PORTO VELHO, RO - Há quatro meses, quando Adaílton Fúria sentou-se diante das câmeras do RD Entrevista, o cenário político que o cercava ainda era muito diferente daquele encontrado em setembro. Na conversa publicada em 25 de maio de 2026, o então pré-candidato ao Governo de Rondônia pelo PSD foi questionado diretamente sobre Expedito Netto (ex-PSD, atual PT) e Expedito Júnior. Com o filho, apresentou uma ruptura clara. Com o pai, adotou uma convivência protocolar.
A diferença entre as duas respostas é reveladora.
Ao falar de Expedito Netto, Fúria não economizou palavras. Relatou o episódio envolvendo a candidatura de sua esposa, Joliane Fúria, à Câmara dos Deputados, disse que Netto teria se incomodado com o crescimento eleitoral dela e afirmou que, dali em diante, os dois deixaram de se falar. “A partir dali eu nunca mais falei com o Netto. Ele não mandou recurso para a campanha, não mandou nada. Ele simplesmente trancou tudo, travou tudo”, declarou.
Quando a pergunta migrou para Expedito Júnior, o tom mudou completamente. Não houve rompimento declarado, mas também não apareceu qualquer esforço para transformar o ex-senador em personagem importante de sua trajetória política. “Não tem problema nenhum com o Expedito Júnior. Nada, zero. Um cara, inclusive, até muito bacana de se conversar com ele. [...] E a gente não tem problema nenhum, não. Na verdade, eu não tenho problema com ninguém.”
Era cordialidade protocolar, não celebração de uma sociedade política. A formulação preservava Expedito Júnior, mas o mantinha a uma distância segura. Não houve naquela passagem elogio à construção conjunta da candidatura, anúncio de parceria duradoura ou demonstração de dependência política. O que existiu foi uma espécie de tolerância convencional: não havia problema, a relação existia, e isso bastava. A entrevista deixou explícito o rompimento com Expedito Netto e preservou o pai fora da zona de confronto.
Quatro meses depois, a fotografia é outra.
O primeiro movimento relevante dessa linha do tempo ocorreu dentro da própria campanha. João Kaleche deixou o comando do marketing de Fúria. A demissão foi confirmada em reportagem publicada em 5 de setembro, que descreveu uma crise no núcleo da candidatura e relacionou o episódio a outros conflitos internos. Três dias depois, o próprio Kaleche apresentou sua versão e fez críticas públicas à maneira como o candidato conduzia a campanha. O rompimento profissional, portanto, não ficou restrito aos bastidores: converteu-se em confronto público sobre decisões, responsabilidades e método de comando.
A saída do marqueteiro poderia ser tratada como um episódio isolado caso o restante da estrutura política permanecesse intacto. Não permaneceu.
Paralelamente, a relação com o governador Marcos Rocha entrou em deterioração. Aqui é necessário separar o fato da interpretação. Não há, até agora, uma declaração formal de Fúria dizendo: “rompi com Marcos Rocha”. Também não apareceu um pronunciamento oficial do governador anunciando o fim da aliança. O que existe é uma sucessão de sinais públicos e relatos de bastidores sobre um afastamento cada vez maior. Reportagem de 5 de setembro informou que Rocha, presidente estadual do PSD, já demonstrava insatisfação com a condução da candidatura, enquanto Fúria vinha se apresentando como alternativa ao próprio modelo administrativo do governo que inicialmente participara de sua sustentação política.
Esse distanciamento já vinha sendo construído anteriormente. Em abril, Fúria reconheceu o apoio do governador, mas fez questão de marcar território ao afirmar que o fato de Rocha apoiá-lo não significava que teria de dar continuidade ao que considerasse inadequado na administração estadual. O racha, portanto, não nasceu em setembro. Setembro apenas transformou diferenças políticas anteriores em uma crise mais visível. O levantamento cronológico registra exatamente essa evolução: primeiro o distanciamento programático, depois o agravamento do conflito, sem que tenha existido uma cerimônia pública de rompimento.
É nesse ponto que a estratégia de Fúria começa a adquirir contornos mais definidos. A candidatura procura apresentar autonomia em relação ao governo Rocha, mas essa autonomia tem um custo político mensurável. Um candidato ao Governo não disputa apenas com sua imagem, seu número e seu programa. Ao redor de uma candidatura majoritária existe uma rede formada por direção partidária, candidatos proporcionais, prefeitos, lideranças locais, militantes, equipes de comunicação, ocupantes de funções políticas e grupos que, em maior ou menor grau, ajudam a capilarizar a campanha.
A sucessão dos fatos indica que essa rede sofreu perdas.
No próprio PSD, o conflito em torno dos recursos eleitorais trouxe outra fissura. Júnior Lopes tornou pública sua insatisfação depois de receber R$ 100 mil do fundo eleitoral, enquanto Joliane Fúria recebeu R$ 1,5 milhão. O candidato acusou Fúria e Expedito Júnior de “traição” e, em 16 de setembro, apareceu ao lado de Hildon Chaves, declarando apoio ao candidato adversário ao Governo. Não se tratou mais de rumor sobre insatisfação interna, mas de um integrante do mesmo partido deslocando seu apoio para outra candidatura majoritária.
Adilson Honorato tornou a fratura ainda mais evidente. Também candidato a deputado federal pelo PSD, recebeu R$ 100 mil da direção nacional e anunciou sua saída da disputa, acompanhada de críticas à distribuição dos recursos partidários. “Querem subestimar minha inteligência”, afirmou ao manifestar sua insatisfação. Reportagens publicadas em 15 e 16 de setembro relacionaram a decisão à expectativa frustrada de novos repasses e à diferença entre os valores destinados às candidaturas proporcionais da legenda.
É nesse ambiente que surge o fato politicamente mais relevante desta sequência: o relato de que servidores comissionados e integrantes da estrutura política ligada ao Governo teriam sido informalmente liberados para apoiar quem desejassem.
A informação foi levada a público pelo jornalista Rubens Coutinho. Segundo ele, milhares de servidores comissionados formariam, quando considerados seus círculos de familiares, parentes, amigos e pessoas diretamente interessadas na manutenção dessas posições, um contingente eleitoral expressivo.
Coutinho sustenta que esse grupo antes estaria politicamente comprometido com a candidatura de Fúria e agora teria recebido liberdade para migrar para outras campanhas.
O próprio jornalista fez uma distinção importante ao tratar do assunto. Falou de uma orientação política informal, característica dos bastidores de campanha. Segundo sua descrição, integrantes dessa estrutura poderiam apoiar Hildon Chaves ou Marcos Rogério, enquanto a candidatura de Fúria deixaria de funcionar como destino preferencial daquele aparato político.
A informação que circula nos bastidores é de que servidores comissionados e integrantes da estrutura política do Governo deixaram de ter compromisso com a candidatura de Adaílton Fúria e passaram a ter liberdade para apoiar outros nomes. Não se trata de anúncio oficial do Palácio, mas de movimentação política relatada por Rubens Coutinho e confirmada nos bastidores. Se esse contingente efetivamente deixar de operar em favor de Fúria, o impacto não será apenas simbólico: significa perder justamente uma das estruturas de capilaridade que poderiam ser decisivas numa disputa estadual.
Coutinho resumiu a dimensão do problema ao dizer que, quando a questão sai da especulação e alcança a possibilidade de um “exército de comissionados” votar e trabalhar politicamente em outras direções, o quadro já se transforma em crise.
Essa é a peça que conecta os acontecimentos anteriores.
Primeiro, Fúria se distancia de Expedito Netto e mantém Expedito Júnior em terreno isolado, ao estilo: "ele está ali, mas bem longe". Depois, demite o marqueteiro. Em seguida, aumenta o afastamento em relação ao governador que participava da sustentação de seu projeto. Ao mesmo tempo, surgem reclamações entre candidatos proporcionais. Um deles abandona a disputa. Outro atravessa a fronteira partidária e passa a apoiar Hildon. Finalmente, aparece o relato de que a própria militância vinculada à estrutura governamental deixou de receber qualquer expectativa de fidelidade à candidatura do PSD.
Não é necessário atribuir essa sequência a um traço psicológico de Fúria para identificar um padrão político. O que existe objetivamente é uma candidatura cada vez mais concentrada em seu próprio núcleo e menos amparada pela composição que ajudou a construí-la.
Até Ivo Cassol, um dos ídolos políticos de Fúria, e personagem conhecido pelo estilo personalista e pela frase “cada um responde pelo seu CPF”, registrou publicamente outra máxima ao reorganizar seu partido em 2024: “ninguém é bom sozinho”. A primeira expressão aparece inclusive em pronunciamentos oficiais de Cassol no Senado; a segunda foi usada pelo ex-governador ao falar sobre construção partidária e articulação nos municípios.
As duas frases, colocadas lado a lado, resumem uma tensão elementar da política. Responsabilidade pode ser individual. Poder, raramente.
Fúria parece apostar numa candidatura em que sua própria identidade seja mais importante do que a herança do Governo Marcos Rocha, do que a influência de Expedito Júnior, do que a orientação do marqueteiro ou do que a acomodação de todos os interesses existentes dentro do PSD. Essa opção pode ser compreendida como tentativa de autonomia política. Também produz uma consequência objetiva: quanto mais atores deixam o entorno, maior passa a ser a dependência do candidato em relação ao seu círculo imediato.
O “furiocentrismo”, nesse contexto, pode servir como metáfora para uma campanha que vai progressivamente se fechando em torno do próprio candidato e de seu grupo mais próximo. Não como diagnóstico de personalidade, mas como descrição de uma arquitetura política, eviscerando intenções personalistas de poder. O problema não está em Fúria querer governar com sua própria identidade. Todo candidato reivindica algum grau de independência. O problema começa quando independência e isolamento passam a ocupar espaços muito próximos.
É por isso que o relato de Rubens Coutinho pesa mais do que uma simples fofoca eleitoral. Se os comissionados, militantes e operadores ligados ao Governo realmente deixaram de ser orientados politicamente em direção a Fúria, o candidato perdeu uma camada importante da estrutura que originalmente circundava sua campanha. Se não houve orientação organizada e o fenômeno estiver ocorrendo apenas por decisões individuais, permanece outro dado: as dissidências já se tornaram públicas em quantidade suficiente para demonstrar uma erosão nas relações internas.
Não há necessidade de antecipar o que isso produzirá nas urnas. Há, contudo, uma constatação possível antes delas: a candidatura de Adaílton Fúria chega à reta final mais concentrada em si mesma do que estava quatro meses atrás. O caminho entre maio e setembro foi marcado pela ruptura com Expedito Netto, pela relação protocolar com Expedito Júnior, pelo conflito com o marqueteiro, pelo afastamento progressivo de Marcos Rocha, pela crise envolvendo candidatos do PSD e agora pelo relato de que a estrutura governamental deixou de ter Fúria como destino obrigatório de sua mobilização política.
O debate sobre personalidade pode esperar. A matemática das alianças já está posta. E ela mostra que, na política, cada rompimento diminui o número de mãos disponíveis para sustentar um projeto coletivo.


Comentários
Seja o primeiro a comentar!