PORTO VELHO, RO - Os seis candidatos ao Governo de Rondônia alternaram propostas, cobranças sobre experiências administrativas e confrontos diretos no debate promovido pela Rede Amazônica na noite de terça-feira, 29 de setembro, em Porto Velho. Hildon Chaves, do União Brasil; Expedito Netto, do PT; Pedro Abib, do MDB; Samuel Costa, do PSB; Adaílton Fúria, do PSD; e Marcos Rogério, do PL, discutiram temas como saúde, educação, segurança pública, infraestrutura, saneamento, industrialização, regularização fundiária e preservação ambiental.
O encontro foi realizado pela Rede Amazônica, por meio da TV Rondônia, afiliada da Globo no estado, com mediação do jornalista Júlio Mosquéra. O formato teve quatro blocos. O primeiro e o terceiro foram destinados a temas livres, enquanto o segundo e o quarto trabalharam assuntos definidos por sorteio. Cada candidato pôde fazer uma pergunta e responder uma vez em cada bloco.
As diferenças começaram a aparecer tanto na escolha dos adversários quanto na forma de responder. Hildon recorreu repetidamente aos resultados que atribuiu aos dois mandatos à frente da Prefeitura de Porto Velho. Expedito procurou vincular propostas estaduais à participação do governo federal. Pedro Abib sustentou um discurso de ruptura com grupos políticos tradicionais. Samuel Costa adotou críticas à estrutura administrativa e às forças políticas que considera responsáveis pelos problemas do estado. Fúria apresentou sua experiência em Cacoal como principal credencial. Marcos Rogério concentrou parte importante das falas na reorganização do orçamento e na estrutura do governo estadual.
Na educação, Expedito escolheu Hildon e abriu a pergunta mencionando declarações que atribuiu a políticos de direita. O candidato do União Brasil evitou permanecer no terreno ideológico e levou a discussão para sua passagem pela Prefeitura de Porto Velho.
“Quando nós assumimos, uma tragédia educacional estava na nossa cidade”, afirmou.
Hildon disse que, quando assumiu, apenas 30 de cada 100 crianças na idade adequada estavam alfabetizadas e declarou que o índice chegou a 95 de cada 100 ao final de sua administração.
Expedito insistiu no componente político da pergunta. Hildon voltou a apresentar ações administrativas e mencionou a Faculdade da Prefeitura, programa que, segundo ele, atendeu estudantes oriundos da escola pública e famílias com renda de até três salários mínimos. Disse que pretende levar experiência semelhante ao âmbito estadual.
Os dois voltaram a se encontrar em uma discussão sobre saúde. Hildon perguntou quais seriam as propostas de Expedito para o setor. O candidato do PT defendeu a interiorização do atendimento, mencionou Cacoal, Vilhena e Guajará-Mirim e criticou sucessivos anúncios de novas unidades hospitalares.
Expedito também aproveitou a resposta para destacar investimentos federais. “Eu só não vi os candidatos falando que esse crédito para fazer asfalto é do governo federal”, afirmou em meio à discussão. Depois mencionou recursos e obras que atribuiu ao governo Lula.
Hildon respondeu lembrando obras que encontrou paralisadas quando assumiu Porto Velho e disse ter atuado, junto à Frente Nacional de Prefeitos, na mudança de regras para possibilitar a retomada de empreendimentos. Citou ainda a entrega de 1.200 apartamentos que, segundo ele, estavam paralisados havia mais de 15 anos.
Pedro Abib utilizou vários momentos para marcar distância em relação aos adversários com trajetória política mais longa. Questionado por Marcos Rogério sobre segurança pública, afirmou que ampliaria o efetivo e daria prioridade à valorização dos servidores, à inteligência e à integração das forças.
“Nós vamos efetivamente contratar mais servidores para a segurança pública”, disse.
Abib afirmou, porém, que o Estado precisaria primeiro reorganizar as contas. Segundo sua proposta, 2027 seria usado para “arrumar a casa” e criar condições para a abertura de concurso público em 2028. Também defendeu Patrulha Maria da Penha e delegacias funcionando durante 24 horas.
Marcos Rogério respondeu com números sobre efetivo. Disse que a Polícia Civil trabalha com 27% de sua força, mencionou dificuldades também na Polícia Científica e na Polícia Militar e afirmou que Rondônia está há mais de dez anos sem concurso para soldados da PM.
O candidato do PL apresentou como saída o corte de despesas que considera desnecessárias.
“O que nós vamos fazer é abrir espaço fiscal”, afirmou.
Marcos mencionou diárias, viagens, contratos duplicados e contratos improdutivos entre os gastos que pretende rever para ampliar a capacidade de contratação do Estado. “Nós precisamos de mais policiais nas ruas pra garantir segurança pública de verdade”, disse.
Na sequência daquele confronto, Abib deslocou a discussão para as condições das campanhas.
“Acontece que o abuso do poder econômico, ele asfixia o propósito na política”, declarou.
O candidato afirmou não possuir o mesmo tempo de televisão de alguns adversários nem as mesmas condições de deslocamento.
“Vocês viajam cinco, seis municípios em um dia, de helicóptero e de avião. Eu, eu vou pelo chão.”
Abib concluiu afirmando não ter “nenhum grupo político por trás” nem “nenhuma família poderosa” e citou Fúria ao dizer não possuir “nenhum político de estimação”.
A industrialização colocou Pedro Abib e Hildon em outro diálogo. Abib defendeu maior processamento dos produtos de Rondônia antes da comercialização.
“Chega de vender a soja barata, como um produto, uma commodity, e comprar depois o óleo pronto, o porco já criado e vindo de um frigorífico”, afirmou.
Ele aplicou o mesmo raciocínio ao cacau e ao café e apontou ciência, tecnologia, inovação e educação profissionalizante como pilares para ampliar a industrialização.
Hildon afirmou concordar “em grau, gênero e número” com parte das ponderações, mas aproveitou a resposta para fazer uma crítica mais ampla ao ambiente eleitoral.
“Realmente, em momentos eleitorais, alguns candidatos prometem absolutamente tudo.”
Abib respondeu mais adiante falando em “continuismos” e dizendo que dois ex-prefeitos representariam a continuidade da atual administração estadual. Defendeu uma ruptura com aquilo que classificou como “velha política”.
Samuel Costa e Hildon tiveram um dos confrontos mais objetivos na discussão sobre saneamento básico. Samuel cobrou o ex-prefeito pela situação de água e esgoto em Porto Velho depois de dois mandatos.
Hildon reconheceu o problema.
“É uma tragédia que uma cidade centenária não tenha resolvido essa questão tão importante que é a água e esgoto”, declarou.
O candidato disse que sua administração iniciou uma tentativa de parceria público-privada e afirmou que o problema terá de ser enfrentado pelo próximo governador não apenas na capital, mas também no restante do estado.
Samuel apresentou uma alternativa diferente. Defendeu o fortalecimento da Caerd, a realização de concurso público e rejeitou entregar o serviço à iniciativa privada.
“Porque o filé e a picanha, a iniciativa privada vai querer, e a carne de pescoço, o alto, médio e baixo madeira, os distritos, os mais de 100 distritos que nós temos no estado de Rondônia”, afirmou.
Samuel disse ainda que os indicadores sociais representam “um tapa na cara do nosso povo”.
Hildon respondeu que a solução somente para Porto Velho exigiria aproximadamente R$ 2,5 bilhões e defendeu a participação de parceiros. Também lançou uma crítica geral às promessas apresentadas no debate.
“Hoje, neste evento, todo mundo tem solução para absolutamente tudo.”
Adaílton Fúria entrou em confrontos mais diretos quando a discussão passou por estradas, regularização fundiária e meio ambiente.
No bloco sobre rodovias estaduais, Fúria perguntou a Hildon quais estradas pretendia pavimentar nos primeiros anos de uma eventual administração. O candidato do União Brasil respondeu comparando as experiências municipais.
“Candidato, de estrada eu entendo bem mais do que o senhor até pelo tamanho territorial do seu município.”
Em seguida, acrescentou: “Especialmente, o senhor entende bem de rejeito de asfalto, enfim.”
“O senhor colocou esse rejeito lá no sítio do seu pai”, afirmou Hildon naquela ocasião.
Fúria negou a acusação, disse que o caso havia sido arquivado pelo Tribunal de Justiça e respondeu: “Ele é uma pessoa, ele tem um CPF, eu tenho outro. Você tem que trazê-lo aqui e fazer o debate com ele”.
No debate da Rede Amazônica, Hildon não detalhou novamente a acusação. Passou a comparar os resultados das administrações e afirmou ter executado 820 quilômetros de asfalto em Porto Velho.
Fúria respondeu citando a própria experiência em Cacoal. Disse ter pavimentado mais de 230 ruas e avenidas, com obras de drenagem, e apresentou uma relação de trechos rodoviários que pretende atacar caso seja eleito.
Hildon voltou à carga na tréplica.
“Candidato, papel aceita tudo, promessa é típica nesses momentos eleitorais.”
Depois afirmou: “Mas o senhor não deu conta de fazer nem pelo menos 40% do que se esperava em termos de asfaltamento no seu município.”
Outro embate envolvendo Fúria ocorreu com Pedro Abib, desta vez no tema conflito no campo. Abib citou números atribuídos à Comissão Pastoral da Terra e perguntou como o adversário pretendia enfrentar a violência e os problemas relacionados à posse e à propriedade.
Fúria respondeu lembrando demarcações realizadas durante o governo de Confúcio Moura e ressaltou que o ex-governador pertence ao MDB, partido de Abib.
Abib rebateu vinculando o adversário ao atual governo.
“Candidato, a verdade é que o senhor é o continuismo do atual governo.”
Depois acrescentou: “O senhor se aproveitou desse governo por toda a campanha eleitoral e pré-campanha.”
O candidato do MDB afirmou que a falta de regularização contribui para os conflitos e defendeu documentação, assistência técnica, infraestrutura, estradas e segurança para o produtor.
Fúria também teve uma troca direta com Marcos Rogério sobre regularização fundiária. O candidato do PSD perguntou o que o senador faria para levar ao Estado competências hoje concentradas em Brasília.
Marcos afirmou que pretende trazer para Rondônia áreas nas quais seja possível realizar a regularização, criar uma estrutura estadual e acelerar a emissão de títulos.
Fúria então cobrou o histórico do adversário no Congresso.
“Candidato, você tá aí em Brasília há 16 anos. Você sabe os caminhos.”
Na sequência, questionou por que o problema ainda não havia sido solucionado.
“Rapaz, é difícil acreditar que o senhor vai resolver agora como governador.”
Fúria também criticou a atuação dos órgãos estaduais: “O Estado só quer punir. O Estado só quer ferrar o produtor.”
Marcos Rogério devolveu a cobrança.
“O candidato do atual governador é você. Você é candidato do partido do governador.”
O candidato do PL argumentou que justamente o Executivo estadual possui condições de assumir protagonismo no processo e repetiu sua proposta de criar estrutura própria para regularização.
Os dois também divergiram sobre a utilização de uma linha de crédito de R$ 1 bilhão para infraestrutura.
Fúria defendeu que R$ 400 milhões sejam destinados à compra de maquinário, aquisição de usinas de asfalto e reestruturação do DER, deixando o restante para pavimentação.
Marcos Rogério discordou. Segundo ele, o financiamento deveria permanecer direcionado às obras, enquanto os equipamentos precisariam ser adquiridos com outra fonte de recursos.
“Esse recurso é pra infraestrutura. Pra comprar equipamentos, a gente tem que buscar o recurso em outra fonte”, afirmou.
Samuel Costa também escolheu Fúria em uma pergunta sobre segurança pública. Falou sobre facções criminosas e perguntou quais medidas seriam adotadas para combater a violência.
Fúria começou a resposta atribuindo parte do problema à legislação federal.
“A primeira coisa é trocando os senadores. Você tem que trocar os senadores da República.”
Depois defendeu concurso para a Polícia Militar, valorização dos servidores e gratificações para integrantes das forças de segurança.
O confronto com Expedito Netto surgiu no bloco sobre preservação ambiental. O petista perguntou como Fúria conciliaria desenvolvimento e proteção ambiental.
O candidato do PSD iniciou a resposta falando de sua trajetória pessoal. Contou que chegou a Porto Velho 28 anos antes para morar na casa do avô, falou da esposa e dos filhos e disse que Rondônia teria um governador simples e trabalhador.
Expedito aproveitou a réplica para cobrar a pergunta original.
“Candidato, esse não era o tempo das considerações finais. Eu fiz uma pergunta.”
Em seguida, afirmou: “Toda hora que faz uma pergunta técnica pra você, toda hora que faz uma pergunta que é difícil de se responder, nada contra a sua história, muito bonita, igual de vários rondonienses, igual de vários brasileiros, mas eu te perguntei, afirmei que o Ibama e que a Sedan também cometem excessos.”
Expedito defendeu investimentos em tecnologia para a agricultura familiar e industrialização da produção primária.
Fúria reagiu atacando a consistência da proposta do petista.
“Candidato, você não tem propostas, você não tem nada, você tem vontade, e de vontade eu acredito que todos aqui têm.”
Depois defendeu que determinadas atribuições ambientais e fundiárias sejam transferidas para o Estado.
Ao longo do debate, Marcos Rogério procurou sustentar a ideia de reorganização da máquina pública para financiar políticas de saúde, segurança e infraestrutura. Em diferentes respostas, afirmou que o problema de Rondônia não estaria necessariamente na falta de recursos, mas na definição de prioridades.
Em uma das falas, disse que pretende “abrir a caixa preta dos contratos” e rever gastos para direcionar dinheiro a exames, consultas, cirurgias, estradas e serviços públicos.
Em outro momento, Expedito Netto cobrou Marcos Rogério sobre uma transação envolvendo um cheque e dinheiro em espécie, usando o episódio para questioná-lo no tema corrupção. Marcos respondeu de pronto que não havia irregularidade, afirmou que a operação estava declarada no Imposto de Renda, constava na recuperação judicial do devedor e sustentou que não se tratava de dinheiro ilegal. Também acusou Expedito de insistir em insinuações para desviar o debate dos problemas do estado.
Na regularização fundiária, apresentou a titulação como instrumento para ampliar acesso a crédito e dar segurança ao produtor. Na infraestrutura, citou rodovias e corredores logísticos que pretende pavimentar, entre eles ligações envolvendo União Bandeirantes, Buritis, Nova Mamoré, Alto Paraíso e outras regiões.
Samuel Costa, além dos confrontos sobre saneamento e segurança, fez críticas ao orçamento e ao desempenho da administração estadual. Em uma pergunta de Pedro Abib, ouviu do candidato do MDB uma cobrança sobre como um orçamento de aproximadamente R$ 19 bilhões convivia com indicadores sociais apresentados como ruins.
Samuel respondeu fazendo uma reflexão sobre gestão e criticou o modelo de administração pública. Ao longo do debate, procurou se apresentar como alternativa aos grupos políticos tradicionais e defendeu políticas públicas executadas diretamente pelo Estado.
As considerações finais reduziram o nível de confronto.
Expedito Netto dirigiu-se a diferentes grupos religiosos e defendeu um ambiente de paz e educação.
Pedro Abib convidou os eleitores a continuarem a discussão em uma transmissão por sua rede social. “Eu estou pronto, preparado, me qualifiquei”, declarou.
Samuel Costa mencionou decisões da Justiça Eleitoral relacionadas à própria candidatura e afirmou que “oligarquias políticas, capitanias hereditárias e sociedade de castas” haviam tentado retirá-lo da disputa.
Fúria agradeceu a Cacoal e afirmou que pretende governar sem distinção ideológica.
“Nós vamos governar pra direita, nós vamos governar pra esquerda, nós vamos governa pra quem não gosta de política.”
Hildon voltou a destacar os dois mandatos à frente da capital.
“Eu sei fazer, eu sei o que precisa ser feito”, afirmou.
Marcos Rogério encerrou lembrando que percorreu os 52 municípios e disse que pretende governar em conjunto com prefeitos, senadores e a bancada federal.
Ao final, os seis candidatos deixaram o debate depois de aproximadamente quatro blocos marcados por combinações distintas de propostas, comparação de históricos administrativos e ataques diretos. Em vez de um único confronto dominar toda a noite, as divergências se espalharam por temas diferentes e colocaram frente a frente candidatos com experiências, alianças e propostas distintas para a administração estadual.


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