional e o tempo da lealdade pessoal.
A publicação encerra com a promessa de que a hora da campanha chegará e que todas as cidades de Rondônia serão percorridas. O adiamento, portanto, não é recusa, mas espera. Ainda assim, o gesto público de se posicionar dessa forma expõe, mesmo sem intenção explícita, as diferentes leituras internas sobre como o PL deve se comportar enquanto seu principal líder enfrenta uma das fases mais delicadas de sua trajetória.
No xadrez político de 2026, o silêncio temporário de Bruno Scheid fala alto. Não por confrontar diretamente seus correligionários, mas por transformar a lealdade em argumento político — e, ao fazê-lo, colocar em evidência que, dentro do mesmo partido, nem todos estão dispostos a agir como se nada disso importasse.



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