PORTO VELHO, RO - Em entrevista ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, o advogado e pré-candidato ao governo pela federação formada por Rede e PSOL, Samuel Costa, afirmou que deveria ser o “pré-candidato legítimo” do campo da esquerda. Ele atribuiu resistências internas à “vaidade”, criticou dirigentes partidários, mencionou diretamente Luiz Inácio Lula da Silva e o bolsonarismo, citou Expedito Netto e Célio Lopes, defendeu tributação sobre a soja, relatou convite para assumir secretaria no governo de Marcos Rocha e atacou o uso político de agentes da segurança pública
Costa se colocou publicamente como pré-candidato ao governo de Rondônia e concentrou os trechos mais contundentes de sua participação em críticas diretas a setores da esquerda, a pré-candidatos de outros campos e a estruturas do poder público estadual. Logo no início, ao tratar da articulação de uma candidatura apoiada por oito, nove ou dez partidos, Samuel afirmou ter diálogo adiantado com Vinícius Miguel, dirigente do PSB, mas disse enxergar resistência de “caciques políticos” do próprio campo ideológico.
Na entrevista, Samuel declarou de forma expressa que, em sua avaliação, deveria ser o único nome legítimo da esquerda na disputa pelo governo. Ao justificar essa posição, afirmou que possui mais identidade com esse campo, disse que seu nome estaria mais “badalado”, sustentou que não abre mão das suas convicções e apontou que lideranças mais antigas, sobretudo do Partido dos Trabalhadores, teriam receio diante do protagonismo que ele afirma ter assumido.
Na mesma resposta, atribuiu parte da resistência que enfrenta a ciúmes e a uma reação de setores tradicionais ao desempenho eleitoral que sua legenda obteve em Porto Velho nas eleições de 2024. Segundo ele, a Rede Sustentabilidade teria alcançado quase 9 mil votos na capital com cerca de R$ 300 mil de fundo eleitoral, resultado que, conforme sua versão, representou o melhor desempenho proporcional do campo progressista.
A entrevista avançou para o terreno mais sensível quando Samuel passou a falar abertamente sobre as dificuldades de consolidação de sua pré-candidatura entre partidos identificados à esquerda. Questionado sobre o motivo de não haver convergência automática em torno de seu nome, ele respondeu que o “dissenso é a vaidade” e usou a própria trajetória como argumento. Disse não ter assumido cargo federal nem estadual, embora, segundo seu relato, tenha recebido propostas para isso. Na sequência, afirmou que o governador Marcos Rocha, hoje do PSD, o teria chamado para ocupar a Secretaria de Justiça (Sejus/RO) em um momento de conturbação da pasta. Ao mesmo tempo em que registrou divergências ideológicas com o chefe do Executivo estadual, Samuel descreveu haver uma relação pessoal com o governador e reconheceu ações da atual gestão que, segundo ele, avançaram em pautas sociais, citando nominalmente os programas Prato Fácil e Tchau Poeira.
Esse trecho abriu uma das contradições mais exploradas na conversa. Embora se apresente como nome de esquerda para suceder um governador associado ao bolsonarismo, Samuel relatou proximidade pessoal com Marcos Rocha e fez elogios pontuais a programas do atual governo. Ainda assim, disse pagar um “preço alto” por sua coerência e afirmou que seu “erro estratégico” foi ter cuidado demais de Rondônia sem tornar visível ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva parte do que alega ter feito politicamente em defesa do campo lulista. Nesse ponto, passou a atacar nomes que hoje orbitam ou se apresentam no campo progressista, lembrando que Expedito Netto, a quem chamou de amigo pessoal, votou pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff, e que Acir Gurgacz, segundo ele, também apoiou esse movimento.
Ao aprofundar as críticas, Samuel afirmou que o PT em Rondônia teria ficado “refém” de Acir Gurgacz, a quem descreveu como alguém com dinheiro, estrutura empresarial e poderio financeiro. Também disse que, em 2018, mesmo após o voto pelo impeachment, teria havido uma carta de Gleisi Hoffmann pressionando o partido a apoiar o mesmo nome. Em seguida, vinculou sua situação atual a uma suposta coerência política e declarou que, ao longo da última década, teria sido uma das pessoas que mais defenderam Lula em Rondônia na televisão, no rádio, na internet e nas redes sociais, chegando a afirmar que, se fosse feita uma consulta pública, ele apareceria como um dos principais defensores do presidente no estado.
Samuel, então, inseriu um episódio pessoal envolvendo o empresário Luciano Hang. dono das lojas Havan. Segundo relatou, foi processado após afirmar que Hang seria “ladrão”, explicando, na própria entrevista, que fez essa declaração em reação a uma faixa em que o empresário chamava Lula de ladrão. Samuel acrescentou que, na audiência criminal, apresentou a justificativa de que, em sua visão, deixar de pagar Receita Federal e Previdência significaria retirar dinheiro de áreas como a educação. Na sequência, afirmou que não compareceu à audiência cível na comarca do empresário, razão pela qual teria havido revelia, enquanto no processo criminal, conforme sua própria versão, “deu tudo certo”. Ainda disse que o pedido teria sido de R$ 50 mil e que, à época, chegou a vender um carro para custear despesas relacionadas ao processo.
Outro eixo de confronto discursivo da entrevista apareceu quando Samuel comentou a segurança pública de Rondônia. Embora tenha reconhecido avanços salariais e estruturais sob a atual gestão, sobretudo na Polícia Militar e no hospital de Guajará-Mirim, o entrevistado passou a atacar o que chamou de déficit alarmante de efetivo, a permanência de policiais em funções administrativas e a forma como instituições de outros poderes utilizariam esses profissionais. Disse que policiais cedidos à Assembleia Legislativa, ao Tribunal de Justiça, ao Ministério Público e ao Tribunal de Contas deveriam voltar às ruas. Na avaliação dele, militar combatente tem de exercer patrulhamento ostensivo, enquanto a polícia civil deve cumprir o papel investigativo e repressivo.
Samuel também criticou contratos da área de segurança ao afirmar que haveria locação de veículos Volkswagen Virtus por cerca de R$ 15 mil mensais na Secretaria de Segurança Pública, questionando a lógica dessa despesa diante do valor de mercado do automóvel e da inadequação do modelo para uso policial. Em seguida, passou a mirar o que chamou de espetáculo em torno de figuras públicas da segurança, atacando pré-candidatos e construções de imagem em redes sociais, ao mesmo tempo em que ampliou críticas ao ambiente político influenciado pelo bolsonarismo, citando que muitos discursos se consolidam mais pela comunicação digital do que pela prática administrativa.
Na parte econômica, a entrevista ganhou novo tom de enfrentamento quando Samuel passou a tratar do agronegócio. Ele afirmou que, caso chegue ao governo, pretende “equalizar” a situação do ICMS sobre a soja, defendendo tributação progressiva de 1,5% inspirada, segundo disse, em medida adotada no Mato Grosso do Sul. Ao justificar a proposta, afirmou que o setor da soja estaria ganhando muito dinheiro, recebendo em commodities e em dólar, e que teria chegado a hora de contribuir para o combate às desigualdades sociais. Também disse que essa seria uma pauta de grande polêmica e sustentou que essa parcela do agronegócio não pagaria “zero centavo de ICMS”.
Ao detalhar a distinção que fazia dentro do setor, Samuel poupou a pecuária e afirmou que ela estaria sendo “injustiçada”, sustentando que o alvo de sua crítica eram os plantadores de soja. Na entrevista, afirmou que caminhões ligados a essa atividade seriam responsáveis por danos em rodovias como a BR-364, a BR-425, a BR-319, além de estradas estaduais e vicinais. Também questionou a capacidade do setor de gerar empregos, dizendo que propriedades altamente mecanizadas produzem pouco impacto ocupacional e chegando a comparar o alcance de pequenos negócios urbanos com grandes fazendas.
A escala 6x1 foi outro ponto em que o entrevistado ampliou o teor de enfrentamento verbal. Ao reagir a declarações atribuídas a dirigentes partidários ligados ao bolsonarismo, Samuel respondeu associando o debate à luta de classes e comparando o argumento ao discurso usado historicamente contra a abolição da escravidão. Sustentou que trabalhadores adoecem em razão de doenças psicossomáticas e descreveu a rotina exaustiva de trabalhadores do comércio em Porto Velho.
Na parte final do confronto político, Samuel voltou a mirar os partidos e lideranças de esquerda que, segundo ele, não abraçam sua candidatura. Disse conversar com alguns desses atores, citou relação frequente com Vinícius Miguel e manifestação pública de deferência a Roberto Sobrinho, mas afirmou não saber qual seria o problema que outros dirigentes teriam com seu nome. Nesse momento, ampliou o campo de críticas e citou diretamente nomes envolvidos nas eleições municipais de 2024, incluindo Célio Lopes, ao afirmar que não o vê participando de reuniões políticas e mencionar episódio em Cacoal, no qual, segundo sua versão, o político teria evitado se posicionar ao lado de determinadas forças partidárias. Também incluiu Célio ao comentar o volume de recursos investidos em campanhas, afirmando que, somadas candidaturas como a dele e de outros nomes, teriam sido gastos milhões em Porto Velho, em contraste com o valor utilizado por sua própria estrutura política.
Ainda nesse bloco, voltou a mencionar o ambiente político polarizado entre lulismo e bolsonarismo, afirmando que muitas lideranças transitam entre os campos conforme conveniência eleitoral. Ao comentar o cenário nacional, citou diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro, afirmando que determinadas candidaturas buscam se alinhar ao bolsonarismo mesmo sem respaldo efetivo do ex-chefe do Executivo.
Só no terço final da entrevista o tom foi deixando o choque político mais direto para dar espaço a elementos pessoais, de trajetória e a observações laterais. Samuel contou que nasceu na Assembleia de Deus, afirmou que o pai era evangelista e que o avô teria sido um dos fundadores da igreja. Disse ter sido batizado aos 12 anos, apresentado na igreja com dois meses de idade e conhecer os hinos da Harpa Cristã, embora tenha relatado que há cerca de uma década não frequenta cultos. Ainda assim, afirmou se considerar evangélico e declarou que não utiliza a igreja para fazer palanque político.
Nos minutos finais, Samuel também falou de espiritualidade e estoicismo, afirmou acreditar que o futuro está “na mão de Deus” e voltou a justificar sua permanência no debate eleitoral como expressão de coerência. Criticou o volume de recursos gastos por candidaturas nas eleições municipais de 2024, voltou a mencionar nomes como Célio Lopes dentro desse contexto e comparou esses montantes ao desempenho de sua própria legenda. Já no encerramento, agradeceu a entrevista e afirmou que acompanha análises políticas como forma de orientação em momentos de dúvida.
10 FRASES DE SAMUEL COSTA NO RESENHA POLÍTICA
01) “Acho que o pré-candidato legítimo do campo da esquerda deveria ser só eu.”
Ao falar sobre a disputa interna no campo progressista, Samuel Costa afirmou que seu nome deveria ser o único legitimado pela esquerda para concorrer ao governo de Rondônia.
02) “Eu acho que o dissenso é a vaidade.”
A frase foi usada para explicar a resistência de partidos e lideranças à sua pré-candidatura.
03) “O governador Marcos Rocha tem uma aproximação muito… apesar das divergências ideológicas, ele sempre manteve um relacionamento pessoal comigo.”
Samuel mencionou o convite para assumir a Secretaria de Justiça no governo estadual.
04) “Eu fui processado pelo Luciano Hang, o sexto homem mais rico do Brasil, o bolsonarista, porque eu disse que ele é ladrão.”
Relato inserido no contexto de defesa de Lula e enfrentamento político.
05) “Quando a Dilma estava sendo impeachmada, o Expedito Neto votou pelo impeachment dela.”
Ao mencionar Expedito Netto, Samuel Costa inseriu o nome no contexto de crítica à coerência política, destacando o voto favorável ao impeachment como elemento para questionar a atuação de lideranças que hoje transitam ou buscam espaço no campo progressista.
06) “Militar tem que estar na rua.”
Defesa da atuação ostensiva da polícia militar.
07) “Cadê o Célio, que até agora não participa de nenhuma reunião?”
Ao citar Célio Lopes, Samuel Costa fez crítica direta à ausência do político nas articulações do campo progressista, apontando falta de participação em encontros e questionando o engajamento nas discussões que envolvem a construção de alianças eleitorais.
08) “O teu podcast aqui, Robson, gera mais emprego do que uma das fazendas do Ivo Cassol.”
Comparação usada para questionar o impacto do agronegócio na geração de empregos.
09) “Isso é uma tolice, é um devaneio.”
Crítica ao argumento contrário ao fim da escala 6x1.
10) “O Bolsonaro já falou que não quer o Fúria. O candidato dele é o Marcos Rocha.”
Comentário sobre alinhamentos políticos no campo da direita.



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