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DIREITOS HUMANOS

Leitura de autores pretos muda olhar em comunidade no interior baiano

Projeto de escola quilombola é esperança contra violência em Jequié

Por Agência Brasil
Publicada em 19/08/2023 às 10h08

As mãos que folheiam as páginas dos livros parecem segurar um espelho. Mas não é apenas um reflexo de si. As mãos e olhos adolescentes percorrem letras e palavras que descortinam imagens e janelas para o mundo. Com Samile, de 15 anos, foi assim. “A gente aprende sobre racismo estrutural, sobre a desigualdade social, sobre necropolítica. Quando eu descobri que este clube era de leitura de autores negros, tive uma expectativa ainda maior”, diz a menina leitora, moradora da comunidade quilombola Barro Preto, na cidade de Jequié (BA), a 370 quilômetros de Salvador.

Foi na escola estadual Milton Santos que nasceu o projeto escolar Clube de Leitura Preta. Coordenado pela professora Jéssika de Oliveira, de 32 anos, a iniciativa completou um ano de atividades no mês passado e é sucesso entre alunos do ensino fundamental da unidade de ensino, que fica na comunidade quilombola. “Uma das propostas do Clube da Leitura Preta no quilombo é enfrentar a evasão escolar”, afirma a professora.

Contra a violência

Ao passo que os adolescentes leem autores negros, tratando de temas que não são estranhos à vida dos alunos, há uma identificação e o ensino passa a ser mais transformador. Aliás, estar fora da escola e não ter perspectivas pode ser perigoso na cidade que foi considerada a mais violenta do Brasil no ano passado com uma média de 88,8 assassinatos a cada 100 mil habitantes. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste ano, mostra que a disputa do tráfico tem feito mais vítimas na região.  

Histórias de violência estão no noticiário e também cercam a realidade diariamente para esses adolescentes. “Perdemos vários alunos para a guerra às drogas. Então, o livro entrou para a vida deles como uma nova chance”. Não há como se manter indiferente às violências de todos os dias na região. Pelo contrário, o luto é sentimento rotineiro. “Sempre consigo me surpreender com a força dos meninos e das meninas do clube de leitura que, apesar de serem atravessados por diversas violências, conseguem se manter firmes e fortes com livros abertos”, testemunhou a professora.  

Contra o racismo

A professora Jéssika de Oliveira é negra e nasceu na cidade de Baixa Grande (BA), a 262 km de Salvador. A ideia do projeto, segundo afirma, nasceu com o desejo de promover discussões raciais na escola. “Embora haja uma Lei que fomente a obrigatoriedade do ensino da cultura afro nas escolas, enquanto educadora, sei também da ausência do letramento racial nos espaços”. A Lei 10.639 de 2003 determina que o ensino fundamental e médio trate de história e cultura afro-brasileira.

Mas a legislação ainda não foi capaz de mudar a realidade. “Vi muitas pessoas desistirem de seus sonhos. A partir do momento que entendemos o racismo como um problema estrutural que perpassa sobre toda a sociedade de forma velada e escancarada, é possível identificar a sua atuação de forma institucional nos espaços escolares”, diz a docente. Por isso, ela defende que é necessário ensinar as nuances do racismo para poder combatê-lo de forma eficaz. 

Turma empolgada

No ano passado, quando o projeto começou, o clube de leitura fez um concurso literário e recebeu 150 textos. Os pais ficaram curiosos e surpresos. Desde então, ficam orgulhosos de como as meninas e os meninos ficaram desenrolados para falarem do que os cerca. “Meu filho era muito mais introspectivo e tinha transtorno de ansiedade. A leitura mudou muito a vida dele. Passou a ter muito mais amigos e a relação com todos melhorou muito”, diz Milena Nascimento, de 38 anos, mãe de um adolescente de 15 anos. 

Ela diz que a conscientização sobre o que é ser periférico transformou também o seu desempenho na escola. Ela, que voltou aos estudos, e foi cursar uma faculdade de administração, com recursos do Prouni, está empolgada com a autonomia do filhão.

A aluna Samile diz que ficou maravilhada com o que leu nas obras do professor Silvio Almeida (atual ministro dos Direitos Humanos e de Cidadania) sobre o racismo estrutural ou da escritora Bianca Santana, no livro “Como eu me descobri negra”. “Esses livros todos foram importantes pra mim porque eu tive mudanças de pensamentos muito bons”. 

Uma colega, Maria, de 14, concorda que o espaço abriu portas e se sente lutando “por causas que são importantes para nossa sociedade”. Outra amiga, Clara, de 15, garante que o ambiente escolar passou a incentivar a pensar com inspiração de pessoas que ela não sabia que existia. “É uma oportunidade da gente descobrir vários horizontes, de descobrir várias formas de pensar de lutar contra a opressão.”

O professor e pesquisador de literatura Leonardo Barbosa, de 50 anos, que trabalha em Jequié, entende que o projeto garante a possibilidade dos alunos vislumbrarem as próprias vidas a partir dos textos literários debatidos. “O autorreconhecimento é o primeiro benefício de projetos como esse. Ao ler livros de autores como Carolina Maria de Jesus, de Conceição Evaristo, de Itamar Vieira Junior e de Jeferson Tenório fazem com que eles enxerguem a própria vida ali dentro.”

O encontro para o clube de leitura tem empolgado além da turma. A funcionária da secretaria da escola Paula da Hora, de 31 anos, faz questão de abrir os livros junto com os adolescentes. Ela foi aluna da escola, mas ler autores negros é uma novidade para ela. Tem se deliciado nas páginas de “Becos da Memória”, de Conceição Evaristo. A funcionária aprende as escrevivências da autora e lê em roda, juntos com os adolescentes, as páginas dos livros que promovem um olhar para fora da escola e para dentro de si mesmos. 

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