RESENHA POLÍTICA
ROBSON OLIVEIRA
MENTIRA
O desmentido da cientista Tatiane Coelho Sampaio à declaração do candidato a senador Fernando Máximo, do PL de Rondônia, deixou o deputado federal em uma situação que nenhum candidato gostaria de experimentar: a de ter sua palavra confrontada publicamente por quem, segundo ele, seria parceira de um projeto anunciado como promessa de campanha para Rondônia.
MILAGRE
Máximo afirmou ter firmado uma espécie de convênio com a cientista para trazer a Rondônia a aplicação de suas descobertas em pacientes com problemas de mobilidade. Tatiane Sampaio negou. E, quando a própria personagem citada como protagonista da história diz que a história não aconteceu, resta ao político explicar não apenas o erro, mas a origem da narrativa. E ainda alertou que seus estudos são iniciais e estão longe de um milagre, embora com resultados animadores.
ÉTICA
O episódio é particularmente constrangedor porque Fernando Máximo é médico. De um profissional da medicina se espera, antes de qualquer coisa, compromisso com a verdade, responsabilidade e ética. Na política, infelizmente, a ética parlamentar muitas vezes virou uma espécie de ficção conveniente - mas, quando o assunto é saúde, a margem para a fantasia deveria ser ainda menor.
CONVENIÊNCIA
Apropriar-se de uma descoberta científica para transformá-la em ativo eleitoral já seria questionável. Fazê-lo sem autorização da própria cientista torna o episódio ainda mais grave. Ciência não é santinho de campanha, pesquisador não é cabo eleitoral e descoberta científica não deveria ser convertida em promessa de palanque ao sabor da conveniência eleitoral.
ASSOCIAÇÃO
Fernando Máximo não precisa disso. Poderia apresentar propostas, discutir políticas públicas para pessoas com deficiência e mobilidade reduzida, defender investimentos em pesquisa e inovação. Mas preferiu associar seu nome ao trabalho de uma cientista respeitada. Agora, diante do desmentido, terá de explicar ao eleitor por que apresentou como fato aquilo que a própria cientista diz não ter ocorrido.
IDENTIFICAÇÃO
E há um contraste que o eleitor deveria observar. Embora médico, quem hoje disputa uma vaga ao Senado com algum histórico de entregas concretas na área da saúde em Rondônia é a deputada federal Silvia Cristina. Ela abraçou a saúde como bandeira de mandato, destinou recursos, ajudou a viabilizar ações e fez entregas substanciais. Agora colhe os louros eleitorais pelo trabalho realizado, sem precisar recorrer a subterfúgios ou inventar parcerias para impressionar o eleitor. Ela sim tem uma identificação com a saúde e os números inicialmente divulgados na mídia comprovam suas entregas.
PRUDÊNCIA
O exemplo da colega deveria servir de inspiração a Fernando Máximo neste período eleitoral: na política, obra realizada vale mais que promessa inventada. E, quando se trata de saúde, talvez seja prudente lembrar que a verdade também deveria fazer parte da receita. Político pode até disputar votos com promessas. O que não deveria disputar é com a verdade.
ESVAZIADO
Não estive no evento promovido pela OAB de Rondônia que reuniu os candidatos ao governo e colheu a assinatura de um termo de compromisso pela ética na política e contra Fake News, entre outros compromissos. Mas ouvi relatos suficientes de jornalistas que acompanharam o encontro e de candidatos que estiveram presentes para perceber que alguma coisa saiu do roteiro.
OPORTUNIDADE
O evento, tradicionalmente, costuma reunir advogados em número razoável e despertar interesse no meio político. É uma oportunidade para a entidade colocar na mesma sala aqueles que pretendem governar o Estado e cobrar deles compromissos que, em tese, deveriam ser básicos: ética, transparência, respeito às instituições e responsabilidade na gestão pública.
REFLEXÃO
Desta vez, porém, o cenário teria sido bem diferente. O encontro foi descrito por vários presentes como esvaziado. E quando uma solenidade da OAB, historicamente respeitada por sua importância institucional, começa a parecer reunião de condomínio em fim de mandato, há motivo para reflexão.
DESINTERESSE
Não se sabe ainda o que explica o desinteresse. Pode ser o eleitor, que parece olhar para a campanha com certa distância e ainda não se deixou contaminar pela febre eleitoral. Pode ser a própria entidade, que talvez não tenha conseguido mobilizar sua categoria como em eleições anteriores. Ou pode ser simplesmente uma combinação das duas coisas. Mas a questão merece atenção.
SINTOMA
A OAB não é apenas mais uma entidade a organizar eventos eleitorais. Sua força institucional decorre justamente da capacidade de participar do debate público, fiscalizar instituições e cobrar dos agentes públicos compromissos que ultrapassam a disputa partidária. Por isso, o esvaziamento não deveria ser tratado apenas como uma fotografia ruim de um evento. Pode ser um sintoma.
IRONIA
Se a campanha ainda não conseguiu despertar o interesse do eleitor, e nem mesmo entidades tradicionalmente engajadas conseguem mobilizar seus próprios públicos, talvez os candidatos estejam falando demais entre si e de menos com a sociedade. E há uma ironia nisso tudo: um encontro destinado a cobrar ética e compromisso na política acabou oferecendo outro compromisso involuntário - o de lembrar que, sem participação, até as instituições mais respeitadas correm o risco de falar para uma plateia cada vez menor. A OAB merece mais atenção do que isso. E a política também.
DATAFOLHA
Este cabeça-chata se debruçou sobre a pesquisa Datafolha divulgada nacionalmente e saiu dela com uma impressão incômoda: o brasileiro não está apenas cansado com a corrupção. Está perigosamente se acostumando com ela. É uma diferença brutal.
ANTICORPO
A indignação, que deveria funcionar como anticorpo moral de uma sociedade, parece estar perdendo a validade. O malfeito vai deixando de provocar espanto para ocupar o lugar das coisas desagradáveis que a gente aprende a tolerar. Primeiro escandaliza. Depois irrita. Mais adiante aborrece. Até que, finalmente, vira paisagem.
TOLERÂNCIA
É como aquela goteira no teto que ninguém conserta. No primeiro dia, incomoda. No segundo, coloca-se uma bacia. Depois outra. Passado algum tempo, a família aprende a andar pela sala desviando dos recipientes. A casa continua molhada, mas todos se comportam como se fosse normal. É assim que uma sociedade começa a perder a capacidade de se indignar. E quando o absurdo se transforma em rotina, o problema deixa de ser apenas a existência dos maus políticos. Passa a ser a tolerância dos honestos.
SISTÊMICO
A pesquisa revela algo ainda mais preocupante: a percepção de que a corrupção é sistêmica produz afastamento da política. O eleitor olha para partidos, candidatos e instituições com a desconfiança de quem entra numa loja de usados procurando descobrir onde está o defeito escondido. Já não pergunta apenas quem é o candidato. Pergunta, silenciosamente, qual será a conta depois da eleição.
CANSAÇO
E isso explica, em parte, o distanciamento que se percebe nesta eleição. Nada parecido com 2022, quando a política parecia ter tomado conta da sala, da cozinha, do boteco, da família e até das conversas que ninguém havia autorizado. Naquela eleição, havia paixão, mesmo exacerbado e as vezes agressivos. Agora há cansaço. O eleitor parece ter retirado a política do coração e colocado-a na prateleira das coisas que precisam ser observadas com cautela.
MAIORIA
Há, porém, dois sinais particularmente importantes para os comitês eleitorais. Os homens apontam a segurança como a principal área que precisa ser corrigida pelo futuro governante. As mulheres colocam a saúde no topo da lista. Na saúde, sobretudo, não haverá muito espaço para maquiagem. O detalhe neste universo é que elas são maioria do eleitorado. Isto é significativo.
ARMADILHA
O eleitor quer saber como o candidato pretende enfrentar filas, falta de médicos, demora em exames, hospitais sobrecarregados e atendimento que muitas vezes transforma o cidadão doente em peregrino de repartição pública. E aqui há uma armadilha para quem pretende vencer a eleição vendendo perfume em frasco de remédio.
MESMICE
Não bastará dizer que a saúde será prioridade. Todos dirão. Até o candidato que não sabe onde fica o hospital saberá pronunciar a palavra “humanização” com a solenidade de um ministro da Organização Mundial da Saúde.
EXPERIÊNCIA
As mulheres, que formam parcela decisiva do eleitorado, conhecem a saúde por experiência direta, própria ou familiar. Elas sabem quando a promessa tem substância e quando é apenas maquiagem eleitoral. E há coisas que o marketing consegue esconder de uma pesquisa, mas dificilmente consegue esconder de quem passou horas numa fila de atendimento.
EXPLICAÇÃO
O candidato que quiser falar de saúde terá de apresentar proposta concreta, realizável e, sobretudo, explicar de onde virá o dinheiro para fazê-la funcionar. Porque inaugurar discurso é fácil. Difícil é inaugurar solução. Dizer também que constrói um Heuro é tão fácil quanto prometer os números premiados da mega sena, difícil é entregar a promessa.
VIOLÊNCIA
A segurança também aparece como prioridade e não poderia ser diferente. O cidadão não quer saber apenas quantas viaturas serão fotografadas numa solenidade. Quer poder voltar para casa sem transformar o trajeto em exercício de fé. Mas talvez o dado mais grave da pesquisa esteja além dos números. É a crise de confiança.
PERIGO
Quando o cidadão passa a acreditar que o malfeito faz parte do sistema, perde-se algo maior do que dinheiro público. Perde-se a crença de que as regras servem para alguma coisa. E, quando as regras deixam de produzir confiança, as instituições começam a parecer cenários de uma peça cujo final já foi escrito. É aí que a democracia entra numa zona perigosa.
CAPACIDADE
Porque uma sociedade não precisa apenas de leis contra a corrupção. Precisa conservar a capacidade moral de se indignar contra ela. Sem isso, a lei vira papel, o escândalo vira notícia de uma tarde e o corrupto passa a ser apenas mais um personagem conhecido da paisagem.
APÁTICO
A literatura já nos ensinou que há momentos em que o homem se acostuma até com o absurdo. Kafka talvez não imaginasse que um dia o absurdo teria orçamento, licitação, emenda parlamentar e discurso oficial. O perigo, portanto, não é somente o larápio de dinheiro público. É o cidadão que, depois de tantos escândalos, olha para tudo isso, dá de ombros e diz: “É assim mesmo”. Não, não é. Ou pelo menos não deveria ser.
INCRÉDULO
Porque o dia em que uma sociedade aceitar o errado como natural será também o dia em que começará a achar natural que nada dê certo. E aí não haverá pesquisa eleitoral, candidato salvador ou discurso inflamado capaz de resolver o problema. Uma sociedade que perde a indignação perde, pouco a pouco, a própria humanidade. E talvez esta seja a parte mais assustadora da pesquisa: o eleitor não parece mais furioso. Parece cansado. E eleitor cansado é uma criatura perigosa. Não porque grite. Mas porque pode simplesmente deixar de acreditar.
FEDENTINA
O novo prédio do MP, na avenida Camacho, onde abriga a nova Escola do Ministério Público, embora recém inaugurado, está jogando os dejetos da fossa nas vias pública da capital exalando um mal cheiro para os residentes na avenida. Além de criminoso do ponto de vista ambiental, é desrespeitoso com os transeuntes. O MP é implacável com os danos ambientas – dos outros -, mas com a própria sujeira é leniente.


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