Publicada em 27/01/2026 às 09h50
Porto Velho (RO) — O prefeito de Vilhena, Delegado Flori, do Podemos, usou a entrevista ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, para fazer acusações diretas sobre as resistências à adoção do modelo de organizações sociais (OS) na saúde em Rondônia e para afirmar que, no estado, há “duas grandes tragédias em andamento”: saúde e segurança pública. Ao defender que o formato já é aplicado “no Brasil inteiro” e em governos “de direita e de esquerda”, Flori afirmou que tentativas anteriores teriam sido bloqueadas por grupos que, segundo ele, “se alimentam do caos e da desgraça humana”.
Em um dos trechos mais contundentes, ao citar o ex-governador e atual senador Confúcio Moura, do MDB, como o primeiro a tentar colocar o sistema em prática no estado, Flori disse que a iniciativa, apesar de ter virado lei em 2011, não teria avançado por três razões. “Aqui em Rondônia quem tentou pela primeira vez esse sistema foi o governador Confúcio Moura. Em 2011 ele passou a lei na Assembleia. Não conseguiu colocar por três motivos. Máfia de branco. Máfia de empresário, de laboratório e de imagem. E alguns sindicatos de ladrões”, declarou. Na mesma fala, ele acrescentou que se referia a “alguns, não todos”, e caracterizou o grupo como minoria.
Provocado pelo entrevistador, que questionou se ele estaria chamando o sindicato dos médicos de “sindicato de ladrões”, Flori respondeu negando: “Não, de jeito nenhum, nenhum.” Ainda assim, manteve o argumento de que haveria forças interessadas em impedir o modelo, enquanto, na versão apresentada por ele, o formato já estaria consolidado fora de Rondônia. “Todos os estados brasileiros usam esse modelo. Todos. Menos Rondônia”, afirmou, atribuindo a discussão a mudanças institucionais desde a Constituição de 1988 e mencionando uma legislação criada para autorizar a gestão de unidades públicas por iniciativa privada sem fins lucrativos.
A entrevista também caminhou para um segundo eixo de atrito: os riscos e escândalos associados à adoção de OS em alguns estados, citados pelo próprio prefeito e pelo apresentador. Ao reconhecer que existem casos de corrupção, Flori mencionou episódios que, segundo ele, envolveriam organizações criminosas em modelos semelhantes fora de Rondônia. “Como o senhor viu, certamente haverá quem diga que não, quem diga que não quer, quem diga que é bandidagem, quem diga que a OS não sei aonde roubou, lógico”, disse. Na sequência, com Robson Oliveira citando o Rio de Janeiro como exemplo de “escândalo”, Flori respondeu: “Que é, em alguns casos, é verdade. É tomada por organização criminosa. Tem PCC no meio, tem Comando Vermelho no meio.” O apresentador emendou: “Tem deputado no meio.” Flori concordou: “Tem deputado. É tudo verdade.”
Mesmo citando esse tipo de risco, Flori sustentou que o modelo aumentaria eficiência e reduziria burocracia, e afirmou que a experiência em Vilhena teria produzido resultados tanto de organização de gestão quanto de atendimento. Para ilustrar o contraste, ele afirmou que a saúde municipal teria sido reestruturada após a implantação de uma OS, relatando, entre outros pontos, que houve mudanças de rotina e de controle de horário dentro do hospital. Flori descreveu resistência inicial e disse que, antes do novo formato, o município arcava com cerca de R$ 1,5 milhão por mês em horas extras. “Nós organizamos isso e com esse R$ 1,5 milhão, o que eu tinha de 960 servidores, eu contratei 930 servidores para funcionar dentro do hospital, com o mesmo dinheiro”, afirmou.
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Ainda no tema saúde, ele citou intervenções estruturais na unidade, como reorganização de ambientes e criação de serviços. “Nós não tínhamos maternidade separada. Nós criamos uma maternidade separada. Nós não tínhamos UTI neonatal na cidade de Vilhena, que é responsável por 10 cidades no entorno. Não se tinha. A gente tem lá hoje UTI neonatal”, disse. Também afirmou que o município teria avançado na atenção básica, relatando uma mudança de posição em ranking do Ministério da Saúde: “Nós saímos de 27º lugar no Ministério da Saúde para o 2º lugar, primeiro lugar entre as grandes cidades em Rondônia.”
A entrevista ganhou novo tom de confronto ao entrar na segurança pública. Flori afirmou que o estado estaria “largado” e disse que, sem as forças policiais, Rondônia já teria deixado de ser “civilização” para entrar na “barbárie”, em uma fala em que elogiou a Polícia Militar, a Polícia Civil e a Polícia Penal. Para sustentar o cenário, citou o efetivo em Vilhena e relacionou isso à sensação de insegurança. “Vilhena tem 110 mil habitantes. 108 mil e 500 agora pela IBGE. Tem duas viaturas por turno. Quer dizer, o que você espera por isso?”, afirmou.
Nesse contexto, Flori relatou um episódio que classificou como incoerente e que, segundo ele, teria impedido a prefeitura de colaborar com o policiamento ostensivo. Ele disse ter sido o primeiro prefeito a aprovar na Câmara Municipal a chamada “Lei Delegada”, um mecanismo em que a prefeitura compraria horas de folga do policial para ampliar o efetivo nas ruas, com o agente já treinado e armado. “Ao invés do PM descansar 36 horas, a prefeitura compra 12 horas de descanso dele e ele, com a arma do governo do estado, ele já é treinado com a farda, com o carro, ele reforça o efetivo”, explicou. Segundo ele, a proposta teria sido arquivada após um parecer que apontou inconstitucionalidade. “Eles falaram num parecer, lá num papelinho que era inconstitucional e que não ia assinar aquilo comigo. E arquivaram.”
O prefeito afirmou que, posteriormente, modelo semelhante teria sido aceito para Porto Velho. “Funciona em São Paulo, funciona em Belo Horizonte. Um mês atrás eles aceitaram fazer com o Léo. Aí o Léo fez”, disse, referindo-se ao prefeito Léo Moraes, também do Podemos, chefe do Executivo municipal em Porto Velho. Questionado por Robson Oliveira se teria havido retaliação do governo, Flori respondeu com cautela, mas relatou estranhamento. “Eu sinceramente não consigo entender. Pra mim é uma coisa dúbia, eu fico eu mesmo pensando, porque foi um próprio tiro no pé.”
Em outro trecho em que narrou dilemas práticos da gestão pública, Flori voltou ao período inicial no cargo e descreveu uma situação envolvendo estradas rurais e licenciamento ambiental para retirada de cascalho. Segundo ele, Vilhena teria cerca de 3 mil quilômetros de estradas rurais e, à época, havia 26 cascalheiras em funcionamento. Flori disse que uma decisão do Tribunal de Justiça declarou inconstitucional uma lei que permitia aos municípios retirar cascalho sem licença, exigindo autorização da Sedam. Ele afirmou que cada licenciamento demoraria em torno de seis meses e descreveu o impasse que teria enfrentado. “Eu determinava que a cascalheira fosse utilizada sem licença ambiental e deixava as vias rurais abertas para salvamento médico, transporte de idoso para tratamento e todas as outras coisas… ou eu cometia um crime ambiental”, disse.
A entrevista avançou para o terreno eleitoral quando Robson Oliveira apresentou Flori como provável candidato e, diante da inexistência de candidaturas oficializadas, como pré-candidato ao governo de Rondônia, questionando de forma direta a recorrente associação do nome do prefeito de Vilhena ao apoio de Léo Moraes. O apresentador ponderou que uma candidatura percebida como dependente de terceiros poderia não se sustentar politicamente, o que levou Flori a detalhar sua posição.
Ele afirmou que menciona Léo Moraes por se tratar de um prefeito bem avaliado, do mesmo partido e gestor da capital, onde se concentra cerca de 40% do eleitorado estadual, mas fez questão de afastar a ideia de dependência política ou eleitoral automática.
“Eu baseio a minha candidatura no Léo Moraes, que é um prefeito bem avaliado, porque está trabalhando bastante, que faz parte do meu partido e que é o prefeito da capital, onde está 40% dos votos”, declarou, acrescentando em seguida que isso não significa transferência de votos ou tutela política. “Não é que a minha campanha seja baseada no toque de Midas do Léo Moraes, ou que eu dependa dele para que ele bata nas minhas costas e fale: quem votou em mim, vote nele, igual eu”, disse, ao sustentar que a associação se dá, segundo ele, por afinidade de perfis, alinhamento partidário e busca de visibilidade, e não por subordinação da pré-candidatura à chancela pessoal do prefeito de Porto Velho.
Na parte final, já em tom de encerramento, Robson Oliveira pressionou para definir se a candidatura seria “para valer” e citou o prazo legal que, segundo ele, encerraria em 4 de junho para quem ocupa cargo como o de prefeito renunciar e disputar. Flori respondeu de forma afirmativa. “Sim, acontecerá”, disse, após declarar que, se o cenário se compuser, eles “têm coragem” e “vai acontecer”. O apresentador deixou um convite para uma nova entrevista após a renúncia, prometendo aprofundar propostas: “Aí sim… nós vamos conhecer quais são as propostas do futuro pré-candidato a governador de Rondônia.” Flori encerrou agradecendo e, em tom de descontração, convidou o entrevistador para um café em Vilhena, ao que Robson respondeu mencionando preferência por “uma tacinha de vinho”.
10 FRASES DE FLORI CORDEIRO DURANTE O RESENHA POLÍTICA:
01) “Máfia de branco. Máfia de empresário, de laboratório e de imagem. E alguns sindicatos de ladrões.”
Frase dita ao explicar por que, segundo ele, o modelo de organizações sociais na saúde não foi implantado em Rondônia, mesmo após ter sido autorizado por lei estadual aprovada em 2011.
02) “Essas três razões que se alimentam do caos e da desgraça humana.”
Declaração feita na mesma sequência, ao afirmar que interesses organizados teriam impedido a mudança no modelo de gestão da saúde pública no estado.
03) “Todos os estados brasileiros usam esse modelo. Todos. Menos Rondônia.”
Afirmação usada para sustentar que Rondônia estaria isolada nacionalmente ao não adotar a gestão por organizações sociais na saúde.
04) “Há 30 anos o Brasil reconheceu que a Constituição de 88 era falida para tratar a saúde.”
Frase utilizada para justificar a necessidade de modelos alternativos de gestão na área da saúde pública.
05) “Alguns sindicatos de ladrões. Alguns, não todos, obviamente.”
Reforço feito após ser questionado pelo apresentador sobre a generalização da crítica aos sindicatos.
06) “Nós temos duas grandes tragédias em andamento em Rondônia.”
Introdução direta ao diagnóstico que ele faz sobre a situação atual do estado, antes de listar saúde e segurança pública como os principais problemas.
07) “Já estamos no ponto em que, se não fosse essas três polícias aqui em Rondônia, nós já teríamos deixado de ser uma civilização pra entrar na barbárie.”
Declaração feita ao falar sobre o papel das forças de segurança e o cenário que, segundo ele, seria vivido sem a atuação delas.
08) “É tomada por organização criminosa. Tem PCC no meio, tem Comando Vermelho no meio.”
Frase dita ao comentar escândalos envolvendo organizações sociais em outros estados, reconhecendo casos de corrupção e infiltração criminosa.
09) “Eu determinava que a cascalheira fosse utilizada sem licença ambiental ou deixava as vias rurais fechadas para salvamento médico.”
Relato de um dilema vivido no início do mandato, ao falar sobre estradas rurais, licenciamento ambiental e serviços essenciais.
10) “Para mim é uma coisa dúbia. Foi um próprio tiro no pé.”
Comentário feito ao relatar que a prefeitura de Vilhena foi impedida de implementar a Lei Delegada para reforço do policiamento, enquanto modelo semelhante teria sido aceito depois em Porto Velho.



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