Vinte e nove anos depois de sua morte, o jornalista continua fazendo falta a uma imprensa que muitas vezes trocou a personalidade pela prudência, a controvérsia pelo consenso e a palavra afiada pelo conforto do lugar-comum.
*“Às vezes acho que aguentei tanto tempo viver no Brasil porque estava em estado etílico na maior parte do tempo.” — Paulo Francis*
Em *4 de fevereiro de 1997, morria em Nova York, aos 66 anos, Paulo Francis. Em 2026, portanto, já se passaram **29 anos* desde que o coração daquele jornalista que parecia disposto a brigar com o mundo decidiu interromper a discussão. A morte foi causada por um infarto. À época, seu médico afirmou que a forte tensão nervosa enfrentada pelo jornalista nas semanas anteriores teria contribuído para o ataque cardíaco. ([Folha de S.Paulo][1])
Francis nasceu no Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 1930, como *Franz Paul Trannin da Matta Heilborn. Foi crítico teatral, jornalista político, escritor, comentarista de televisão e, sobretudo, polemista. Passou pelo *Diário Carioca, Última Hora, O Pasquim, Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo. Na televisão, tornou-se um dos rostos e das vozes mais reconhecíveis do jornalismo brasileiro e, a partir de 1993, integrou o Manhattan Connection. ([Wikipédia][2])
Mas enumerar os jornais pelos quais Francis passou é insuficiente para explicar Francis.
*Paulo Francis não cabia no currículo. Cabia na controvérsia.*
E talvez seja exatamente por isso que continue fazendo falta.
## O jornalista que não escrevia para ser perdoado
Francis pertencia a uma espécie que parece cada vez mais rara: o jornalista cuja assinatura podia ser reconhecida antes mesmo de se chegar ao fim do primeiro parágrafo.
Você poderia concordar com ele.
Poderia discordar violentamente.
Poderia sentir vontade de fechar o jornal.
Mas dificilmente passaria indiferente.
Sua escrita possuía aquilo que nenhuma faculdade de comunicação consegue conceder por diploma: *voz*.
Durante a ditadura, esteve ligado à imprensa de oposição e ao universo de O Pasquim. Ao longo da vida, suas posições políticas mudaram profundamente. Foi homem de esquerda, trotskista em determinada fase, crítico do regime militar e, posteriormente, tornou-se crítico feroz da própria esquerda e defensor de posições liberais e conservadoras. Essa trajetória fez com que fosse sucessivamente atacado por campos ideológicos distintos. ([Folha de S.Paulo][3])
Francis parecia alimentar-se disso.
Não procurava unanimidades porque desconfiava delas.
E havia nele uma característica que talvez explique sua permanência: *Francis pensava escrevendo e escrevia atacando*.
Algumas vezes acertava o alvo.
Outras vezes acertava pessoas que não mereciam o golpe.
E houve ocasiões em que errou de maneira indefensável.
## Gregório de Matos sentado numa redação
Se fosse necessário encontrar na literatura brasileira um antepassado espiritual de Paulo Francis, eu procuraria Gregório de Matos.
O *Boca do Inferno* compreenderia Francis.
Gregório andava pela Bahia colonial usando o verso como punhal. Francis caminhava por Nova York transformando a máquina de escrever — e depois a televisão — em arma semelhante.
Mudaram os séculos.
Mudaram os personagens.
Mudaram as cidades.
*Não mudou a língua.*
Gregório feria com o poema.
Francis feria com a coluna.
Ambos desconfiavam solenemente das reputações estabelecidas. Ambos pareciam sentir especial prazer diante de uma estátua esperando por alguém que lhe apontasse as rachaduras.
Francis sabia falar mal.
E isso, compreenda-se, não significa apenas insultar.
Falar mal com talento exige uma inteligência particular: perceber a contradição, encontrar a palavra capaz de resumi-la e transformá-la numa frase da qual o atingido dificilmente conseguirá fugir.
Era nisso que Francis frequentemente se tornava devastador.
Quando gostava, podia ser generoso.
Quando não gostava, transformava a língua portuguesa numa navalha.
E, como Gregório, algumas vezes ultrapassava a sátira e chegava à crueldade.
A diferença entre independência e irresponsabilidade é uma fronteira estreita. Francis atravessou-a algumas vezes — e pagou por isso.
No período em que foi crítico teatral, seus ataques pessoais provocaram reações violentas. O próprio Paulo Autran recordaria publicamente seus desentendimentos com Francis. O episódio envolvendo críticas ofensivas dirigidas a Tônia Carrero terminou também em confrontos físicos. ([Folha de S.Paulo][4])
Não se deve transformar esses excessos em virtudes.
Mas também seria intelectualmente desonesto utilizar seus erros para apagar o jornalista.
Francis podia ser injusto.
Podia ser arrogante.
Podia ser preconceituoso.
Podia escrever monumentais besteiras.
*Mas jamais foi insípido.*
## E então aparece Padre Antônio Vieira
Gregório explica a lâmina.
Mas não explica tudo.
Para compreender a estrutura intelectual de Francis é preciso convocar outro mestre da língua portuguesa.
*Padre Antônio Vieira.*
Vieira compreenderia imediatamente aquele homem.
Talvez discordasse de quase tudo que Francis dissesse, mas reconheceria o método: apresentar uma ideia, cercá-la por argumentos, antecipar a objeção, construir a antítese e então atacar.
Francis possuía algo do sermão.
Não porque pregasse.
Justamente porque fazia o contrário.
Ele provocava.
Mas havia em seus melhores textos a mesma compreensão fundamental que encontramos no grande orador barroco: *uma palavra bem colocada pode valer mais que uma página inteira de explicações*.
Vieira subia ao púlpito.
Francis ocupava a página do jornal.
Vieira perguntava para convencer.
Francis afirmava para provocar.
Vieira construía a arquitetura da persuasão.
Francis preferia instalar dinamite no edifício.
Um queria converter o ouvinte.
O outro parecia satisfeito simplesmente em impedir que o leitor dormisse.
## Um homem contra as unanimidades
Francis não reconhecia facilmente autoridades intelectuais.
Atacava políticos, artistas, escritores, empresários, jornalistas e acadêmicos com a mesma disposição.
Sua relação com Antônio Houaiss é exemplar dessa ferocidade. Francis atacou duramente o filólogo e diplomata; Houaiss, entretanto, teve uma trajetória intelectual extraordinariamente ampla, que incluiu trabalhos de lexicografia, tradução, diplomacia, produção enciclopédica e a presidência da Academia Brasileira de Letras. ([Wikipédia][5])
Era o método Francis.
Onde o mundo levantava um pedestal, ele procurava um martelo.
Nem sempre encontrava defeitos verdadeiros.
Mas sempre encontrava alguma coisa para dizer.
Tal comportamento produziu inimigos e exageros. Produziu também uma independência de julgamento que se tornou sua marca.
Francis não parecia interessado em pertencer ao clube dos homens bem-comportados.
Aliás, provavelmente seria expulso antes da sobremesa.
## O erro que o perseguiu até o fim
Seu derradeiro combate, porém, foi de outra dimensão.
Em 1996, no Manhattan Connection, Francis acusou diretores da Petrobras de manter dinheiro em contas secretas na Suíça. A acusação resultou numa ação judicial nos Estados Unidos que passou a atormentá-lo nos últimos meses de vida. ([Wikipédia][2])
Esse episódio exige cuidado.
Não é correto transformar Francis retrospectivamente em profeta apenas porque, anos depois, a Petrobras seria envolvida em outros escândalos.
Jornalismo não funciona assim.
*Uma acusação específica exige prova específica.*
E Francis não apresentou provas capazes de sustentar publicamente aquela acusação.
Essa talvez seja uma das grandes lições deixadas involuntariamente por ele.
Opinião pode ser feroz.
Crítica pode ser devastadora.
Ironia pode ser impiedosa.
Mas a acusação factual exige aquilo que sustenta todo jornalismo digno desse nome:
*prova.*
Francis descobriu da maneira mais dolorosa que existe diferença entre uma frase brilhante e uma informação demonstrável.
## Francis na época das redes sociais
Há uma pergunta inevitável:
*O que Paulo Francis faria em 2026?*
Provavelmente seria bloqueado por metade do país antes do café da manhã e cancelado pela outra metade antes do almoço.
À noite estaria comentando o próprio cancelamento.
Francis seria um problema permanente para os algoritmos.
Porque o algoritmo deseja confirmar nossas preferências.
Francis preferia contrariá-las.
Talvez estivesse errado em muitas discussões contemporâneas. Certamente produziria frases que despertariam repúdio imediato. Algumas de suas antigas manifestações, vistas à luz de hoje, são simplesmente inaceitáveis.
Mas suspeito que continuaria fazendo aquilo que sempre fez:
*obrigaria as pessoas a reagirem.*
E aqui reside o contraste com certa parcela do jornalismo contemporâneo.
Vivemos tempos de enorme quantidade de informação e, paradoxalmente, de crescente uniformidade na linguagem.
Há textos que parecem escritos pela mesma pessoa.
Comentários intercambiáveis.
Opiniões higienizadas.
Frases cuidadosamente produzidas para não incomodar ninguém.
É aquilo que chamei, há anos, de *jornalismo chuchu*.
Tem aparência.
Ocupa espaço no prato.
Mas quase não tem gosto.
Francis tinha gosto demais.
Às vezes amargo.
Às vezes intragável.
Mas tinha.
## O jornalista precisa pensar
Não quero um jornalismo composto por pequenos imitadores de Paulo Francis.
Seria insuportável.
E provavelmente o próprio Francis seria o primeiro a ridicularizá-los.
O que sua ausência nos ensina é outra coisa.
*O jornalista precisa pensar.*
Precisa ler.
Precisa estudar história.
Literatura.
Economia.
Política.
Filosofia.
Teatro.
Cinema.
Precisa conhecer alguma coisa além do assunto que recebeu na pauta naquela manhã.
Francis podia falar de Shakespeare, política americana, cinema europeu, economia, Broadway ou literatura porque havia passado a vida formando repertório.
Isso não o tornava infalível.
Ao contrário.
Um homem culto também pode dizer bobagens monumentais.
Francis demonstrou isso repetidas vezes.
Mas havia pensamento antes da frase.
Hoje, quando todos possuem uma plataforma para opinar, essa distinção se torna ainda mais importante.
Ter opinião é fácil.
*Ter pensamento dá trabalho.*
## No Oriente Eterno das palavras
Gosto de imaginar uma cena impossível.
Paulo Francis chega ao céu.
Ou, tomando emprestada uma expressão que me é particularmente cara, ao *Oriente Eterno*.
Na entrada encontra Gregório de Matos.
Gregório olha para Francis.
Francis olha para Gregório.
Em cinco minutos os dois já estão falando mal da administração celestial.
Então aparece Padre Antônio Vieira.
Escuta silenciosamente.
Gregório acusa.
Francis ironiza.
Vieira argumenta.
Gregório dispara o verso.
Francis responde com uma frase venenosa.
Vieira pede a palavra.
E começa um sermão.
Francis interrompe na terceira linha.
Vieira ergue a sobrancelha.
Gregório gargalha.
São Pedro percebe que cometeu um erro administrativo irreversível.
E Deus, conhecedor dos homens, talvez apenas sorria.
Porque sabe que deu àqueles três um dom perigoso:
*a palavra.*
A Gregório, deu a sátira.
A Vieira, deu a persuasão.
A Francis, parece ter concedido um pouco das duas — acrescidas de mau humor, uísque, erudição, vaidade e uma irresistível incapacidade de ficar calado.
Vinte e nove anos depois, podemos discordar de muito do que Paulo Francis escreveu.
Devemos condenar seus preconceitos e reconhecer seus erros.
Podemos contestar suas certezas.
Podemos demonstrar suas contradições.
O que não conseguimos fazer é tratá-lo como irrelevante.
Porque os jornalistas verdadeiramente importantes não são necessariamente aqueles que nos dizem aquilo que queremos ouvir.
São aqueles que nos obrigam a pensar sobre aquilo que preferiríamos ignorar.
Francis fazia isso.
Às vezes com elegância.
Às vezes com crueldade.
Às vezes com inteligência extraordinária.
Às vezes dizendo uma enorme besteira.
Mas pensava.
Escrevia.
Arriscava.
E assinava.
Em tempos de textos sem personalidade, opiniões produzidas em série e palavras cuidadosamente esterilizadas para agradar a todos, eis talvez a maior saudade que Paulo Francis deixa:
*a saudade de um jornalista que tinha voz.*
E voz, meus caros, não se aprende em manual de redação.


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