PORTO VELHO, RO - O comandante-geral da Polícia Militar de Rondônia, coronel Glauber Souto, afirmou no podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, que a segurança pública do Estado já identificava sinais de risco associados ao avanço do crime organizado desde a implantação dos presídios federais em Rondônia e que, naquele período, o fenômeno não teria sido enfrentado “como se deveria”. Ao ser provocado sobre a escalada da violência e sobre a crise registrada na capital no início do ano anterior, quando, segundo o apresentador, Porto Velho ficou “sitiada” pelo crime organizado, o comandante respondeu vinculando a instalação das unidades federais à chegada de uma “visão diferente, mais especial para o crime organizado”, com formação de células e cooptação de lideranças locais. No diálogo, Souto citou como exemplo o Cone Sul, dizendo haver pessoas “ligadas diretamente à liderança do Comando Vermelho”, mencionando que teriam sido cooptadas naquele contexto.
Na mesma linha, o comandante classificou o crime e as organizações criminosas como um “fenômeno social” e sustentou que o Estado atua sob limitações, ao mesmo tempo em que, segundo ele, a legislação nacional não acompanharia o ritmo das ações policiais. Em trecho em que ampliou a crítica ao arcabouço legal, Souto declarou: “A polícia prende muito, mas a nossa legislação, de uma certa forma, ela permite um afrouxamento”. A afirmação foi apresentada como parte da explicação para o cenário em que, conforme descrito por ele, prisões ocorrem diariamente enquanto crimes continuam sendo registrados, o que o levou a defender que o debate sobre segurança não poderia ficar restrito ao que a Polícia Militar realiza, já que sua atribuição constitucional é o policiamento ostensivo.
Durante a entrevista, o comandante apontou que, mesmo com investimento em treinamento, captura e proatividade, a rotina policial esbarraria em fatores externos. Ao comentar a crítica recorrente de que as forças de segurança “enxugam gelo” porque “prende e a Justiça solta”, ele afirmou que essa leitura não seria “justa”, argumentando que o Judiciário estaria limitado ao que a lei determina. Souto também apontou que mudanças recentes no sistema de justiça ampliariam a pressão sobre a estrutura existente, citando o Juízo de Garantias como exemplo de medida que, em sua avaliação, teria chegado sem a correspondente adaptação de capacidade operacional, gerando acúmulo “insustentável” para o sistema diante do volume de ocorrências. No momento em que Robson Oliveira sintetizou o ponto como falta de “condições objetivas” para dar vazão à demanda, Souto concordou e acrescentou que a situação “vai muito além disso”, retomando críticas ao desenho das penas.
Ao ilustrar o que chamou de desproporção legislativa, Souto contrastou o tratamento penal dado ao furto de um celular com o que descreveu como invasão de uma propriedade de alto valor e interrupção de produção rural, apontando que, enquanto um caso receberia pena de “um a quatro anos”, o outro seria enquadrado como esbulho com “seis meses” e ainda dependeria de representação da vítima, o que, segundo ele, configuraria crime de ação privada. “Veja a desproporção… desse outro crime que atinge milhões na propriedade e que é uma realidade no nosso estado de Rondônia”, disse, ao defender que esse tipo de delito rural estaria presente no cotidiano rondoniense.
O comandante também entrou em confronto direto com um relatório citado pelo apresentador sobre violência no campo atribuída à atuação policial. Ao ser questionado se refutava o documento, respondeu afirmativamente e disse considerar o material “politizado”. Ainda assim, afirmou que os índices apresentados seriam “verdadeiros”, mas sustentou que o relatório, na forma como teria sido construído, não contemplaria o contexto operacional enfrentado em reintegrações de posse. “A polícia militar não entra no campo para fazer uma reintegração de posse… porque ela deseja… Ela o faz porque existe uma ordem judicial”, afirmou, acrescentando que, no cumprimento dessas decisões, equipes podem encontrar “criminosos armados, fortemente armados”. Nesse trecho, relatou um episódio do ano anterior em que teria sido localizado “um arsenal com armas de grosso calibre”, citando fuzil 7.62 e afirmando que não se trataria de armamento “para um caçador”.
Na sequência, Souto usou linguagem figurada para sustentar que a atuação policial em cenários desse tipo não poderia ocorrer sem reação proporcional ao risco. “Será que a polícia militar vai resolver essa reintegração soltando pombinhas na Lagoa Rodrigo de Freitas?”, questionou, em fala contínua na qual também rechaçou a ideia de “deixa atirar primeiro, se acertar revida”, dizendo que esse modelo resultaria em violência “contra o Estado” e em mais perdas na corporação. Ele acrescentou ainda uma provocação sobre a caracterização das vítimas em conflitos rurais, dizendo que seria necessário refletir se “essas pessoas que foram vítimas eram realmente camponeses”, e afirmou que, quando há famílias e a ordem judicial é cumprida com respeito, “não tem violência no campo”.
Além da controvérsia sobre o campo, o comandante se deteve em números que atribuiu ao que chamou de “política do governo do estado” e a maior presença policial nas ruas. Segundo ele, em janeiro, houve aumento de atendimentos e abordagens: de “20 mil atendimentos” no ano anterior para “26 mil”, além de cerca de “9 mil abordagens” no mês, associando esse crescimento a investimento para tirar policiais da folga e ampliar a capacidade de resposta em locais que antes não eram atendidos por falta de efetivo. Para Souto, esse movimento impactaria na redução de crimes ao permitir recaptura de foragidos, retirada de armas de circulação e recuperação de veículos oriundos de furto e roubo. Dentro desse encadeamento, afirmou que houve redução de “33%” no índice de homicídio em janeiro e de “22%” no índice de roubos no mesmo período, classificando os percentuais como expressivos.
Ao comentar como esses dados seriam percebidos pela população, Souto criticou a forma de divulgação de episódios violentos e disse que, em algumas coberturas, haveria “especulação” e “sensacionalismo” na maneira de veicular imagens e recortes, destacando que não negava a ocorrência dos fatos nem dizia estar “satisfeito” com eles, mas sustentava que a frequência teria sido maior no janeiro anterior. “Eu não estou dizendo que não aconteceu, eu não estou dizendo que estou satisfeito com o que aconteceu, mas estou dizendo que o trabalho da Polícia Militar, ele está sendo feito no sentido de reduzir ainda mais isso”, afirmou, ao reconhecer que o crime pode ocorrer “até no âmbito familiar”.
Quando o apresentador trouxe para a conversa críticas de parlamentares e de atores ligados à segurança sobre falhas de prevenção e “defasagem de tropa”, Souto confirmou que o Estado estaria há anos sem concurso e disse que o último certame ocorreu, “salvo engano”, em 2015, com chamadas em 2016, 2018 e 2019, citando que a última turma foi a de 2019. Ele reconheceu redução gradual do efetivo, mas alegou que, apesar disso, haveria queda acumulada nos índices nos últimos três anos, mencionando como referência uma redução de “60%” em roubos, “20%” em furtos e “10%” em homicídios. A explicação apresentada por ele passou, então, por limitações fiscais e orçamentárias e por aumento de investimentos em segurança, associando o crescimento do orçamento estadual desde 2019 e citando que a Polícia Militar teria saído de “13 milhões por ano” para investimento e fechado o ano anterior com “58 milhões”.
Souto também rebateu a crítica baseada em exemplos de municípios com poucas viaturas, como a menção feita no debate a um cenário de “duas viaturas” para patrulhamento noturno. Ele reconheceu a existência do “ordinário” com duas viaturas em Vilhena, mas disse que isso não refletiria o que ocorre “por trás” da escala, citando policiais tirados da folga para cumprir serviço e deslocamentos para reforçar patrulha rural, apresentada por ele como investimento implantado de forma mais sistemática e contínua. Ainda nesse ponto, defendeu que o reforço financeiro permitiria suplementação de policiamento e deslocamento de efetivo de outras localidades para cidades com maior demanda.
Em outro trecho de maior tensão, o comandante abordou ataques a empresários atribuídos, por ele, como um “problema novo” trazido pelo crime organizado e disse ter buscado articulação institucional com outros órgãos. Afirmou que esteve com o presidente do Tribunal de Justiça, “doutor Alexandre”, com integrantes do GAECO, citando “doutor Anderson”, e com o diretor-geral da Polícia Civil, “doutor Jeremias”, para discutir medidas e implementar “novos mecanismos”. Nessa parte, explicou que a PM ofereceria apoio e compartilhamento de estrutura e pessoal para atuação conjunta, reconhecendo que há limites de atribuição e que, em alguns pontos, “sobra” estrutura em uma instituição enquanto “falta” em outra, justificando a necessidade de ajustes e parcerias.
Ao retomar a discussão sobre resultados operacionais, Souto afirmou que a Polícia Militar prende em grande volume e rechaçou críticas nacionais sobre qualidade das prisões. “Ao contrário do que foi dito, que a polícia prende mal, isso não é verdade, nós prendemos muito bem”, disse, acrescentando que os presídios estariam “cheios”. Para ele, o efeito colateral do aumento de abordagens e atendimentos seria a pressão sobre delegacias e sobre o sistema de justiça, com pedidos que passam por delegados e Ministério Público até chegarem ao Judiciário, acumulando, segundo sua descrição, em um cenário de restrições de orçamento e efetivo.
No terço final do programa, o assunto passou a incluir a discussão sobre câmeras corporais. Souto disse considerar o equipamento “um recurso importante”, mas defendeu avaliação sobre benefícios para a sociedade e ponderou que há discursos que apontam proteção de direitos do cidadão e, de outro lado, críticas de que o dispositivo poderia limitar a ação do policial em ocorrências que exigem resposta imediata. Ele afirmou que a utilização poderia ser adequada com treinamento em algumas situações, mas avaliou que tropas especializadas de enfrentamento, como Bope e BPTAR, não seriam o melhor perfil para uso rotineiro, por entender que a câmera poderia “prejudicar a tecnicidade e prejudicar a ação policial” em determinados contextos.
A entrevista também registrou parte do histórico pessoal do comandante. Souto afirmou ser civil de origem, nascido em Ji-Paraná, e contou que foi para São Paulo em 2006 para a Academia de Polícia Militar do Barro Branco, onde permaneceu quatro anos. Disse que, antes de ingressar na carreira, trabalhava em posto de carga pesada e que sua última função era “loneiro de caminhão”. Ao abordar a própria ascensão rápida, atribuiu o cenário a um “lapso muito grande” entre turmas anteriores e a sua, citando que os coronéis de 1998, com exceção de um, teriam ido para a reserva, e que a sua turma chegou como aspirantes em 2009 após um intervalo de 11 anos. Também mencionou alterações legislativas, exonerações e “quebras de interstício” ao longo da carreira, apontando que o governador coronel Marcos Rocha teria promovido essas medidas por necessidade de preenchimento de funções estratégicas e de correção de gargalos nas promoções, embora tenha reconhecido que ainda há pessoas com promoções atrasadas por limitações orçamentárias e regras do quadro.
No encerramento, Robson Oliveira agradeceu a presença do comandante e mencionou que ouviu avaliações divergentes de ex-coronéis, incluindo elogios e alertas sobre a dificuldade de “transitar” no ambiente político, enquanto Souto disse que a exposição é “uma obrigação da função” e reafirmou que seu posicionamento é “mostrar números” e “falar da realidade”. “Pouco é o Glauber, mas a minha tropa. A minha tropa é que faz a diferença”, afirmou, ao dizer que os resultados atribuídos à corporação não seriam individuais, e que, independentemente de quem esteja no comando, o compromisso seria manter o trabalho e buscar esclarecimento à população.



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