PORTO VELHO, RO - O relógio costuma ser o participante mais antipático de um debate. Não tem partido, não aceita argumento e corta igualmente uma grande ideia e uma frase que ainda procurava o próprio final. No primeiro encontro dos candidatos ao Governo de Rondônia, transmitido pela RondoVisão, afiliada da Band, ele foi especialmente incômodo para Hildon Chaves, do União Brasil.
Hildon tinha o que dizer. Falou de gestão, saúde, tecnologia, infraestrutura, questões fundiárias, corrupção, pedágio. Trouxe para a conversa realizações de Porto Velho e chegou a estabelecer prazo para a entrega do novo hospital. Não apareceu, portanto, um candidato vazio de assuntos. O problema foi outro, bem mais prosaico: algumas respostas demoravam para chegar onde queriam e, quando finalmente pareciam encontrar o caminho, o tempo já estava batendo à porta.
Talvez tenha sido esse contraste que tenha produzido uma impressão mais severa do que o desempenho, isoladamente, mereceria. Hildon já foi visto em campanhas anteriores, a exemplo das de 2020 e 2016, como um político mais rápido no embate, mais cortante, mais disposto a transformar uma resposta em acontecimento. Desta vez apareceu sereno, por vezes até sereno demais, quase contencioso – sem precisar ser. Não entrou em todas as brigas disponíveis, não procurou fabricar uma frase a cada bloco e manteve um comportamento controlado.
Nada disso constitui defeito por si só.
O candidato não precisa voltar ao próximo debate decidido a bater na mesa ou disputar decibéis com os adversários. Seria até estranho tentar fabricar uma agressividade apenas porque a televisão gosta dela. O ajuste pode ser muito mais simples. Hildon precisa encurtar o caminho entre a pergunta e a resposta. Se há uma experiência administrativa a mostrar, e há, ela precisa entrar cedo. Se há um número, uma obra ou uma proposta, melhor apresentá-los antes da explicação longa. O cronômetro não premia introduções nem vácuos preenchidos com pensamento em buscar das palavras. Mas isso ele sabe mais do que qualquer um entre os seis postulantes.
É também uma questão de aproveitar aquilo que ele já possui. Dois mandatos na Prefeitura de Porto Velho fornecem material suficiente para comparações, exemplos e compromissos. A experiência, no entanto, só produz vantagem televisiva quando consegue caber em um minuto ou em noventa segundos. O próximo Hildon não precisa ser um Hildon mais bravo. Precisa ser um Hildon mais rápido. Mais ágil. Mais objetivo. Enfim, encontrar o reflexo do homem de uma década atrás.
Pedro Abib (MDB) sofre de problema quase oposto.
Abib parece gostar das perguntas tanto quanto das respostas. Em alguns momentos, talvez até um pouco mais. Foi ao debate com evidente disposição para examinar o conhecimento dos adversários e demonstrou familiaridade com assuntos que normalmente não são os mais fáceis de comprimir para televisão: segurança pública, fronteiras, inovação, ciência e tecnologia, agricultura familiar e integração entre órgãos.
No encontro com Adailton Fúria, do PSD, isso ficou especialmente claro. Abib formulou uma pergunta sobre Ciência, Tecnologia e Inovação, evocando, diante do adversário, apenas a sigla CTI. Além de abordar nuances sobre a Fapero à base do tecniquês. Fúria começou respondendo por outro caminho. Abib esperou a réplica e então mostrou aonde queria chegar. Seu objetivo era demonstrar por A + B que Fúria não conhece o próprio Plano de Governo. Safo, o postulante do grupo governista segurou o tempo fazendo críticas – descabidas –, contra a Energisa. Depois discorreu minimamente sobre mudanças na Diretoria da fundação e ficou por isso.
Para o emedebista, foi uma boa demonstração de estudo. Também revelou um pequeno perigo.
O eleitor não deveria precisar de legenda para acompanhar uma pergunta de candidato a governador. Quanto mais Abib demonstrar que conhece um assunto, maior será a tentação de mostrar todas as camadas desse conhecimento. Só que debate não é banca de mestrado. Há uma vantagem enorme em saber muito e falar simples. A tática é boa para explorar vulnerabilidade intelectual nos outros, mas tem um efeito colateral: impede que as pessoas, de modo geral, compreendam exatamente suas pretensões.
Esse talvez seja o grande trabalho de sua campanha para as próximas rodadas. Abib não precisa abandonar o vocabulário técnico, muito menos fingir ignorância para parecer popular. Precisa fazer uma tradução. Se uma sigla puder virar uma frase, melhor a frase. Se uma explicação de trinta segundos puder ser entendida em dez, melhor os dez. Se o conhecimento do programa adversário servir para produzir uma cobrança compreensível imediatamente por quem está assistindo em casa, aí a técnica deixa de ser apenas atributo e passa a funcionar eleitoralmente.
Abib já mostrou que estudou. Agora precisa fazer o eleitor sentir que também consegue ensinar sem o tom professoral.
Samuel Costa, por sua vez, não teve dificuldade para ser percebido.
Quando aparecia, normalmente alguma coisa acontecia.
Samuel levou propostas, referências populares, histórias, passagens religiosas, provocações e frases construídas com uma qualidade bastante útil na política contemporânea: algumas já pareciam nascer sabendo que seriam cortadas em vídeo vertical. Resumidamente, memetizou o embate retórico.
Ele entendeu uma mudança básica no funcionamento dos debates. A transmissão ao vivo é apenas a primeira edição. Depois vêm os recortes, as legendas, os compartilhamentos, as respostas, os memes e os pequenos trechos que continuam circulando quando quase ninguém mais se lembra da pergunta original.
Samuel falou de educação, universidade estadual, valorização profissional, ensino integral, proteção às mulheres, pequenos produtores e outros temas. Havia programa. Havia também um sujeito visivelmente interessado em produzir memória. Chacrinha apareceu. A Bíblia apareceu. Claudia Leitte e Ivete Sangalo acabaram, de maneira improvável, convocadas para uma eleição ao Governo de Rondônia.
Funcionou no sentido mais elementar: as frases foram notadas.
O problema de Samuel é que havia coisas demais acontecendo dentro do mesmo candidato.
Além de apresentar um projeto e tentar criar os momentos mais compartilháveis da noite, ele levou para o estúdio a crise provocada pela intervenção nacional no PSB. A candidatura ao Governo havia sido atingida, Neidinha Suruí também havia sido afetada na disputa ao Senado e Expedito Netto se tornou, para Samuel, o rosto disponível de uma articulação que ele passou a contestar publicamente.
A partir daí, uma parte do debate mudou de assunto.
Uma pergunta podia começar na administração pública e acabar no PSB. A conversa podia entrar na Caerd e desembocar em Expedito. Surgiram referências à intervenção, ao impeachment de Dilma Rousseff, a supostas ofertas de cargos e às candidaturas atingidas pela decisão partidária. Em alguns trechos, a temperatura passou da cobrança política e encostou no pessoal.
É compreensível que um candidato atingido em cheio por uma decisão partidária queira falar dela. Seria artificial exigir silêncio. Mas Samuel terá de decidir qual tamanho essa história terá dentro de sua própria campanha.
Se cada debate virar a continuação pública da crise partidária, seus adversários ganharão uma vantagem curiosa: não precisarão interromper Samuel enquanto ele próprio retira minutos de suas propostas para discutir a briga interna da esquerda.
Ele não precisa parar de atacar. Esse é claramente um componente de sua forma de fazer política e, no primeiro encontro, foi também uma ferramenta para criar tensão real. O que precisa é escolher melhor o alvo e, principalmente, saber a hora de sair dele.
Há uma diferença entre usar um confronto para apresentar uma candidatura e usar a candidatura para sustentar um confronto.
No primeiro caso, Samuel pode ser perigoso para os adversários. No segundo, corre o risco de se tornar comentarista da própria indignação.
Quem descobriu uma versão curiosamente tranquila de si mesmo naquela manhã foi Expedito Netto.
Samuel foi em sua direção mais de uma vez. Netto recebeu acusações, ouviu referências à intervenção no PSB e teve oportunidades suficientes para transformar aquilo num duelo. Preferiu não fazê-lo.
A escolha chamou atenção porque Expedito tem uma história pública em que a temperatura nem sempre ficou baixa. Desta vez, ela ficou. Em vez de competir com Samuel pelo controle do barulho, Netto manteve a expressão contida, respondeu que o adversário deveria resolver seus problemas no PSB e evitou transformar o programa inteiro numa assembleia extraordinária da esquerda rondoniense.
Fez bem em não comprar todas as provocações.
A questão para os próximos debates é outra: tranquilidade não pode virar ausência de resposta.
Samuel colocou uma narrativa em circulação. Isso não a transforma em fato provado. Torna apenas provável que ela volte. Uma acusação política não desaparece necessariamente porque quem a recebeu decidiu não discuti-la naquela noite. Às vezes ocorre o contrário: ela ganha um próximo capítulo.
Netto terá, portanto, de preservar exatamente a qualidade que mostrou — o autocontrole — e acrescentar alguma coisa a ela. Precisa estabelecer uma resposta curta, compreensível e suficiente para aquilo que lhe será perguntado sobre a crise partidária. Não para convencer Samuel, tarefa provavelmente impossível, mas para que o público entenda sua versão antes que a discussão seja novamente engolida pelo conflito.
Fora dessa guerra, Netto falou de saúde, regularização fundiária, pequenos negócios, cooperativismo, industrialização e privatizações. Também fez questão de deixar à vista sua identidade política de esquerda e sua proximidade com Lula.
Foi justamente ao tentar trabalhar essa última associação que tropeçou no momento menos oportuno.
Nas considerações finais, pretendia criticar Jair Bolsonaro pela falta de obras em Rondônia. Trocou os presidentes e acabou desafiando o público a localizar uma obra de Lula, presidente que estava defendendo.
A consideração final existe para o candidato escolher a lembrança com que gostaria de mandar o eleitor para casa. Netto acabou oferecendo uma lembrança involuntária.
Não há grande ciência para corrigir isso. Há ensaio.
O improviso funciona muito bem até o segundo em que deixa de funcionar. Nos próximos debates, Expedito pode continuar conversando com naturalidade, mas faria bem em chegar aos segundos derradeiros sabendo exatamente qual frase pretende concluir. A serenidade que demonstrou sob ataque vale conservar. A improvisação no último minuto, nem tanto.
Adailton Fúria talvez tenha saído do primeiro debate com o dever de casa mais evidente de todos.
Não porque tenha ido mal. Pelo contrário: em situações nas quais poderia ter ficado sem saída, encontrou uma.
Fúria conhece o expediente de ocupar o tempo. Quando uma pergunta o leva para um terreno menos confortável, ele não fica olhando para o teto em busca de socorro. Puxa uma experiência da vida pública, lembra a Prefeitura de Cacoal, apresenta um resultado administrativo, desloca o ângulo da conversa ou encontra outra moldura para a discussão.
Essa é uma habilidade real de debate.
Também pode virar um vício.
A eleição colocou Fúria numa posição politicamente delicada. Ele recebe o apoio do governador Marcos Rocha, mas procura apresentar candidatura própria, com autonomia em relação à administração atual. Faz sentido eleitoralmente. Ninguém busca o apoio de um governador para depois pedir que o eleitor finja que esse apoio não existe. Ao mesmo tempo, um candidato também não quer carregar no colo todas as cobranças acumuladas por quem o apoia.
Samuel percebeu o ponto e apertou justamente ali.
Quis saber, em essência, o que seria mantido e o que seria mudado. Até onde iria Marcos Rocha e em que ponto começaria Adailton Fúria.
Samuel usou analogias, uma delas excessivamente pesada, e Fúria percebeu a brecha. Em vez de permanecer na questão administrativa, passou à defesa pessoal e familiar do governador. Era um terreno mais confortável e permitia uma reação firme.
Funcionou como manejo de debate.
Mas a pergunta ficou na sala.
Ela voltará.
Fúria pode inclusive transformar isso em vantagem, desde que faça antes dos adversários o serviço que eles tentarão obrigá-lo a fazer diante das câmeras. Precisa ter uma espécie de inventário mental do governo Rocha: o que considera correto e manteria; o que acha insuficiente e pretende modificar; onde existe continuidade; onde haverá diferença.
Quanto menos nebulosa for essa fronteira, menos espaço haverá para a mesma armadilha.
O outro ajuste passa pelo hábito de recorrer a Cacoal. É natural que um ex-prefeito use a própria administração como cartão de visitas. Hildon também procura fazê-lo. Se conseguiu fazer algo num município, apresentará aquilo como prova de capacidade. O risco começa quando Cacoal vira resposta para quase tudo.
O Governo de Rondônia é maior que Cacoal, e os adversários sabem disso.
Na pergunta de Abib sobre Fapero e política de ciência, tecnologia e inovação, por exemplo, Fúria teve dificuldade para entrar imediatamente no tema e recorreu à trajetória de vereador, deputado e prefeito. A biografia ajudou a preencher o relógio, mas não substituiu a resposta específica.
Para a próxima rodada, a melhor versão de Fúria talvez seja aquela que mantenha o comunicador e acrescente um pouco mais do candidato que responde exatamente ao substantivo colocado na pergunta. Se perguntarem Fapero, Fapero. Se perguntarem Marcos Rocha, Marcos Rocha. Depois vem Cacoal.
Marcos Rogério teve uma noite diferente.
Era razoável imaginar que, por aparecer em posição de evidência nas pesquisas de primeiro turno, entraria no estúdio como um daqueles bonecos de parque de diversão sobre os quais todo mundo tenta acertar alguma coisa.
Não foi exatamente assim.
Os conflitos se espalharam. Samuel tinha Expedito e Fúria em seu radar. Abib estava interessado em testar conhecimento. Fúria tinha seus próprios embates. A noite produziu linhas de confronto suficientes para que Rogério não passasse duas horas e meia recebendo perguntas de cinco candidatos simultaneamente.
Quando foi chamado, em geral respondeu com organização.
Na Eletrobras, reconheceu sua atuação como relator no Senado e procurou separar os episódios colocados na mesma discussão. Na concessão da BR-364, atribuiu ao governo Lula o modelo adotado. Quando Fúria o confrontou sobre o hospital de Ji-Paraná, admitiu a demora e sustentou que uma coisa é o parlamentar destinar recursos e outra é o administrador executar a obra.
Pode-se concordar ou discordar das explicações. O dado politicamente importante daquela manhã de terça-feira é que Rogério conseguiu oferecê-las sem produzir uma cena de desorganização.
Para o primeiro debate, bastou.
A tendência natural de uma campanha é aprender. Os demais candidatos também assistem aos debates — sobretudo depois deles. Suas equipes identificam onde gastaram tempo demais, quem atacaram pouco e qual adversário atravessou a noite com conforto excessivo.
Rogério não deveria contar novamente com uma distribuição tão generosa das atenções.
Sua preparação agora precisa imaginar um cenário em que as perguntas cheguem em sequência.
Esse é talvez seu principal ajuste. Rogério demonstrou facilidade para recorrer à atuação parlamentar, às emendas, às obras e aos recursos associados à própria trajetória. É compreensível: candidato algum abandona aquilo que considera um ativo. Mas uma candidatura ao Executivo precisa progressivamente trocar o “o que fez” pelo “o que fará”.
Quanto mais os debates avançarem, menos novidade haverá em repetir o currículo.
O próximo passo é apresentar governo.
E assim os seis saíram do primeiro encontro com problemas diferentes, o que talvez seja a melhor notícia possível para quem gosta de debate. Seria uma campanha bastante aborrecida se todos precisassem corrigir a mesma coisa.
Hildon precisa ganhar velocidade sem perder a serenidade. Abib precisa trocar parte do idioma técnico pelo português da sala de casa. Samuel precisa impedir que uma guerra partidária ocupe o espaço destinado à candidatura. Expedito deve manter a calma e encontrar respostas que não dependam apenas dela. Fúria precisa transformar sua capacidade de escapar de perguntas numa capacidade equivalente de encerrá-las. Rogério precisa se preparar para uma noite em que talvez não seja deixado tão à vontade e mostrar menos retrospectiva e mais projeto.
Nenhum deles precisa interpretar outro personagem.
Esse talvez seja o erro mais fácil depois de um debate: olhar as críticas, reunir a equipe e decidir produzir artificialmente um candidato novo. O quieto passa a gritar. O técnico começa a contar piada. O combativo tenta virar estadista contemplativo. O experiente decora bordões. Geralmente dá para perceber.
O trabalho é mais modesto.
Cada um já mostrou uma qualidade aproveitável. Hildon tem experiência administrativa. Abib tem estudo. Samuel sabe criar atenção. Netto demonstrou contenção. Fúria sabe sobreviver a uma pergunta difícil. Rogério organiza bem a resposta.
O segundo debate começará, na prática, antes de todos entrarem no estúdio.
Começará quando cada campanha decidir se prefere proteger aquilo que já funciona ou fingir que o primeiro encontro nunca aconteceu.
O relógio, naturalmente, estará lá de novo.
E continuará sem fazer concessões.


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