PORTO VELHO, RO - Adaílton Fúria entrou no debate entre os candidatos ao Governo de Rondônia, promovido pela REMA TV e mediado pelo jornalista Cleidson Silva, carregando consigo uma das características mais constantes de sua apresentação pública: o sorriso. A contenda retórica ocorreu na noite da última terça-feira, 01. Não se tratava apenas de uma expressão facial. Era parte da embalagem política construída em torno de uma candidatura que procurava projetar leveza, proximidade e confiança enquanto o ex-prefeito reeleito de Cacoal apresentava sua experiência administrativa como credencial para governar Rondônia.
Em determinado ponto da noite, porém, o sorriso desapareceu.
Samuel Costa cavou a armadilha com paciência. Em vez de atacar diretamente aquilo que Fúria apresentava como seu maior patrimônio, a gestão de Cacoal, passou a explorar uma fragilidade política mais difícil de responder: a relação do candidato do PSD com o governador Marcos Rocha e com Expedito Júnior. A questão não era simplesmente saber quem apoiava quem. Samuel insistiu em uma pergunta incômoda para uma candidatura que tenta representar mudança enquanto recebe o apoio do grupo instalado no Governo de Rondônia: até onde Fúria carregaria consigo os aliados que ajudaram a construir sua candidatura?
O primeiro cerco veio ainda no início do debate. Samuel lembrou que Expedito Júnior havia anunciado Fúria como candidato antes da composição que posteriormente reuniu o ex-prefeito de Cacoal e a base governista. Mencionou também que Expedito e Marcos Rocha haviam sido antagonistas em 2018 e agora estavam no mesmo campo político. A pergunta desembocou no espaço que Expedito teria em uma eventual administração de Fúria.
Fúria respondeu que Expedito Júnior não teria espaço algum em seu governo. Foi além: afirmou que o próprio Marcos Rocha também não teria. Reconheceu o governador como apoiador de sua candidatura, mas procurou delimitar uma fronteira entre receber apoio político e entregar influência administrativa. A resposta poderia ter encerrado o assunto. Não encerrou. Ao considerar a pergunta sem relevância e sugerir que Samuel pudesse estar sendo pago por alguém, Fúria abandonou por alguns instantes o terreno administrativo em que demonstrava maior conforto e entrou exatamente no campo pessoal em que o adversário parecia querer encontrá-lo.
Samuel percebeu a brecha. Na réplica, devolveu a suspeita sobre dinheiro, afirmou possuir patrimônio superior ao de Fúria e retomou o problema político central: se Marcos Rocha e Expedito Júnior eram aliados, por que o candidato fazia tanto esforço para mantê-los fora da fotografia de um eventual governo? Em seguida, acusou Fúria de “apunhalar” e de “trair” Marcos Rocha e lançou ainda uma acusação de uso da máquina e de suposto assédio a servidores comissionados para participação em atos de campanha. Eram acusações de Samuel Costa no debate, não fatos demonstrados naquele momento pela discussão. Politicamente, porém, cumpriam a função pretendida: obrigavam Fúria a responder à narrativa do adversário em vez de conduzir a própria.
A questão reapareceu muito mais tarde, e Samuel apertou o mesmo parafuso. Perguntou qual secretaria Fúria mudaria integralmente e afirmou que o candidato “se esconde” do governo que o apoia. Acrescentou uma imagem feita sob medida para televisão: segundo ele, enquanto Fúria evitava assumir politicamente Marcos Rocha, a Casa Militar estava na recepção da REMA TV fazendo sua segurança. A provocação consistia em dizer que o candidato aceitava as conveniências do governo, mas recusava seu passivo.
Fúria reagiu dizendo que Samuel parecia ter algum “problema espiritual” com o governador. Reconheceu que havia muita coisa que dera certo na atual administração e também muito a melhorar. Passou pela segurança, pela saúde, pela educação, pela valorização dos servidores, pela própria origem humilde e pela experiência na pandemia em Cacoal. Era uma tentativa de ampliar novamente o quadro, sair de Marcos Rocha e voltar para Fúria.
Samuel não deixou.
Na réplica, tratou o adversário como nervoso, comparou-o a um “Pikachu, todo brabinho”, pediu calma e voltou justamente aos nomes dos quais Fúria tentava escapar: Marcos Rocha e Expedito Júnior. Disse que quem é parceiro deve ser parceiro e insistiu que o candidato não poderia se esconder dos aliados. A provocação tinha algo de infantil na forma, mas era cirúrgica no objetivo. Em televisão, a frase serve quando a câmera ajuda. E, naquele momento, ajudou a marcar a mudança. O sorriso convencional de Fúria cedeu lugar a uma expressão sisuda. O candidato que até então parecia confortável passou a aparentar incômodo, e a fisionomia mais fechada o acompanhou pelo restante do debate.
Fúria ainda reagiria de maneira mais dura. Ao responder à acusação de que servidores estariam sendo coagidos a balançar bandeiras, orientou qualquer servidor nessa situação a denunciar ao Ministério Público. Depois atacou Samuel no plano pessoal, questionando novamente se ele estaria recebendo dinheiro de alguém e dizendo que, pelo que havia ouvido sobre seu histórico, isso provavelmente ocorria em anos eleitorais. A fala levou Samuel a pedir direito de resposta.
A banca julgadora da Ordem dos Advogados concedeu esse direito. Samuel voltou ao púlpito e produziu outro momento de desgaste. Disse que Fúria não deveria medi-lo pela própria régua, rebateu a insinuação financeira e virou a discussão contra a gestão de Cacoal, afirmando que o candidato deveria explicar operações policiais ocorridas durante sua administração e citando Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE), além de abordar “Draco 1 e Draco 2”. A menção não demonstrava, por si, qualquer responsabilidade de Fúria em irregularidade alguma. No terreno político, entretanto, colocava o ex-prefeito diante de um assunto que ele não havia levado ao debate e que passava a ser associado verbalmente à sua gestão.
Samuel conseguiu, portanto, aquilo que parecia buscar desde o começo. Não precisava derrotar Fúria em números, programas ou promessas. Bastava retirá-lo do personagem que estava mais confortável em interpretar. O candidato do PSD foi obrigado a falar sobre padrinhos políticos, a reagir a provocações, a especular sobre dinheiro recebido pelo adversário e a assistir ao adversário obter direito de resposta. A armadilha não estava apenas nas perguntas. Estava na possibilidade de fazer Fúria responder de forma diferente daquela que provavelmente escolheria se pudesse controlar o roteiro.
Ainda assim, aquele não foi o pior momento da noite.
O episódio mais prejudicial ocorreu em outro confronto e teve menos humor, menos provocação e uma consequência muito mais objetiva.
Ao formular uma pergunta a Pedro Abib, Fúria aproveitou parte do tempo para atacar Marcos Rogério. Pediu à equipe de redes sociais que publicasse o que chamou de extrato dos R$ 14 milhões que o senador teria destinado para a construção de um museu em Brasília. Repetiu o número. Disse que se tratava de uma emenda individual. Comparou o valor ao preço do saco de cimento e argumentou que Marcos Rogério poderia ter sido justo com Rondônia e construído o museu no próprio estado.
Era uma acusação simples, visual e fácil de compreender. Quatorze milhões de reais. Um museu em Brasília. Um senador de Rondônia. Dinheiro que, segundo a construção retórica de Fúria, poderia ter permanecido no estado. Poucos argumentos funcionam tão bem em debate quanto aqueles que cabem em uma frase.
O problema apareceu depois do intervalo.
A assessoria de Marcos Rogério pediu direito de resposta. A banca julgadora da Ordem dos Advogados de Rondônia concedeu um minuto. Fúria, então, já não controlava o enquadramento que havia criado. Restava assistir.
Marcos Rogério iniciou classificando a acusação como desinformação e fake news. Disse não ser a primeira vez e afirmou que a Justiça já havia retirado fake news publicadas pelo adversário durante a campanha. Em seguida veio o ponto que atingia o centro da afirmação feita por Fúria: segundo Marcos Rogério, sua emenda fora de R$ 500 mil, e não de R$ 14 milhões. O restante teria vindo de um conjunto de deputados e senadores de todo o Brasil para a construção do Museu da Bíblia no Distrito Federal, a pedido da Sociedade Bíblica do Brasil.
O direito de resposta prosseguiu sem que Fúria pudesse interromper ou reconstruir naquele instante a acusação que havia apresentado. Marcos Rogério abandonou então o tema do museu e voltou a falar sobre Rondônia, dizendo que pretendia destravar o estado e criticando problemas na gestão, na saúde, na segurança e nas obras públicas. Quando o minuto terminou, o debate simplesmente passou para o bloco seguinte.
Foi aí que a noite de Fúria azedou de verdade.
No duelo com Samuel Costa, havia margem para dizer que se tratava de provocação, confronto de estilos e guerra verbal. Samuel buscava irritá-lo e Fúria aceitou o convite. Contra Marcos Rogério, a situação era diferente. Fúria havia escolhido o terreno, apresentado o número, transformado os R$ 14 milhões em peça de acusação e solicitado inclusive que sua própria equipe divulgasse o suposto extrato nas redes sociais. Depois, diante das câmeras, viu o adversário receber da banca um direito de resposta e apresentar uma versão factual frontalmente incompatível com o principal número usado no ataque.
Naquele minuto, pouco importava quem sorria.
Fúria havia construído uma acusação em torno de R$ 14 milhões e Marcos Rogério respondeu dizendo que a emenda individual fora de R$ 500 mil. O candidato do PSD foi obrigado a permanecer diante do argumento que havia criado enquanto o adversário o desmontava peça por peça, sem que houvesse naquele momento uma nova resposta sua registrada na sequência do confronto. Para quem acompanha um debate como disputa de comunicação, foi a imagem mais difícil da noite para Fúria: não a de um candidato nervoso diante de Samuel Costa, mas a de um candidato vendo, ao vivo, seu principal argumento retórico naquele embate ser esfacelado diante dele. Marcos Rogério conseguiu algo pior: tirou de Fúria, naquele instante, o controle da história que ele próprio havia decidido contar.
Fúria entrou no debate com a missão de incomodar Marcos Rogério, ainda líder nas pesquisas. Na **Quaest, por exemplo, empataram tecnicamente no 1º turno, mas o antigo alcaide da Capital do Café é superado com folga na etapa seguinte do pleito, por 40% a 29%. Ainda assim, resvalou numa arapuca retórica banal: permitiu que os lábios comprimidos pela tensão eclipsassem os dentes expressivos insculpidos à arcada sorridente e, para piorar, lançou uma acusação que não conseguiu sustentar, tendo de suportar a lição de moral justamente de quem deveria destronar; no fim, a noite foi dele, mas não como gostaria — foi a noite em que o ex-prefeito perdeu o sorriso.
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**A Quaest ouviu 804 pessoas de 16 anos ou mais entre os dias 21 e 24 de agosto de 2026. A margem de erro é de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi registrado no TSE com os números RO-05711/2026 e BR-00490/2026.


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