A escolha entre "Loja" e "Oficina" não divide a Maçonaria: ambos os termos são historicamente consagrados e semanticamente complementares. O verdadeiro debate não está nas palavras, mas na forma como elas são utilizadas para ensinar ou para constranger irmãos.
Como Mestre Maçom, aprendi que o rigor conceitual deve caminhar ao lado da elegância no trato da palavra. A linguagem, sobretudo no ambiente iniciático, não pode ser instrumento de constrangimento, mas de esclarecimento.
Recentemente ouvi o relato de um obreiro segundo o qual um Venerável Mestre procurou desqualificar outro irmão apenas porque este empregou o termo Loja em vez de Oficina. Segundo o relato, a intervenção ocorreu de forma pública, constrangendo o irmão com argumentos apresentados como definitivos, embora desprovidos de fundamento linguístico, histórico e ritual.
Permito-me divergir.
Do ponto de vista etimológico, Loja deriva do francês loge, relacionado ao local de reunião, abrigo ou recinto de trabalho. Já Oficina provém do latim officina, significando lugar de trabalho, de produção e de aperfeiçoamento. Na tradição maçônica, ambas as palavras foram incorporadas para designar a mesma realidade iniciática, cada qual ressaltando um aspecto distinto da instituição.
Quando dizemos Loja, enfatizamos a organização maçônica, sua personalidade coletiva, sua estrutura administrativa e seu corpo de obreiros.
Quando dizemos Oficina, destacamos o caráter simbólico do lugar onde se lapida a pedra bruta, onde o homem trabalha sobre si mesmo e aperfeiçoa seu espírito.
Não existe oposição entre os termos. Existe complementaridade.
É exatamente como ocorre na língua portuguesa com inúmeras palavras que compartilham um mesmo campo semântico. O contexto determina a nuance do significado, sem que uma expressão invalide a outra.
Sob a ótica da Linguística, especialmente da Semântica, trata-se de sinônimos contextuais. Sob a perspectiva da Maçonaria, trata-se de duas faces da mesma realidade iniciática.
Aliás, os próprios rituais, a literatura maçônica e os autores clássicos utilizam indistintamente Loja, Oficina, Augusta Oficina e Loja Simbólica, sem que isso represente qualquer impropriedade.
Por essa razão, considero inadequado que um Mestre Maçom utilize sua autoridade para constranger um irmão por uma escolha vocabular absolutamente legítima. A autoridade iniciática não se manifesta pela imposição da palavra, mas pela capacidade de ensinar sem humilhar.
O Venerável Mestre é o primeiro entre iguais. Seu malhete deve ordenar os trabalhos, jamais intimidar a inteligência dos obreiros. A correção fraterna existe, mas deve ser acompanhada de fundamentos sólidos, serenidade e respeito.
Transformar uma questão meramente terminológica em demonstração de poder enfraquece aquilo que a Maçonaria mais busca fortalecer: a liberdade de pensamento, o estudo e o aperfeiçoamento moral.
Se a intenção era ensinar, perdeu-se a oportunidade quando se escolheu constranger. Se a intenção era demonstrar conhecimento, este deveria vir acompanhado da humildade, pois a verdadeira erudição não necessita diminuir ninguém para afirmar-se.
A Maçonaria é, antes de tudo, uma escola de homens livres e de bons costumes. Nela, as palavras devem construir pontes, nunca muros. Loja e Oficina não se excluem; completam-se. Quem compreende a riqueza da linguagem percebe que ambas conduzem ao mesmo templo simbólico, onde o verdadeiro trabalho não é sobre as palavras, mas sobre o caráter de quem as pronuncia.
Licenciado em Letras, Bel. em Direito, Especialista em Metodologia da Educação Superior, Mestre Nacional de Xadrez e Mestre Maçom da ARGBLS A Luz do Graal n.° 34 da Maçonaria Universal em RO.


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