PORTO VELHO, RO - Há uma regra elementar em debate eleitoral: se você pretende acusar o adversário com base em números, confira os números.
Adailton Fúria não fez isso — ou sua equipe não fez por ele.
No debate de terça-feira, o candidato do PSD atribuiu a Marcos Rogério uma emenda de R$ 14 milhões para, supostamente, construir um museu em Brasília, durante a pandemia.
A cifra tinha tudo para produzir o efeito desejado: milhões enviados para fora de Rondônia enquanto o país enfrentava a Covid.
Só havia um problema.
Não eram R$ 14 milhões.
A participação de Marcos Rogério foi de aproximadamente R$ 483 mil, e, como revelou-se em seguida, para o Museu da Bíblia. Os R$ 14,1 milhões correspondiam ao conjunto de emendas destinadas ao projeto por diferentes parlamentares.
Não é exatamente um erro de arredondamento.
Fúria poderia ter questionado os R$ 483 mil. Poderia discutir prioridade orçamentária. Poderia dizer que destinaria o recurso a outra finalidade.
Mas escolheu os R$ 14 milhões.
E o ataque atravessou Marcos Rogério.
O senador conseguiu responder, corrigiu o valor e saiu praticamente incólume do episódio. O problema político acabou escorrendo para outro lado: ainda que sem essa intenção, Fúria colocou no centro da crítica uma obra de forte simbolismo para o segmento evangélico.
Foi aí que o erro deixou de ser apenas numérico.
Representantes evangélicos reagiram, contestaram a informação e defenderam a destinação dos recursos. Na prática, uma provocação dirigida a Marcos Rogério acabou atingindo também, ainda que lateralmente, um símbolo caro a uma parcela expressiva do eleitorado.
Especialmente em Rondônia.
Mais de 41% da população do Estado se declara evangélica. Evidentemente, esse eleitorado não vota como bloco homogêneo — seria uma simplificação grosseira. Mas também seria ingenuidade imaginar que uma campanha para governador possa criar gratuitamente esse tipo de ruído e seguir adiante como se nada tivesse acontecido.
A questão, portanto, já não é apenas o Museu da Bíblia.
É a gafe dos R$ 14 milhões.
E ela encontrou uma campanha em momento particularmente sensível.
O jornalista Rubens Coutinho, do Tudo Rondônia, afirmou que Fúria havia demitido seu marqueteiro e reproduziu a versão corrente nos bastidores de que a mudança teria relação com o debate. Coutinho também fez uma crítica direta ao comportamento do candidato, a quem descreveu como “generalista e autossuficiente”, e resumiu uma regra simples para esse tipo de confronto: “nunca faça uma pergunta para a qual você já não saiba a resposta”.
Já a coluna Falando Sério, de Herbert Lins, no Rondônia Dinâmica, revelou que João Kaleche deixou o comando do marketing da campanha e que Fúria passou a assumir pessoalmente parte da condução de sua comunicação.
Kaleche negou que a saída tenha ocorrido especificamente por causa do desempenho no debate ou da controvérsia dos R$ 14 milhões.
Essa ressalva importa.
Não há elemento público suficiente para afirmar que a gafe provocou a demissão.
Mas o timing chama atenção.
A mudança no marketing ocorre poucos dias depois de um erro que ganhou repercussão e expôs falhas justamente em uma área que deveria funcionar como filtro antes de uma informação chegar à boca do candidato.
Mais do que isso, o relato atribuído ao ex-marqueteiro aponta para um problema maior.
Herbert Lins enxergou na saída de Kaleche um problema de estilo. Para o colunista, Fúria tenta ser, ao mesmo tempo, candidato, marqueteiro e estrategista — uma centralização que torna difícil o trabalho de quem deveria cuidar profissionalmente da campanha.
É aí que episódios separados começam a conversar entre si.
Rubens Coutinho fala em autossuficiência.
Herbert Lins relata centralização.
Kaleche, segundo a coluna, descreveu um candidato que tenta ocupar também espaços normalmente reservados à equipe.
Nenhuma dessas avaliações, isoladamente, define a personalidade de Fúria.
Mas juntas ajudam a formar uma percepção política sobre sua maneira de conduzir a campanha.
E o próprio debate oferece um exemplo.
Uma estrutura profissional existe justamente para evitar que um candidato leve ao palco uma informação vulnerável. Pesquisa, checagem e preparação servem para impedir que uma provocação se transforme em armadilha para quem a formulou.
Foi o que aconteceu.
O número estava errado.
Marcos Rogério tinha uma resposta simples.
E o tema escolhido carregava um peso religioso muito maior do que aparentemente foi considerado.
Há ainda outra tensão rondando a candidatura.
Fúria vem tentando construir distância do governador Marcos Rocha, embora ambos estejam no PSD e sua candidatura tenha ligação direta com o grupo atualmente no poder.
Segundo a coluna de Herbert Lins, Kaleche considerava equivocada essa estratégia de afastamento.
Há uma razão eleitoral compreensível para Fúria buscar identidade própria: todo candidato quer parecer protagonista de seu projeto.
O problema é que precisa fazer isso sem transformar o governo do próprio partido em um fardo que precise ser negado.
É uma ginástica complicada.
Ao mesmo tempo, disputa com Marcos Rogério um eleitorado fortemente conservador e sensível a pautas religiosas.
Nesse ambiente, comprar uma briga baseada em um número errado justamente em torno do Museu da Bíblia parece menos estratégia do que descuido.
A eleição está apertada. Fúria segue competitivo. Não há razão para transformar uma gafe em sentença sobre sua candidatura.
Mas campanhas costumam revelar seus problemas nas pequenas coisas.
E a dos R$ 14 milhões revelou pelo menos três: falha de pesquisa, erro de cálculo político e dificuldade na escolha do alvo.
A saída do marqueteiro acrescentou uma quarta questão: a concentração das decisões.
Fúria queria criar uma crise para Marcos Rogério.
O senador saiu praticamente inteiro.
Quem acabou entrando involuntariamente na linha de fogo foi o eixo evangélico e uma obra de forte simbolismo religioso.
E talvez aí esteja o ponto mais incômodo de toda a história: o adversário superou o ataque.
O erro ficou com Fúria.


Comentários
Seja o primeiro a comentar!