PORTO VELHO, RO - A resposta mais consistente à pergunta que abre este editorial é afirmativa. Ivo Cassol continua sendo um dos principais ativos da política de Rondônia, embora o significado dessa condição tenha mudado profundamente. Sua força atual não decorre do controle formal de um partido, da confirmação de uma candidatura própria ou da ocupação de um cargo público. Ela reside na capacidade de permanecer no centro das articulações mesmo sem comandá-las oficialmente, de ser procurado por grupos concorrentes e de emprestar memória política, capilaridade regional e legitimidade popular a projetos que tentam se consolidar para as eleições de 2026.
Cassol já não exerce o mesmo tipo de poder que acumulou quando passou pela Prefeitura de Rolim de Moura, pelo Governo de Rondônia e pelo Senado. Naquele período, autoridade institucional, comando partidário e força eleitoral estavam concentrados na mesma figura. A estrutura atual é diferente. O ex-governador perdeu instrumentos formais, mas preservou uma rede própria, construída durante décadas de atuação municipal, estadual e federal. É justamente a sobrevivência dessa rede, apesar do afastamento das urnas, que demonstra a dimensão de seu capital político.
Um político deixa de ser um ativo relevante quando sua aproximação não acrescenta votos, não produz repercussão e não altera os movimentos de possíveis aliados ou adversários. O comportamento das principais lideranças rondonienses aponta para a situação oposta. Pré-candidatos ao Governo de Rondônia, aliados históricos, dirigentes partidários e interessados em disputas proporcionais continuam tratando a relação com Cassol como um elemento que precisa ser publicamente administrado. Alguns procuram aproximação direta. Outros constroem pontes por meio de pessoas próximas. Há ainda aqueles que evitam confrontá-lo ou deixar que sua influência seja apropriada exclusivamente por um concorrente.
Esse movimento revela que a importância de Cassol não pode ser medida apenas pela pergunta sobre quem recebe seu apoio. O dado politicamente mais expressivo está em identificar quem considera necessário conversar com ele, aparecer ao seu lado ou demonstrar que mantém um canal aberto. Quando diferentes campos políticos disputam a possibilidade de proximidade com uma liderança, essa liderança continua exercendo poder, ainda que o faça fora da estrutura convencional.
A trajetória recente de Marcos Rogério oferece um exemplo direto. Em janeiro de 2026, o senador publicou uma fotografia ao lado de Cassol acompanhada da frase: “Com governador Ivo Cassol tratando do futuro de Rondônia.” A decisão de divulgar o encontro foi, por si só, uma mensagem política. Marcos Rogério possui identidade ideológica própria, presença eleitoral consolidada e ligação com o campo bolsonarista. Ainda assim, considerou importante tornar pública a interlocução com Cassol. A imagem serviu para demonstrar que o ex-governador não estava fechado contra seu projeto e que o canal entre ambos permanecia disponível.
A aproximação não equivale automaticamente a apoio formal. Essa diferença é fundamental. Cassol tem preservado margem de negociação justamente porque evita compromissos prematuros e permite que diferentes grupos enxerguem possibilidades em sua movimentação. A força está menos em anunciar um escolhido e mais em manter vários interessados aguardando uma decisão. A indefinição, nesse contexto, não representa ausência de influência. Ela se transforma em instrumento de barganha e amplia o valor político de cada gesto.
A movimentação mostra uma aproximação real, mas ainda não convertida em aliança fechada. Para Hildon, a vantagem está em dialogar com o eleitorado ligado à memória administrativa de Cassol, especialmente no interior, sem permitir que a relação seja interpretada como submissão política. A estratégia mais funcional consiste em aproveitar a proximidade sem transformar o ex-governador no dono da candidatura. O apoio pode ampliar a capilaridade de Hildon, mas uma vinculação excessiva poderia alimentar a ideia de que um projeto apresentado como próprio dependeria de uma liderança externa.
É na relação com Everton Leoni que a influência de Cassol aparece de maneira mais profunda, histórica e operacional. Leoni relatou conversas mantidas ao longo de várias eleições para ocupar a posição de vice em uma eventual candidatura de Cassol. Também atribuiu ao ex-governador papel importante em seu retorno à política e afirmou que ele apoiou sua entrada no projeto liderado por Adaílton Fúria. Nesse caso, não existe apenas uma fotografia ocasional ou uma convivência exploratória. Há uma ligação antiga, baseada em confiança, lealdade e projetos políticos discutidos durante diferentes ciclos eleitorais.
Leoni tornou-se, dessa forma, a principal ponte entre Cassol e a pré-candidatura de Fúria. A escolha do comunicador como pré-candidato a vice permite que parte do capital cassolista seja incorporada à composição sem que Cassol precise anunciar participação direta. O próprio Fúria afirmou que o nome de Leoni já era cogitado por Cassol. A influência, portanto, não se manifesta necessariamente por uma declaração pública de apoio ao pré-candidato do PSD, mas pela presença de um aliado histórico na formação da chapa.
Essa configuração é particularmente significativa porque permite uma espécie de participação indireta. Cassol não precisa ocupar o centro da campanha para interferir em seu desenho. Basta que pessoas identificadas com sua trajetória sejam posicionadas em lugares estratégicos. Leoni consegue circular em Porto Velho, ocupar espaços de comunicação e transportar para um projeto apresentado como renovação elementos associados ao legado do ex-governador.
A operação, entretanto, envolve benefícios e riscos. Para Fúria, a aproximação pode abrir portas entre eleitores que reconhecem em Cassol uma imagem de força administrativa e presença no interior. Ao mesmo tempo, uma dependência excessivamente visível poderia produzir o efeito contrário. Uma candidatura que pretende representar novidade geracional perderia parte dessa característica se passasse a impressão de ser comandada por uma liderança tradicional. O capital de Cassol agrega quando funciona como reforço; torna-se um peso quando parece tutela.
O mesmo raciocínio alcança Everton Leoni. A ligação com Cassol lhe oferece história, identidade política e uma narrativa de lealdade. Também permite apresentar seu retorno como resultado de um projeto amadurecido por anos. Em contrapartida, torna mais fácil aos adversários caracterizá-lo como instrumento de uma reentrada indireta do ex-governador. Leoni ganha com o vínculo, mas terá de demonstrar que a relação não elimina sua própria autonomia nem transforma a chapa em uma extensão disfarçada do cassolismo.
A reunião realizada na fazenda Kajussol, em Santa Luzia, com Cassol, Everton Leoni e Luiz Cláudio da Agricultura reforça outro aspecto desse método de atuação. Em vez de depender exclusivamente de eventos partidários, pronunciamentos oficiais ou grandes anúncios, o ex-governador continua articulando em ambientes privados, cercado por pessoas de confiança. Esse formato combina com uma política fortemente personalizada, na qual relações construídas ao longo do tempo podem ser tão importantes quanto cargos partidários.
Luiz Cláudio representa uma dimensão adicional desse capital. Como integrante do entorno político de Cassol e participante dessas articulações, pode se beneficiar do aval do ex-governador em uma disputa proporcional. Nas eleições para deputado estadual e deputado federal, redes territoriais, relações pessoais e apoios localizados podem produzir efeitos mais concretos do que em uma candidatura majoritária. É nesse tipo de eleição que a influência cassolista tende a ser mais facilmente convertida em votos.
O eleitorado proporcional se organiza por municípios, grupos profissionais, lideranças comunitárias e vínculos pessoais. Um apoio de Cassol, mesmo sem grande ato público, pode ajudar a consolidar candidaturas em regiões onde sua lembrança permanece associada à experiência administrativa. A influência não precisa alcançar o estado inteiro para ser relevante. Em uma disputa por cadeiras legislativas, a concentração regional de votos pode ser suficiente para alterar resultados.
No campo majoritário, o peso de Cassol é mais complexo. Pesquisas divulgadas em 2025 ainda o mostravam competitivo e, em alguns cenários, na dianteira da disputa pelo Governo de Rondônia. Isso demonstrou uma separação clara entre viabilidade jurídica e força eleitoral. Ainda que o caminho para uma candidatura estivesse bloqueado, o nome permanecia capaz de ocupar espaço, reorganizar cenários e reduzir a margem disponível para outros concorrentes.
O impedimento jurídico-eleitoral continua sendo o principal limite objetivo de Cassol. A condenação na Ação Penal 565, relacionada a fraude em licitações praticada durante sua passagem pela Prefeitura de Rolim de Moura, resultou em pena de quatro anos, posteriormente substituída por prestação de serviços à comunidade, com trânsito em julgado em 2018. A pena foi integralmente cumprida e teve sua extinção registrada em dezembro de 2020. A Lei Complementar 219, de 2025, manteve para crimes contra a administração pública a inelegibilidade desde a condenação por órgão colegiado até oito anos após o cumprimento da pena. A leitura mais prudente apresentada no levantamento é que Cassol permanece inelegível em 2026, salvo decisão judicial superveniente específica. Essa situação continua engessando sua participação eletiva, obrigando-o a exercer influência por meio de alianças, interlocutores e candidaturas de terceiros.
O bloqueio, contudo, não eliminou sua presença. Em alguns aspectos, chegou a transformar sua função. Cassol deixou de ser apenas um possível candidato e passou a operar como avalista, articulador e distribuidor de legitimidade. Sem a possibilidade de concentrar a eleição em torno do próprio nome, tornou-se um ativo que diferentes candidaturas tentam incorporar parcialmente.
A mudança no comando do Progressistas confirma essa transformação. Cassol deixou a presidência estadual da legenda em janeiro de 2025, e Sílvia Cristina assumiu a direção. Desde então, o partido passou a desenvolver uma agenda própria, promoveu filiações sob a condução da nova presidente e avançou com a pré-candidatura dela ao Senado. Cassol permaneceu ligado à estrutura nacional por meio do Conselho Consultivo, mas deixou de exercer a autoridade obrigatória sobre cada decisão estadual.
Essa perda de centralidade formal não significou desaparecimento. Significou mudança na natureza do poder. Sílvia Cristina demonstrou autonomia institucional e consolidou o PP como uma estrutura que já não depende exclusivamente de Cassol. Paralelamente, o ex-governador preservou influência pessoal suficiente para dialogar com personagens situados fora do controle partidário. A legenda ganhou independência parcial, enquanto Cassol ampliou sua condição de liderança informal, capaz de conversar com grupos diferentes sem necessariamente submetê-los à direção do partido.
A situação ajuda a explicar por que o poder de Cassol não pode ser confundido com controle absoluto. Ele continua sendo um ativo, mas não é mais o proprietário exclusivo do campo político que ajudou a construir. Sílvia Cristina tem projeto próprio. Marcos Rogério possui base ideológica própria. Hildon mantém trajetória administrativa e eleitoral independente. Adaílton Fúria tenta construir uma identidade de renovação. Cada um busca obter uma parcela da influência de Cassol sem entregar a ele a totalidade do comando.
Também não existe evidência suficiente para considerar todas as aproximações como alianças consolidadas. A relação com Leoni é explícita e histórica. O elo com Fúria é mediado. A convivência com Hildon permanece exploratória. O encontro com Marcos Rogério comprova diálogo, não apoio declarado. A presença de Luiz Cláudio demonstra confiança e proximidade, mas não substitui decisões eleitorais formais. A análise responsável precisa distinguir conversa, fotografia, articulação, apoio e submissão.
Essa diferenciação não diminui Cassol. Ao contrário, evidencia a abrangência de sua interlocução. Um político irrelevante não seria procurado por pré-candidatos concorrentes nem teria sua presença disputada por projetos distintos. O fato de nenhuma dessas relações poder ser tratada automaticamente como aliança fechada mostra que o ex-governador ainda conserva o controle sobre o momento e a intensidade de sua participação.
Na disputa pelo Senado, sua influência tende a ser menos determinante. Candidaturas senatoriais exigem grande reconhecimento público, estrutura estadual e identidade própria. A pré-candidatura de Sílvia Cristina demonstra que o PP não precisa transformar Cassol em centro do projeto. Outros nomes colocados no debate possuem densidade eleitoral independente. Nesse ambiente, o aval cassolista pode acrescentar, mas dificilmente substituirá a capacidade própria de cada concorrente.
No Governo de Rondônia e nas eleições proporcionais, o cenário é diferente. Na corrida ao Executivo, Cassol pode contribuir para a construção de alianças, para a penetração no interior e para a criação de uma narrativa de competência administrativa. Nas disputas legislativas, sua rede pode oferecer apoios localizados e relações acumuladas ao longo de décadas. Em ambos os casos, seu capital precisa ser utilizado com precisão. Quanto mais o apoio aparece como complemento, maior a possibilidade de gerar benefício. Quanto mais se transforma em sinal de dependência, maior o risco de provocar rejeição.
A relevância de Cassol em 2026, portanto, não depende de sua presença na urna. Ela se revela no comportamento dos que pretendem chegar até ela. Enquanto pré-candidatos considerarem útil demonstrar proximidade, enquanto aliados históricos forem incorporados a chapas competitivas e enquanto seu eventual apoio continuar sendo disputado, o ex-governador permanecerá entre os principais ativos da política rondoniense.
Isso não significa que detenha o mesmo poder do passado, nem que seja capaz de transferir automaticamente votos para qualquer pessoa. Capital político não funciona como propriedade bancária que pode ser integralmente repassada. Ele depende da compatibilidade entre o padrinho, o candidato, o território e a mensagem. O eleitor que admira Cassol pode aceitar sua indicação, rejeitar o nome escolhido ou apoiar apenas parte da composição. A influência existe, mas não é ilimitada.
O ponto central está na capacidade de obrigar os demais a se posicionarem. Cassol continua sendo uma presença que precisa ser administrada. Alguns candidatos buscarão seu aval. Outros tentarão limitar o espaço de sua influência. Haverá ainda aqueles que aceitarão a proximidade, mas rejeitarão publicamente qualquer ideia de tutela. Em todos esses movimentos, o ex-governador continuará interferindo no tabuleiro.
Ivo Cassol ainda é, portanto, um dos principais ativos da política de Rondônia porque preserva aquilo que cargos e direções partidárias, isoladamente, não garantem: memória eleitoral, rede regional, capacidade de articulação e reconhecimento público. O impedimento jurídico reduziu sua possibilidade de disputar diretamente o poder, mas não eliminou sua capacidade de influenciar quem o disputará.
A conclusão mais adequada não é a de que Cassol controla a eleição de 2026, mas a de que nenhuma análise séria sobre essa eleição pode ignorá-lo. Seu poder tornou-se mais indireto, seletivo e negociado. Ele já não comanda sozinho o partido, não possui candidatura confirmada e não consegue impor automaticamente um sucessor. Ainda assim, permanece capaz de fortalecer alianças, aproximar grupos e fornecer a candidatos uma credencial política que eles próprios demonstram considerar valiosa.
Cassol não precisa estar na urna para estar na eleição. Em 2026, a questão decisiva talvez não seja apenas quem receberá seu apoio, mas quem conseguirá incorporá-lo sem parecer subordinado a ele. É nesse equilíbrio entre prestígio e dependência, entre legado e renovação, que se encontra a prova mais clara de sua permanência como um dos grandes ativos da política de Rondônia.



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