PORTO VELHO, RO - A eleição para o Governo de Rondônia ainda nem começou oficialmente, mas a pré-campanha já entrou naquela fase em que todo mundo diz que está apenas conversando com a população, enquanto faz exatamente aquilo que qualquer candidato faria: mede força, testa frase de efeito, procura aliado, ocupa evento, cutuca adversário e tenta parecer inevitável.
O palco mais vistoso dessa largada foi Cacoal, no dia 13 de junho, durante a 3ª Marcha dos Vereadores. Sete pré-candidatos apareceram: Expedito Netto, Hildon Chaves, Luiz Carlos Teodoro, Marcos Rogério, Adaílton Fúria, Pedro Abib e Samuel Costa. Cada um teve 30 minutos para falar. Não houve debate direto. Não houve confronto real. Também não houve aquela parte incômoda da política em que alguém precisa responder à pergunta que preferia não ouvir.
Foi, portanto, um encontro útil, mas domesticado. Bom para discurso. Ruim para esclarecimento.
Os temas eram previsíveis porque são os mesmos que atravessam Rondônia há anos: saúde pública, Hospital João Paulo II, pedágio da BR-364, energia cara, segurança e gestão. O que mudou foi o uso eleitoral desses problemas. A saúde virou vitrine de indignação. O pedágio virou munição. A energia entrou como símbolo de cansaço. E a gestão pública apareceu como promessa genérica de salvação, essa velha conhecida de toda eleição.
Marcos Rogério saiu da semana como o nome mais bem posicionado. Lidera a pesquisa Perfil*, apareceu em agendas políticas, teve atuação no Senado e ainda ocupou espaço numa pauta sensível ao agronegócio, ao permanecer até o fim de uma audiência sobre o zoneamento. A frase dele, “Eu desmarquei a minha agenda inteira porque o meu compromisso não é com o relógio”, é exatamente o tipo de declaração feita para circular bem: simples, direta e com aparência de compromisso pessoal.
Mas há um problema no caminho. O Ministério Público Eleitoral citou Marcos Rogério em uma representação por suposta propaganda antecipada durante a Rondônia Rural Show, em razão de outdoor com a expressão “A mudança que Rondônia quer”. Não há decisão de mérito do TRE-RO. Isso precisa ficar claro. Mas também não dá para tratar o episódio como detalhe menor. Quem tenta ocupar cedo demais o imaginário da eleição também se expõe cedo demais ao controle da Justiça Eleitoral.
Adaílton Fúria aparece como o adversário mais próximo de Marcos Rogério. Sua semana teve menos fatos públicos de grande volume, mas a pesquisa lhe deu algo precioso: posição de competidor real. Fúria não precisa, neste momento, parecer o mais barulhento. Precisa parecer viável. E, por enquanto, é isso que a fotografia política indica.
O desafio dele é outro. Fúria tenta falar em mudança, mas carrega a proximidade com a base do governo Marcos Rocha. Isso pode render estrutura, palanque e musculatura no interior. Também pode virar cobrança. Em Cacoal, ao criticar os pedágios, disse que “a gente está todo dia colocando dinheiro lá esperando o benefício chegar.” A frase pega porque traduz irritação comum. Mas, em campanha, irritação só vira capital político quando o eleitor acredita que quem fala não faz parte do problema.
Hildon Chaves teve uma semana arrumada. Entoou discursos sobre contas de 2024 aprovadas por unanimidade na Câmara de Porto Velho, cumpriu agenda no Cone Sul com Cirone Deiró e falou como gestor. A frase “Quando o populismo supera a razão, a população sofre” mostra o personagem que ele tenta vender: o administrador racional, técnico, acima da gritaria.
Só que política não premia apenas currículo. Hildon ainda precisa transformar reputação administrativa em subida eleitoral. Está em terceiro. Tem base em Porto Velho, tenta ganhar corpo no interior e conta com Cirone para abrir portas fora da capital. Mas ainda falta o fato que mude a conversa. Por enquanto, ele se mantém vivo. Não virou a corrida.
Fora desse trio, a pré-campanha muda de natureza. Expedito Netto ocupa o campo lulista com clareza. Fala do governo Lula, defende o SUS e critica a bancada federal de Rondônia. Tem lado. Tem discurso. Mas ainda aparece distante do bloco principal.
Samuel Costa foi quem mais produziu ruído fora da ponta. Denunciou que sua fala teria sido interrompida em Cacoal quando tratava de incentivos fiscais à soja e depois voltou ao noticiário ao criticar a condução do IPERON. Pode ser pouco em voto, mas é alguma coisa em presença pública. Em uma disputa dominada por nomes mais conhecidos, barulho também é método.
Luiz Carlos Teodoro teve um momento de boa repercussão ao falar de direitos humanos e saúde pública. “Saúde não é favor, saúde é um direito”, disse. É uma frase correta, forte e humana. O problema é que, na política, bons discursos nem sempre encontram urna. Pedro Abib tenta ocupar o espaço do centro, fala em industrialização, propósito e moderação. “Eu não tenho grupo, eu não tenho família, eu tenho propósito”, afirmou. É uma boa frase de campanha, mas ainda sem tração visível.
Ricardo Frota, por sua vez, quase não apareceu. E ausência, em pré-campanha, também comunica. Pode haver articulação fora do radar, mas, no que veio a público, sua presença foi pequena demais para disputar centralidade.
O ponto mais importante talvez não esteja nos percentuais, nem nas agendas, nem nas frases. Está no vazio entre o discurso e a obrigação de explicar. Marcos Rogério precisa responder politicamente ao incômodo da propaganda antecipada. Fúria precisa explicar como será mudança carregando a sombra da continuidade. Hildon precisa provar que gestão municipal vira projeto estadual. Samuel precisa transformar denúncia em consistência. Expedito precisa sair do nicho. Pedro Abib, Luiz Teodoro e Ricardo Frota precisam mostrar que não são apenas nomes na lista.
Ainda não há candidatura registrada. Ainda não houve convenção. Ainda não há campanha formal. Mas já há sinais suficientes para uma constatação simples: a eleição de Rondônia começou antes de começar.
E começou do jeito rondoniense de sempre: com muito discurso sobre mudança, muita conversa de bastidor, alianças ainda nebulosas e problemas antigos sendo reapresentados como se tivessem acabado de nascer.
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*A pesquisa Perfil, registrada no Tribunal Regional Eleitoral de Rondônia sob o número RO-05630/2026, ouviu 1.480 eleitores distribuídos em 24 municípios do estado. As entrevistas foram realizadas entre os dias 29 de maio e 3 de junho de 2026, com margem de erro declarada de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos. Segundo as informações divulgadas, o levantamento foi utilizado para medir o cenário da sucessão ao Governo de Rondônia antes do início oficial da campanha eleitoral.



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