PORTO VELHO, RO - Há uma diferença enorme entre reconhecer uma limitação e transformar essa limitação em identidade política. Hildon Chaves atravessou boa parte de sua trajetória eleitoral construindo exatamente o oposto da imagem que sua campanha parece disposta a projetar agora. Em 2016, apareceu como outsider, entrou em uma disputa difícil pela Prefeitura de Porto Velho e cresceu eleitoralmente até derrotar Léo Moraes no segundo turno. Quatro anos depois, submetido ao julgamento das urnas como prefeito, voltou ao segundo turno e venceu Cristiane Lopes. Nos dois episódios, uma de suas principais armas era evidente: Hildon falava bem, raciocinava rapidamente, demonstrava preparo e parecia confortável quando colocado sob pressão.
Não era apenas uma característica acessória. A retórica fazia parte do personagem político que o próprio Hildon construiu. Ele conseguia responder de pronto, devolver provocações, formular frases de efeito e transmitir a impressão de domínio da situação. Produziu respostas que permaneceram associadas às campanhas das quais participou. Em 2016, uma delas ganhou repercussão quando afirmou que conseguia “reconhecer um bandido em dois minutos de conversa”. Gostando-se ou não do conteúdo ou do estilo, havia ali uma característica objetiva: o candidato sabia utilizar confronto, improviso e velocidade verbal como instrumentos políticos.
É justamente por isso que causa estranheza a estratégia adotada agora, depois de desempenhos considerados abaixo do esperado nos primeiros debates da campanha ao Governo de Rondônia. Em entrevista ao jornalista Juan Pantoja, no podcast do site Eu Ideal, Hildon reconheceu o problema. Falou de dificuldades de concentração, episódios de esquecimento, idade e possíveis efeitos decorrentes das sucessivas vezes em que afirma ter contraído Covid-19.
Nada existe de inadequado em reconhecer isso. Muito pelo contrário. Uma pessoa que enfrenta qualquer problema relacionado à saúde deve se cuidar, buscar tratamento, preservar-se quando necessário e lidar com suas próprias limitações de maneira responsável. Essa constatação deveria estar fora de qualquer disputa eleitoral. Saúde não deve servir de instrumento para desumanizar adversários, e dificuldades pessoais não deveriam ser convertidas automaticamente em munição política.
Até aqui, inclusive, essa vulnerabilidade jamais havia sido explorada pelo Rondônia Dinâmica em termos opinativos desfavoráveis a Hildon Chaves. Houve respeito pela condição relatada pelo candidato, como deveria haver. E esse respeito permanece. A crítica não está dirigida à possibilidade de existirem consequências relacionadas à Covid, à idade ou a qualquer outro fator pessoal mencionado pelo ex-prefeito. O problema está em outra parte: na decisão política de transformar essas dificuldades em explicação central para uma performance eleitoral insatisfatória e, pior, incorporá-las à construção pública do candidato.
É uma escolha ruim porque não combina com Hildon.
O homem que disputou e venceu duas eleições municipais em Porto Velho não foi apresentado aos eleitores como alguém que precisava ser compreendido por suas limitações. Foi apresentado como alguém preparado para enfrentar problemas. Essa é uma diferença fundamental. Hildon construiu capital político justamente como administrador, como homem de decisão, como figura que atravessou o exercício do poder e depois conseguiu convencer a maioria dos eleitores da Capital a lhe conceder um segundo mandato. Isso não transforma sua gestão em objeto imune a críticas, evidentemente, mas estabelece um dado político incontornável: trata-se de alguém comprovadamente testado na administração pública e nas urnas.
Também não se trata de um candidato sem experiência tentando explicar por que ainda não encontrou ritmo numa campanha majoritária. Hildon chegou a 2026 carregando dois mandatos conquistados diretamente pelo voto, experiência administrativa e a memória de campanhas nas quais a hesitação parecia estar muito mais do outro lado da mesa. Era ele quem normalmente colocava o adversário na defensiva. Era ele quem construía respostas rápidas. Era ele quem conseguia produzir frases destruidoras no calor de uma contenda eleitoral.
Essa imagem tem valor.
E talvez seja exatamente esse valor que esteja sendo desperdiçado.
Na entrevista, ao responder à observação de que já não apresentava o mesmo perfil combativo de 2016, Hildon procurou contextualizar a mudança. “Eu sou o tiozão desta campanha. Só que estou muito mais preparado agora do que antes”, declarou. A segunda frase é politicamente muito mais poderosa do que a primeira. Ela contém o caminho natural de uma campanha baseada na biografia que Hildon possui: talvez esteja mais velho, talvez tenha mudado o estilo, talvez não seja exatamente o mesmo candidato de dez anos atrás, mas passou por experiências que não tinha em 2016 e sustenta estar hoje muito mais preparado para governar.
Esse deveria ser o eixo.
O problema surge quando o restante da narrativa começa a deslocar a atenção do preparo para a fragilidade. Hildon afirmou ter contraído Covid-19 entre quatro e cinco vezes e relacionou seus episódios de esquecimento e dificuldade de concentração a possíveis consequências da doença. “Há relatos de muitas pessoas que sofreram sequelas, como falta de concentração e esquecimento”, afirmou.
O dado apresentado pela própria assessoria dá sustentação à existência do fenômeno. Segundo o texto encaminhado pela campanha, boletim do Ministério da Saúde baseado na Pnad Contínua aponta que 3,87 milhões de brasileiros com condições pós-Covid relataram problemas de memória ou atenção, equivalentes a 28% desse grupo. O problema, portanto, não está em admitir que tais sintomas existem ou que Hildon acredita poder ter sido atingido por eles.
A questão é eleitoral.
Uma campanha ao Governo não existe para produzir compreensão sobre por que o candidato teve dificuldades em um debate. Existe para convencer o eleitor de que esse candidato está preparado para comandar o Estado. Quando a explicação para uma atuação ruim passa a ocupar mais espaço do que a demonstração de força necessária para superar essa atuação, a estratégia começa a produzir o efeito contrário daquele que provavelmente pretendia alcançar.
Eleitor não procura um candidato para sentir pena dele.
Procura alguém em quem possa confiar.
Quer imaginar quem estará diante de uma dificuldade administrativa, de uma crise, de uma decisão complexa ou de uma circunstância adversa e perguntar a si mesmo se aquela pessoa conseguirá assumir a responsabilidade. Uma candidatura ao Governo precisa transmitir capacidade, segurança, equilíbrio e disposição. Não perfeição. Não invulnerabilidade. Mas capacidade de atravessar a dificuldade.
Hildon possui uma história política muito mais compatível com essa imagem do que com a figura errante que agora corre o risco de ser construída em torno dele.
O próprio candidato oferece a resposta correta quando diz estar “muito mais preparado agora do que antes”. É nisso que uma campanha deveria insistir. O eleitor conhece o ex-prefeito de Porto Velho. Conhece alguém que já administrou a maior cidade do Estado, que se submeteu às urnas depois de exercer o poder e conseguiu renovar o mandato, que venceu duas campanhas consecutivas e que entrou na eleição estadual ainda como um postulante competitivo justamente porque possui trajetória suficiente para ser levado a sério.
Uma eleição não exige que Hildon seja a reprodução exata do homem de 2016. Dez anos se passaram. A questão é saber como transformar essa passagem do tempo em autoridade política, e não em justificativa eleitoral.
Há ainda outro problema na opção adotada. Quando o próprio candidato anuncia que pretende comparecer apenas a parte dos debates e afirma que entrará nesses encontros de forma mais relaxada, a mensagem precisa ser extremamente bem trabalhada para não parecer desistência antecipada de uma arena em que anteriormente se destacava. Hildon explicou sua decisão dizendo que dividirá a agenda entre debates e presença nas ruas. Também declarou: “Desta vez, nós vamos de forma mais relaxada. Se esquecer, esqueceu. A população sabe das minhas entregas e que sou o mais preparado para governar Rondônia”.
A frase contém confiança quando fala das entregas e do preparo. Mas contém também um perigoso conformismo quando sugere que, se esquecer, esqueceu.
Não deveria ser essa a postura projetada.
Se houve um desempenho ruim, o caminho eleitoralmente mais forte é preparar-se melhor para o próximo. Se houve dificuldade de concentração, é legítimo encontrar os meios adequados para enfrentá-la. Se existe necessidade de preservar a saúde, é correto fazê-lo. Nenhuma dessas alternativas exige transformar o candidato em vítima das próprias circunstâncias.
Até porque Hildon Chaves não construiu sua carreira dessa maneira.
A característica que o tornou particularmente perigoso eleitoralmente era outra. Ele entrava no ambiente sabendo que poderia ser provocado e parecia gostar disso. Conseguia transformar perguntas difíceis em oportunidade, reagia rapidamente e frequentemente obrigava o adversário a reorganizar a própria estratégia depois de uma resposta. Era um “tubarão” da retórica não porque necessariamente tivesse sempre razão, mas porque compreendia a disputa verbal e sabia utilizá-la.
Desfazer essa imagem voluntariamente é um erro crasso.
Ainda mais quando o candidato possui instrumentos para reconstruí-la. Hildon não precisa provar que nunca falhou. Precisa demonstrar que continua capaz. Não precisa fingir que não envelheceu. Precisa mostrar o que ganhou em experiência. Não precisa negar que possa sofrer efeitos das sucessivas infecções que relatou. Precisa impedir que essa condição passe a definir publicamente sua candidatura.
Existe dignidade em reconhecer vulnerabilidades. Existe humanidade em falar delas. Mas campanhas majoritárias não sobrevivem apenas de humanidade. Elas dependem de uma síntese clara sobre poder, comando e confiança.
É aí que a mudança de rumo se torna particularmente triste. Hildon Chaves possui currículo político suficiente para ser julgado por aquilo que fez, pelo que defende, pelo que pretende fazer e pela capacidade administrativa que afirma possuir. Tem uma história eleitoral que lhe permite disputar o Governo sem pedir qualquer condescendência. Pode perder uma eleição, pode perder um debate, pode errar uma resposta e pode atravessar uma fase ruim sem que nada disso obrigue sua equipe a convertê-lo em personagem fragilizado.
O pior destino possível para uma campanha com um candidato desse perfil é ensinar o eleitor a enxergá-lo como alguém de quem se deve ter pena.
Hildon não precisa disso.
A campanha deveria recuperar o homem que enfrentava adversários, respondia rápido, conhecia suas armas e transmitia disposição para suportar pressão. Não se trata de exigir dele a mesma performance física ou verbal de dez anos atrás. Trata-se de preservar aquilo que sua própria trajetória comprovou: ele é um político experiente, administrativamente testado e eleitoralmente competitivo.
Transformar tudo isso em uma narrativa de dificuldade, esquecimento e justificativas é reduzir voluntariamente um candidato que sempre funcionou melhor quando parecia maior do que as circunstâncias.
E talvez seja esse o aspecto mais lamentável da escolha. Depois de duas vitórias municipais, anos de administração e uma trajetória construída sobre preparo e enfrentamento, Hildon Chaves chegou à disputa pelo Governo com uma biografia que lhe permitia reivindicar força. Fazer dessa mesma candidatura uma tentativa de sensibilizar o eleitor por suas fragilidades não apenas desperdiça patrimônio político. Contradiz o próprio personagem público que ele passou uma década construindo.
Se essa estratégia permanecer, a campanha poderá pagar um preço alto por um erro que ela mesma criou. Não porque Hildon tenha envelhecido, esquecido uma resposta ou relatado possíveis consequências da Covid. Mas porque decidiu apresentar como fraqueza aquilo que deveria responder com experiência.
Não precisava ser assim.


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