PORTO VELHO, RO - Em menos de um fim de semana, a eleição de Rondônia ganhou duas imagens suficientemente simples para circular nas redes e complicadas o bastante para render uma campanha inteira. De um lado, Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, apareceu pedindo apoio a Marcos Rogério. Do outro, Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice-presidente na chapa de Ronaldo Caiado, surgiu ao lado de Marcos Rocha falando com entusiasmo das candidaturas de Adailton Fúria e Luis Fernando.
A partir daí começou uma velha especialidade da política: não apenas disputar apoios, mas disputar o significado deles.
Com Flávio Bolsonaro, o trabalho é relativamente simples. No vídeo publicado por Marcos Rogério, ele fala da eleição de 2026 como escolha de quem vai defender Rondônia, cita segurança pública, agronegócio, família e valores, pede apoio a Bruno "Bolsonaro" Scheid e Fernando Máximo para o Senado e desembarca em Marcos Rogério para o Governo. No fim, declara seu “total apoio” ao candidato do PL.
Marcos Rogério também não esconde a intenção da peça. Ao agradecer a Flávio, fala em apoio e confiança no “nosso time da direita em Rondônia” e coloca Bruno Scheid e Fernando Máximo dentro da mesma construção eleitoral.
Não há muito o que decifrar. Flávio quer Marcos Rogério governador. Marcos Rogério quer que o eleitor saiba disso.
A mesma lógica aparece na disputa pelo Senado. Em publicação de Bruno Scheid, Flávio divide a cena com Michelle Bolsonaro e o candidato rondoniense. Scheid se apresenta com uma frase que deixa pouco espaço para sutilezas: “Eu sou escolhido pelo presidente Bolsonaro e o único outorgado!”
Depois agradece a Michelle e Flávio Bolsonaro pela confiança e pelo apoio.
O bolsonarismo, portanto, não aparece nessas peças como lembrança de campanha passada nem como fotografia guardada para uma ocasião conveniente. É parte da mercadoria eleitoral. Marcos Rogério, Bruno Scheid e Fernando Máximo são apresentados dentro de um campo político que pretende chegar ao eleitor já identificado.
Isso tem uma vantagem óbvia em comunicação: quase nada precisa ser explicado.
Flávio Bolsonaro aparece de amarelo, fala de família, agronegócio, segurança e valores e termina pedindo apoio a Marcos Rogério. A campanha recebe uma mensagem pronta para ser recortada, impulsionada e repetida: Bolsonaro está com Marcos Rogério.
Do outro lado, a história é menos confortável de contar em uma linha.
Gilberto Kassab apareceu ao lado de Marcos Rocha. Presidente nacional do PSD e candidato a vice-presidente da República na chapa de Ronaldo Caiado, falou das perspectivas eleitorais do partido em Rondônia e demonstrou entusiasmo com Fúria e Luis Fernando. Rocha completou a escalação: Caiado para presidente, Fúria para governador e Luis Fernando para senador.
Foi o bastante para a política das redes fazer aquilo que faz melhor: cortar caminho.
Como o PSD participa do governo Lula e chegou à campanha presidencial de 2026 comandando três ministérios, a aparição de Kassab ao lado de Rocha passou a ser usada para aproximar Fúria do presidente da República. A conta é sedutora porque cabe inteira num card: o PSD tem ministros com Lula; Kassab preside o PSD; Kassab apoia Fúria; portanto, Fúria estaria no campo de Lula.
O problema é que apoio partidário não funciona como propriedade transitiva de uma equação matemática.
Kassab não é Lula. Fúria não se transforma em candidato do presidente da República porque o partido ao qual pertence ocupa espaços no governo federal. E o próprio PSD oferece provas suficientes de que suas alianças nacionais são bem mais desorganizadas do que essa conta permite supor.
Há, inclusive, uma dificuldade bastante concreta para transformar Fúria em representante eleitoral do lulismo em Rondônia, além da mentira escancarada por si: Lula tem candidato ao Governo. Expedito Netto disputa o cargo pelo PT, legenda do próprio presidente. O lulismo não está órfão no estado, nem procurando alguém para representar indiretamente seus interesses eleitorais. Tem nome, partido e candidatura próprios.
Isso não apaga o fato politicamente incômodo para Fúria. O PSD participa do governo Lula. Os adversários sabem disso. E seria ingenuidade imaginar que deixarão a informação descansando tranquilamente numa nota de rodapé.
Campanha eleitoral raramente desperdiça uma associação simples.
O que torna o caso mais interessante é que o mesmo PSD que ocupa ministérios no governo Lula decidiu lançar Ronaldo Caiado contra Lula e colocou justamente Kassab, presidente nacional da legenda, como candidato a vice. Logo, uma postulação claramente de direita. Se há distinção - e há -, é que, ideologicamente, representa uma cisão junto ao posicionamento destro do bolsonarismo.
Nas últimas semanas, Caiado passou a disputar com mais intensidade o eleitorado da direita, tentando se apresentar como alternativa mais competitiva do que Flávio Bolsonaro para enfrentar Lula. A estratégia do PSD mira especialmente o eleitor de direita que não esteja inteiramente amarrado ao bolsonarismo e procura vender a ideia de que Caiado teria melhores condições de derrotar o petista num eventual segundo turno.
Nesse movimento, Flávio deixou de ser apenas um concorrente.
Virou alvo.
Caiado intensificou as críticas ao filho de Jair Bolsonaro e passou a sustentar publicamente que conseguiria derrotar Lula enquanto Flávio não teria a mesma capacidade. Depois de Kassab afirmar que Flávio teria “chance zero” na eleição, o candidato do PL respondeu acusando Caiado de ajudar Lula. Caiado rebateu reafirmando sua oposição à esquerda e enquadrando o episódio como parte da guerra dentro do próprio campo da direita.
É uma confusão tipicamente brasileira.
O PSD mantém ministros no governo Lula. Seu presidente nacional é candidato a vice numa chapa contra Lula. Seu candidato presidencial procura tirar de Flávio Bolsonaro o posto de principal alternativa de direita ao petista. E, nos estados, dirigentes têm liberdade para construir alianças diferentes.
Transformar tudo isso numa etiqueta única é conveniente. Só não descreve muito bem o partido.
A trajetória recente de Kassab torna a tarefa ainda mais difícil.
Até março deste ano, ele era secretário de Governo e Relações Institucionais de Tarcísio de Freitas em São Paulo, cargo que ocupava desde janeiro de 2023. Saiu do governo paulista para cuidar das articulações eleitorais do PSD. Tarcísio, ex-ministro de Jair Bolsonaro, apoia Flávio Bolsonaro na eleição presidencial. O PSD continua aliado ao governador paulista.
Se a ideologia de Kassab fosse definida apenas pelo governo do qual participa ou pelo político ao lado de quem aparece, seria necessário atualizar sua classificação com frequência pouco razoável.
Talvez o erro esteja justamente em procurar no PSD uma rigidez que o partido nunca se preocupou muito em oferecer.
Kassab foi ministro das Cidades no governo Dilma Rousseff e ministro da Ciência e Tecnologia no governo Michel Temer. Durante o governo Bolsonaro, Fábio Faria, então deputado federal do PSD, assumiu o Ministério das Comunicações, embora Kassab e dirigentes da legenda tenham afirmado que a nomeação havia sido escolha pessoal de Bolsonaro, e não resultado de negociação formal com o partido. Agora, integrantes do PSD ocupam ministérios de Lula.
É uma legenda que atravessou governos de esquerda, centro e direita.
Chamar isso de fisiologismo já seria entrar no terreno do julgamento político. Pragmatismo é descrição mais segura e honesta.
Em 2026, o próprio partido tornou explícita essa elasticidade ao liberar dirigentes estaduais para apoiarem diferentes candidatos à Presidência. Há integrantes próximos a Lula, outros vinculados a candidatos de direita e, no centro da estrutura nacional, uma candidatura presidencial própria, a de Caiado.
O fato de a associação entre Fúria e Lula ser imperfeita, porém, não significa que seja eleitoralmente inofensiva.
Esse é justamente o problema de Fúria.
Política não é seminário de ciência política. Uma associação não precisa sobreviver a vinte minutos de discussão acadêmica. Precisa sobreviver a quinze segundos de vídeo.
Se o adversário consegue dizer “o partido dele tem três ministros no governo Lula” e isso encontra um eleitor predisposto a rejeitar qualquer aproximação com o petismo, a explicação sobre Kassab, Caiado, autonomia estadual e pragmatismo partidário pode chegar tarde demais.
Rondônia é um terreno particularmente sensível para esse tipo de ataque.
No segundo turno presidencial de 2022, Jair Bolsonaro recebeu 70,66% dos votos válidos contra Lula e venceu nos 52 municípios rondonienses. Não é necessário florear a conclusão: naquela eleição, o estado foi esmagadoramente bolsonarista.
Flávio Bolsonaro entrega, portanto, a Marcos Rogério um ativo político de entendimento instantâneo.
Quanto mais a eleição para governador puder ser apresentada como continuação da disputa presidencial, mais confortável tende a ser o terreno para o candidato do PL. Marcos Rogério não precisa explicar ao eleitor onde está. Basta apontar para Flávio. Logo, vencer no primeiro turno também é imprescindível, especialmente para não repetir 2022.
Fúria terá trabalho maior.
E não apenas por causa de Lula.
O candidato do PSD corre o risco de passar boa parte da campanha administrando duas acusações diferentes, vindas de lugares igualmente desconfortáveis.
A primeira é estadual.
Com Marcos Rocha ao seu lado, Fúria ganha estrutura política, um governador reeleito e o apoio do homem que derrotou Marcos Rogério quatro anos atrás. É muita coisa. Mas apoio político raramente vem desacompanhado de cobrança.
O mesmo Marcos Rocha que oferece força a Fúria oferece também aos adversários uma palavra pronta: continuísmo.
Fúria terá de convencer o eleitor de que pode receber o apoio do governador sem ser apenas a continuação do governador. Quanto mais Rocha aparecer como avalista, padrinho e fiador da candidatura, maior será a tentativa adversária de transformar a eleição numa espécie de plebiscito sobre o atual governo.
É uma relação delicada.
Distanciar-se demais de Rocha seria desperdiçar o principal ativo estadual de sua candidatura. Aproximar-se demais permitirá que Marcos Rogério e outros adversários tentem retirar de Fúria a condição de projeto próprio.
Essa não será uma discussão abstrata. Provavelmente estará presente em debates, vídeos, entrevistas e peças de campanha: Fúria representa uma candidatura nova ou um terceiro mandato político do grupo que está no poder?
O apoio de Rocha ajuda a responder uma pergunta e cria outra.
A segunda dificuldade vem de Brasília.
Enquanto Fúria tenta disputar um eleitorado profundamente marcado pelo bolsonarismo, o presidente nacional de seu partido participa de uma campanha presidencial que resolveu bater justamente em Flávio Bolsonaro.
Kassab não é um dirigente lateral do PSD. É o presidente nacional da legenda e candidato a vice-presidente. Se ele sustenta que Flávio tem “chance zero” e Caiado intensifica o confronto com o candidato do PL, esse embate inevitavelmente oferece munição aos bolsonaristas em Rondônia.
Fúria poderá ser cobrado por uma guerra nacional que não começou.
Esse é um dos paradoxos de sua candidatura.
Para escapar da tentativa de ser colocado no campo de Lula, o PSD pode dizer que tem Caiado. Mas Caiado e Kassab estão justamente brigando com Flávio Bolsonaro pelo eleitorado da direita.
Ou seja: a resposta que afasta Fúria de Lula pode aproximá-lo de outro problema.
Num estado em que Bolsonaro obteve mais de 70% no segundo turno de 2022, não é exatamente confortável ter o presidente nacional do partido dizendo que o candidato presidencial escolhido pelo bolsonarismo não tem chance.
Marcos Rogério certamente não deixará essa contradição passar em branco.
O candidato do PL pode explorar duas frentes ao mesmo tempo. De um lado, lembrar que o PSD ocupa ministérios no governo Lula. De outro, mostrar Kassab e Caiado atacando Flávio Bolsonaro.
Uma acusação tenta empurrar Fúria para a esquerda. A outra procura retirá-lo da direita bolsonarista.
Não é necessário que as duas sejam perfeitamente coerentes entre si para que sejam usadas juntas.
Campanhas têm dessas coisas.
Fúria terá, portanto, de encontrar um lugar próprio entre Marcos Rocha, Kassab, Caiado, Lula e Bolsonaro sem permitir que os adversários façam esse trabalho por ele.
Essa talvez seja sua maior dificuldade narrativa.
Marcos Rogério começa a campanha com uma identidade nacional mais nítida. Fúria começa com uma estrutura estadual talvez mais robusta, mas com uma identidade que exige elaboração.
Há, contudo, uma lembrança inconveniente para quem acredita que bastará colocar Bolsonaro no centro da disputa para resolver a eleição de governador.
Rondônia já viveu algo parecido.
Em 2022, no mesmo estado em que Bolsonaro alcançou 70,66% dos votos válidos contra Lula, Marcos Rogério perdeu a eleição para o Governo. Marcos Rocha foi reeleito com 52,47%; Rogério terminou com 47,53%.
E havia uma peculiaridade: os dois tentavam se identificar com Bolsonaro.
O eleitor rondoniense conseguiu fazer algo que as campanhas gostam de fingir ser impossível. Foi fortemente bolsonarista para presidente e escolheu outro caminho na eleição estadual.
Isso não prova que fará a mesma coisa em 2026.
Eleição passada não é profecia.
Mas é um aviso contra a ideia de que apoio presidencial se converte automaticamente em voto para governador.
É justamente por isso que Marcos Rocha importa tanto para Fúria.
Kassab representa a direção nacional do PSD. Caiado representa o projeto presidencial do partido. Rocha representa algo mais palpável em Rondônia: o grupo que venceu a eleição estadual anterior.
Quando o governador declara apoio a Fúria, entrega ao candidato um ativo que Marcos Rogério conhece bem. Foi Rocha quem o derrotou quatro anos atrás.
O apoio traz, portanto, duas faces.
Rocha pode ajudar Fúria a dizer que pertence a um grupo que já venceu. Os adversários tentarão usar exatamente a mesma imagem para dizer que Fúria pertence a um grupo que já governa há tempo suficiente.
É a mesma fotografia com duas legendas.
A campanha decidirá qual delas será mais eficiente.
Marcos Rogério enfrenta problema diferente. Seu abraço nacional com Flávio Bolsonaro é eleitoralmente valioso, mas carrega a obrigação de demonstrar que o enorme desempenho presidencial do bolsonarismo em Rondônia pode, desta vez, ser transportado para a urna estadual.
Em 2022, não foi.
O candidato do PL tem interesse em tornar a eleição o mais nacional possível. Quanto mais o eleitor pensar em Lula e Bolsonaro quando estiver escolhendo governador, melhor tende a ser a posição discursiva de Marcos Rogério.
Fúria precisa fazer movimento quase inverso.
Não lhe interessa permitir que a campanha se transforme apenas num concurso para descobrir quem está mais perto ou mais longe de Bolsonaro. Também não lhe interessa deixar que a presença do PSD no governo Lula dite sua identidade. Sua candidatura precisa trazer a discussão para Rondônia, para sua própria trajetória e para a força política de Marcos Rocha sem ser engolida por ela.
É um equilíbrio pouco confortável.
Fúria precisa do apoio de Rocha, mas não pode ser apenas Rocha.
Precisa do PSD, mas não pode carregar sozinho todas as alianças nacionais do PSD.
Precisa de Caiado para demonstrar que seu partido tem projeto presidencial próprio, mas terá de lidar com as críticas de Caiado e Kassab a Flávio Bolsonaro num estado profundamente bolsonarista.
E precisará explicar tudo isso sem parecer que está explicando demais.
Marcos Rogério tem uma vantagem nesse particular. Seu argumento cabe numa linha.
Flávio está com ele.
A simplicidade não garante vitória, mas é um luxo numa campanha.
Fúria terá de construir uma mensagem capaz de competir com essa facilidade. Talvez sua resposta esteja menos em Brasília e mais em Rondônia: prefeito, candidato ao Governo, apoiado pelo governador que venceu Marcos Rogério e integrante de um partido que apresenta Caiado à Presidência.
Só que os adversários também já encontraram suas palavras.
“Continuísmo” de um lado.
“PSD de Lula” do outro.
E, quando Kassab ou Caiado atacarem Flávio, virá uma terceira: adversário de Bolsonaro.
Não será uma campanha tranquila para quem deixar os outros definirem seu lugar.
No fim, as manifestações do fim de semana dizem mais sobre os desafios das duas candidaturas do que sobre uma simples coleção de padrinhos.
Flávio Bolsonaro ajuda Marcos Rogério a nacionalizar a eleição e oferece ao candidato do PL uma identidade de enorme apelo num estado que deu 70,66% dos votos a Jair Bolsonaro em 2022.
Marcos Rocha ajuda Fúria a estadualizar a disputa e oferece ao candidato do PSD a força de um grupo que derrotou Marcos Rogério na última eleição para governador.
Kassab acrescenta estrutura nacional, mas traz consigo a complexidade de um partido que participa do governo Lula enquanto concorre contra Lula e cujo candidato presidencial passou a disputar abertamente espaço com Flávio Bolsonaro na direita.
Qual desses apoios vale mais talvez seja uma pergunta prematura.
Mais interessante será observar o preço de cada um.
Marcos Rogério recebe de Flávio uma identidade pronta, mas precisa provar que ela desta vez atravessa da urna presidencial para a estadual.
Fúria recebe de Rocha força local, mas terá de passar a campanha demonstrando que apoio não é sinônimo de continuísmo. Recebe de Kassab uma máquina partidária nacional, mas precisará sobreviver à guerra do PSD com Flávio Bolsonaro sem permitir que o bolsonarismo rondoniense o transforme em inimigo por procuração.
A eleição começa, assim, com uma disputa curiosa.
Marcos Rogério quer que Bolsonaro diga quem ele é.
Fúria precisa impedir que Marcos Rocha, Kassab, Lula ou Flávio Bolsonaro acabem dizendo quem ele é antes dele próprio.


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