O caso de Neidinha Suruí tornou-se um dos episódios mais emblemáticos das eleições de Rondônia. Neidinha denunciou sofrer violência política de gênero e pressões relacionadas à sua candidatura. O Ministério Público Eleitoral abriu apuração preliminar para verificar a possível ocorrência de violência política de gênero envolvendo os atos partidários tomados.
Ao ter sua candidatura anulada, Neidinha denunciou a violência sofrida, afirmando que não aceitaria ser silenciada. A caracterização jurídica é dada pelos tribunais, mas a dissolução do diretório estadual e anulação da candidatura produz um debate social e político que vai muito além da candidata Neidinha Suruí postulando-se ao Senado Federal.
Algumas perguntas precisam ser feitas. Uma mulher pode discordar da direção de um partido sem que sua voz seja deslegitimada? Uma mulher indígena pode disputar um espaço de poder sem precisar aceitar que outros decidam, por ela, qual deve ser o limite da sua atuação política? Uma candidata pode defender suas convicções — ambientais, sociais ou partidárias — sem que isso se transforme em mecanismo para afastá-la da disputa?
São perguntas que dizem respeito não apenas a Neidinha, mas a todas as mulheres que pretendem entrar na política.
A baixa representatividade das mulheres na política partidária ocorre devido a vários fatores. Para a doutora em Direito Constitucional pela Universidade de São Paulo, Luciana Oliveira Ramos, deve-se a aspectos estruturais da sociedade brasileira, como a mulher ser responsável pelos trabalhos do cuidado doméstico representado uma dupla ou tripla jornada, e à violência política de gênero. Em 2026, as mulheres são 52% do eleitorado em Rondônia e no Brasil, porém o número de candidaturas de mulheres não ultrapassou os 35% e, em Rondônia, teve uma redução de 33% nesta eleição.
Importante destacar que a violência política contra mulheres não acontece somente quando existe uma ameaça ou agressão física. Também pode ocorrer na tentativa de impedir uma candidatura, descredibilizar uma mulher, constrangê-la, isolá-la, retirar sua autonomia política ou criar obstáculos para que exerça plenamente seus direitos políticos.
É justamente por isso que a legislação brasileira passou a tratar especificamente da violência política contra a mulher. O Senado aprovou, em 2021, legislação destinada à prevenção, repressão e combate à violência política contra a mulher nos espaços e atividades relacionados ao exercício de seus direitos políticos e funções públicas. A presença das mulheres na política, de acordo com estudo do Instituto Esfera divulgado em agosto deste ano, garante maior diversidade de leis, ou seja, possibilita resoluções mais abrangentes e inclusivas para os problemas sociais.
A política decide sobre saúde, educação, segurança, meio ambiente, agricultura, infraestrutura, direitos trabalhistas, proteção das crianças, combate à violência e distribuição de recursos públicos. Se mais da metade do eleitorado é formada por mulheres, não faz sentido que continuem ocupando uma parcela tão pequena dos espaços onde essas decisões são tomadas.
Mulheres indígenas, negras, quilombolas, agricultoras, trabalhadoras, mães, profissionais liberais e lideranças comunitárias carregam experiências que muitas vezes não estão presentes nas estruturas tradicionais de poder.
A presença dessas mulheres muda a agenda política. Nestas eleições, o TSE registrou 191 candidaturas indígenas em todo o país, equivalentes a 0,93% do total considerado para a destinação dos recursos eleitorais. Nesse contexto, a candidatura de Neidinha Suruí representa também a presença de uma liderança indígena e ambientalista em uma disputa historicamente dominada por homens. Sua trajetória política não começou nas urnas, vem de décadas de atuação em defesa dos povos indígenas, da floresta e dos direitos humanos, inclusive enfrentando ameaças relacionadas à sua atuação indigenista.
A democracia precisa de mulheres que não aceitem o silêncio.
Os números mostram uma realidade contraditória
O Brasil tem maioria feminina no eleitorado, mas menos de quatro em cada dez candidaturas são de mulheres. Rondônia tem 40% de mulheres na disputa pelo Senado, mas nenhuma mulher na pelo Governo.
O país registra recorde de participação feminina nas candidaturas gerais, mas continua entre os últimos colocados do mundo em representação parlamentar. Por isso, a discussão sobre mulheres na política não pode terminar na frase "é preciso aumentar a participação feminina".
É preciso perguntar o que acontece com as mulheres depois que elas decidem participar. Rondônia não possui senadoras mulheres, apenas 25% das cadeiras na Câmara Federal são ocupadas por mulheres e 21% na estadual.
É preciso saber quem recebe recursos, quem tem espaço nos partidos, quem consegue chegar às convenções, quem tem voz nas decisões internas, quem é respeitada quando discorda e quem consegue permanecer na disputa quando enfrenta estruturas tradicionais de poder.
O caso de Neidinha Suruí coloca essa discussão no centro da eleição de Rondônia. A democracia não pode exigir que uma mulher seja silenciosa para que possa participar dela. Mulheres precisam estar na política porque são cidadãs, porque são maioria do eleitorado e porque têm o mesmo direito de disputar o poder.
E, quando uma mulher precisa enfrentar ameaças, constrangimentos ou estruturas destinadas a fazê-la recuar simplesmente para continuar ocupando seu espaço político, a sociedade inteira precisa olhar para o problema.
Porque não se trata apenas de uma mulher tentando chegar ao poder.
Trata-se do direito de todas as mulheres de disputar o poder sem medo, sem serem constrangidas ou adoecidas para ali estarem.


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