SUSTO
Hoje pela manhã, este cabeça chata trafegava pela avenida Calama, sentido centro, quando foi surpreendido por uma cena digna de filme de ficção científica.
Uma tropa numerosa, uniformizada com camisetas camufladas e calças verdes, corria de um lado para outro nos cruzamentos. O traje lembrava uma mistura de farda militar com equipamento de missão espacial. Faltavam apenas o capacete, o foguete e a contagem regressiva.
BARULHO
Por alguns segundos, imaginei que o governo tivesse decretado toque de recolher e colocado alguma força especial nas ruas para enfrentar a bandidagem que anda mais organizada que muita repartição pública. Reduzi a marcha. Parei a viatura. Observei melhor. O susto passou. Não era operação militar. Não era força-tarefa. Não era intervenção de emergência. Era a tropa do coronel Crisóstomo em plena operação eleitoral, distribuindo santinhos e fazendo um bandeiraço daqueles capazes de acordar até eleitor que ainda não decidiu se vai votar ou viajar.
TRAPALHÕES
A guerra, afinal, era outra. Não havia inimigo a ser neutralizado, apenas eleitor a ser capturado. O problema é que essa tropa parece atrapalhar mais o trânsito do que arrumar votos. E fica a pergunta que ninguém parece disposto a responder: alguém realmente acredita que muda voto ou conquista eleitor expondo tanta gente ao relento, no calor, em meio a um trânsito já caótico justamente na hora do rush?
MALUCOS
Até hoje não entendo muito bem para que servem esses exércitos de esquina, senão para estreitar as vias, sujar as ruas de papel e produzir um barulho capaz de fazer o cidadão reconsiderar até a própria decisão de sair de casa. Talvez seja uma nova modalidade de marketing eleitoral: quanto mais bandeira, santinho e buzina, maior a convicção de que o eleitor precisa ser convencido. Uma maluquice.
CURIOSIDADE
Na Calama, pelo menos, a democracia estava em movimento. Correndo, aliás.
Não cheguei a verificar se havia familiares do deputado coronel integrando a tropa. Seria apenas mais uma curiosidade da manhã, considerando as recorrentes críticas feitas à sua atuação política e as acusações públicas sobre a presença supostamente de familiares e parentes em espaços da administração. Fica, portanto, a pergunta no ar, porque até em campanha eleitoral há certas tropas que despertam mais curiosidade pelo efetivo do que pelo resultado.
IRRITANDO
Este cabeça chata aprendeu mais uma lição: em ano de eleição, antes de procurar uma ocorrência policial, é melhor verificar se não se trata apenas de uma ocorrência eleitoral. Porque, em Rondônia, até o bandeiraço já parece operação especial. Só falta descobrirem que, às vezes, para conquistar o eleitor, o primeiro passo é simplesmente deixar o cidadão chegar ao trabalho. Irrita este tipo de campanhas nos sinais de trânsito.
CACETE
Nenhum candidato a governador tem apanhado tanto quanto Adailton Fúria. E há um velho brocardo popular que explica parte da aritmética eleitoral: ninguém bate em cachorro morto. Na política, quem incomoda começa a apanhar antes mesmo de saber por quê. À medida que a campanha afunila, a tendência é que as pancadas aumentem.
DUELO
São apenas duas vagas para o segundo turno e, embora todos neguem diante dos microfones, existe uma percepção subterrânea nos comitês de que o adversário a ser derrotado na etapa seguinte é Marcos Rogério. Por isso, Fúria e Hildon sonham em chegar ao duelo final com o senador. Em bora o senador não seja uma presa a ser devorada sem resistência. Ledo engano.
ATIVOS
Mas a eleição ainda está longe de entregar seu veredicto. Há três candidaturas competitivas, cada uma carregando uma vantagem diferente. Fúria tem duas administrações municipais bem avaliadas e demonstra força no interior. Hildon também traz o patrimônio político de duas passagens pela prefeitura e tenta reencontrar a desenvoltura que exibiu em campanhas anteriores. Marcos Rogério tem o Senado, o gogó treinado para a política e a marca do bolsonarismo, que continua sendo um ativo eleitoral importante.
PRECIPITADOS
Fazer aposta definitiva agora é precipitação. Pesquisa é fotografia, e fotografia eleitoral costuma envelhecer mais depressa que promessa de candidato. Muda conforme os ventos, os debates, os ataques, os erros e, sobretudo, conforme o eleitor resolve finalmente sair da arquibancada.
TROPEÇO
E esse talvez seja o maior problema dos comitês: a campanha estadual ainda não contaminou a maioria do eleitorado. Existe muita gente observando, comparando e esperando. Não embarcou. Não se apaixonou. Não comprou passagem para nenhum dos três barcos. Isso explica a ansiedade dos marqueteiros. Quando há eleitor demais olhando de fora, qualquer tropeço pode virar avalanche e qualquer acerto pode produzir uma onda.
PERFIL
Fúria, por enquanto, tem mostrado uma qualidade que não aparece em pesquisa: resiliência. Apanha, responde, segue andando e parece ter encontrado no interior um território mais receptivo do que seus adversários gostariam. Hildon procura recuperar o candidato desenvolto que já foi, enquanto Marcos Rogério tenta abandonar a imagem mais insossa que carregou durante parte da trajetória e aparece mais propositivo. O perfil de gestor terminará prevalecendo. Quem viver verá.
PATRIMÔNIO
Há ainda uma curiosidade nessa fotografia. Hildon é, sem dúvida, o único candidato a governador que pode ser chamado de rico sem precisar pedir licença ao patrimônio. Fúria tem a imagem de homem de classe média e Marcos Rogério, curiosamente, carrega aos olhos de muita gente a aparência de quem vive melhor do que vive. Na política, até a impressão de riqueza disputa voto.
PANCADA
Por enquanto, portanto, não há favorito autorizado a dormir tranquilo. Há três candidatos de pé, um eleitorado ainda desconfiado e uma eleição aberta como porta de boteco em noite de sábado. E quando ninguém sabe ainda quem vai entrar e quem vai sair, o cachorro que está levando mais pancada talvez seja justamente aquele que alguns já descobriram que não está morto.
BARROU
A Justiça Eleitoral de Rondônia resolveu criar uma dessas situações que parecem saídas de uma ficção burocrática: Bruno Scheid pode fazer campanha usando “Bolsonaro”, mas não poderá aparecer na urna como Bruno Bolsonaro Scheid. O TRE-RO deferiu a candidatura ao Senado, mas barrou o sobrenome do ex-presidente no nome de urna. A justificativa é que Bruno não seria notoriamente conhecido por Bolsonaro entre os eleitores rondonienses. Como era pouco conhecido na política, a exposiçao do nome com Bolsonaro terminou o projetando nas bolhas. E isto o TRE não tem como barrar.
CONFUSÃO
A ironia é que o mesmo tribunal havia decidido, dias antes, que ele poderia continuar utilizando a referência a Bolsonaro em sua campanha e que a imprensa poderia identificá-lo dessa maneira. Ou seja: na televisão pode; no palanque pode; na notícia pode; na urna, não. Aliás, é espuma todo debate jurídico sobre o uso do nome com anuência do dono.
IDENTIDADE
Jair Bolsonaro chegou a autorizar formalmente Bruno Scheid a utilizar o sobrenome na campanha. Mas autorização particular não tem força para reescrever a legislação eleitoral nem para transformar sobrenome emprestado em identidade eleitoral. A decisão estabelece uma fronteira curiosa. O “Bolsonaro” pode ajudar a apresentar o candidato ao eleitor, mas não poderá estar escrito na tela que registra o voto. No Rio Grande do Norte o candidato Kadu do Lula subiu nas pesquisas para governador exatamente em razão do sobrenome.
EFEITO
É a Justiça Eleitoral dizendo, em linguagem própria: pode usar a grife, mas não pode colocar a grife na embalagem oficial. Bruno continuará sendo Bruno Scheid na urna. Mas no eleitor bolsonarista o candidato já conseguiu ser identificado. O sobrenome Bolsonaro, pelo menos por enquanto, terá de fazer campanha do lado de fora dela.


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