A disputa pelo Governo de Rondônia em 2026 começou antes de começar. O cenário político do estado já vive clima de campanha antecipada, com as pré-candidaturas do senador Marcos Rogério (PL) e do ex-prefeito de Cacoal Adailton Fúria (PSD) protagonizando um embate marcado por críticas públicas, provocações e engajamento muitas vezes radicalizado nas redes sociais. E o terceiro nome relevante do tabuleiro, o ex-prefeito de Porto Velho Hildon Chaves (União Brasil), que por um período manteve postura mais discreta, distante dos atritos diretos e cumprindo agenda nos Estados Unidos, movimento interpretado como estratégia de distanciamento momentâneo do confronto local, abandonou a reserva e passou a distribuir farpas com a mesma desenvoltura dos rivais. O resultado é um estado que discute onças, amantes, cabelos brancos e Miami quando deveria estar discutindo saúde, pedágio e orçamento.
A cronologia das provocações ajuda a entender a escalada. Ainda em abril, um dos episódios mais comentados envolveu o ex-presidente Jair Bolsonaro, mas por iniciativa exclusiva de Adailton Fúria. O ex-prefeito de Cacoal publicou nas redes sociais um vídeo antigo, gravado em 2016, em que aparecia ao lado do ex-presidente, e gravou uma nova mensagem dirigida diretamente a Marcos Rogério, cujo candidato declarado em Rondônia é o próprio senador. Em tom descontraído, mas com carga política evidente, Fúria provocou o adversário com ironia: "A minha esposa já diz que ciúmes de homem é pior que ciúmes de mulher. Marcos Rogério, acalma o seu coração, meu amigo. Para com essa ciumeira". Fúria explicou que a postagem original havia sido feita em formato de "TBT" (recordação), sem qualquer intenção além de relembrar o momento, e aproveitou para alfinetar o passado político do senador, lembrando que, na época do vídeo, Rogério "fazia parte da base da Dilma em Brasília". Chegou a prometer, em tom irônico, que deixaria de publicar a gravação: "Eu vou prometer pra você que eu não vou mais postar esse vídeo. Não vou. Fica tranquilo". Não há registro de que Marcos Rogério tenha, ele próprio, se manifestado publicamente sobre o episódio — a provocação partiu inteiramente de Fúria, e o silêncio do senador reforça um padrão que se repetiria ao longo da pré-campanha: Rogério evita o corpo a corpo direto e, quando reage, o faz por meio de aliados e de veículos de mídia que o apoiam.
No mesmo período, Hildon Chaves inaugurou sua linha de ataque predileta. Em entrevista ao podcast RD Entrevista, apresentado por Vinícius Canova nos estúdios do Rondônia Dinâmica em parceria com o Informa Rondônia, o ex-prefeito da capital reafirmou que Fúria "poderá ser governador um dia", mas cercou o elogio de ressalvas, afirmando que ao adversário "falta cabelo branco ainda, falta um estofo maior". Hildon também criticou a decisão de Fúria de deixar o mandato antes do fim, contrastando os cinco anos e três meses do rival à frente de Cacoal com seus próprios oito anos completos em Porto Velho, e afirmando não achar correto o que chamou de sair pulando mandatos.
Fúria devolveu na mesma moeda, e com juros. Convidado da sétima edição do mesmo RD Entrevista, o pré-candidato do PSD rebateu a crítica sobre a diferença de experiência na gestão de grandes orçamentos com uma comparação direta: "Eu entreguei muito com pouco. E ele entregou muito com muito", acrescentando que quem detém o segundo maior orçamento do estado e não consegue entregar um hospital municipal ao porto-velhense tem alguma coisa errada, e relatando ter telefonado ao próprio Hildon, em 2024, para perguntar se ele conhecia as condições da UPA do Ulysses, sem obter resposta. Em outra frente, em entrevista ao podcast do jornalista Robson Oliveira, Fúria subiu o tom e mandou recado direto, ainda que sem citar nominalmente, ao ex-prefeito da capital: "Tem político que tem plano B. Se perder a eleição, vai para Miami", numa referência interpretada nos bastidores como alusão a Hildon, que possui familiares nos Estados Unidos e viaja com frequência ao exterior, e como estratégia de reforçar a imagem de candidato integralmente comprometido com Rondônia. É significativo, aliás, que os dois nomes tenham chegado a ensaiar, no início das articulações, uma composição conjunta para a disputa, possibilidade que ficou para trás e deu lugar ao embate direto.
Contra Marcos Rogério, Fúria escolheu o flanco mais sensível da candidatura do senador: a concessão da BR-364. O ex-prefeito de Cacoal responsabilizou parte da bancada federal pela concessão da rodovia, criticou diretamente o senador pela ausência nas discussões sobre o contrato e afirmou que houve audiências públicas em que ninguém defendeu o povo de Rondônia, restando à população pagar a conta do pedágio já implantado. Chegou a desafiar Marcos Rogério a pedir desculpas pelo pedágio na BR-364. Também na Rondônia Rural Show, em maio, Fúria criticou Marcos Rogério por não ter experiência em prefeitura e comparou sua gestão em Cacoal à de Hildon Chaves em Porto Velho, declarações vistas como estratégia para polarizar com os adversários, sustentando ainda, em fala considerada provocativa, que realizou mais ações em Cacoal mesmo administrando uma cidade com orçamento significativamente menor que o da capital. O senador, por sua vez, tem evitado o corpo a corpo: Fúria deu suas alfinetadas e Marcos Rogério não respondeu diretamente, fazendo-o por meio de aliados e de veículos de mídia que o apoiam, ao mesmo tempo em que adota linha de defesa focada em afastar sua imagem de decisões impopulares, especialmente quanto à privatização da BR-364, tema de forte repercussão entre os eleitores rondonienses.
O capítulo mais recente, e talvez o mais simbólico, veio em julho. Em entrevista ao jornalista Arimar Souza de Sá, no programa A Voz do Povo, Hildon Chaves afirmou que Adailton Fúria seria uma onça "bem pequenininha" na disputa de 2026, apresentando uma metáfora sobre dois homens que tentavam escapar de uma onça para dizer que sua preocupação seria superar o rival e avançar na disputa. A provocação da "oncinha" não veio isolada: foi precedida, na mesma entrevista, por uma série de críticas de Hildon à administração de Fúria em Cacoal. O ex-prefeito da capital fez questão de marcar a diferença entre as duas trajetórias, afirmando: "Primeiro, eu completei os meus dois mandatos. Eu não sou um político de carreira. Ele é. Não vejo problema nisso. Tem gente que não gosta do político de carreira. Eu só participei de três eleições". Na sequência, direcionou as críticas à situação administrativa e financeira do município, declarando que Fúria estaria enfrentando problemas no Tribunal de Contas e responsabilizando o ex-prefeito pelas condições financeiras que atribuiu a Cacoal, e chegou a dizer que, como cidadão, pensaria dez vezes antes de depositar o voto nessa pessoa, embora tenha ressalvado tratar-se de amigo pessoal em condição momentânea de adversário. Sobre sua própria gestão na capital, Hildon foi taxativo: "Nunca faltou dinheiro na minha gestão aqui em Porto Velho, nunca faltou dinheiro. Diferente do que está acontecendo em Cacoal, onde o ex-prefeito renunciou para ser candidato ao governo".
Semanas antes, Hildon já havia recorrido a outra metáfora de gosto duvidoso: acusou Fúria de tentar se descolar do governador Marcos Rocha nas redes sociais depois de ter, segundo ele, loteado o governo com pessoas de sua confiança, e comparou a situação à de uma amante, afirmando que, para ir ao restaurante, vai-se com a esposa oficial, mas outras coisas ficam com a amante, concluindo que a candidatura de Fúria é, sim, a continuidade do governo Marcos Rocha. A imagem, de forte ironia e tensão política, joga luz sobre as contradições da aliança e empurra Fúria para a posição incômoda de escolher entre assumir o ônus do governo ou explicar as indicações denunciadas pelos adversários — dilema real, já que o pré-candidato do PSD carrega o desafio de defender a continuidade do legado do governador Coronel Marcos Rocha, herdando a estrutura da gestão e, ao mesmo tempo, o desgaste natural de um governo em fase final.
O que tudo isso produz no eleitor é a pergunta que deveria inquietar os três pré-candidatos. Os números indicam que a plateia acompanha o espetáculo com atenção e já forma juízo. Pesquisa do Instituto Amazônia de Pesquisa realizada entre 19 e 23 de maio, com 1.600 entrevistados em 20 municípios, margem de erro de 2,5 pontos e registro RO-05108/2026, mostrou Marcos Rogério com 35,4% das intenções de voto no cenário estimulado, seguido por Adailton Fúria com 23,2% e Hildon Chaves com 14,3%. Levantamento posterior do instituto Perfil, feito entre 29 de maio e 3 de junho com 1.480 eleitores em 24 municípios, registrado no TRE-RO sob o número RO-05630/2026, confirmou a liderança do senador com 41,3% dos votos válidos e o crescimento de Fúria, com 28,1%, ficando Hildon com 14,7%. Já a pesquisa Veritá, registrada no TRE sob o número 02673/2026 e realizada com 1.220 eleitores, trouxe um dado intrigante: na espontânea, Fúria tinha quase o triplo das intenções de Hildon, mas, na estimulada, os dois apareciam rigorosamente empatados — levantamento que o próprio Fúria contestou publicamente, após sua suspensão judicial, afirmando haver indícios de irregularidades e que alguém pagou a pesquisa com o objetivo de mudar os rumos políticos de 2026, o que precisaria ser investigado. Ou seja, até os números viraram munição.
O diagnóstico da imprensa e dos analistas locais é convergente e preocupante. Nas plataformas digitais, o debate político tem sido substituído, em muitos casos, por ataques pessoais, insinuações e tentativas de desconstrução de imagem, e o uso intensivo das redes sociais como principal arena tende a ampliar o alcance das farpas e consolidar narrativas entre os eleitores, revelando uma disputa altamente polarizada antes mesmo da campanha oficial. Na Rondônia Rural Show, os três principais nomes percorreram os estandes sem se encontrar pelos corredores, mas trocaram farpas nas entrevistas concedidas, com Marcos Rogério falando pouco dos adversários enquanto Hildon e Fúria davam recados mais duros um contra o outro. Há quem pondere que os três principais nomes não são beligerantes a ponto de baixar o nível, e que geralmente a baixaria vem do entorno antes de ser assumida pelas campanhas — observação que funciona menos como consolo e mais como prognóstico. E há, sobretudo, um alerta que nenhum dos três parece disposto a ouvir: a população observa, cada vez mais irritada com uma classe política que parece ter descoberto tarde demais que o maior cabo eleitoral negativo de 2026 talvez não seja um adversário, mas as cancelas instaladas ao longo da BR-364.
Este editorial não pretende exigir assepsia do debate político. O contraste é da essência da democracia, e algumas das farpas trocadas carregam, no fundo, questões legítimas: a experiência administrativa importa ou não para governar um estado; renunciar a mandatos no meio do caminho é pragmatismo ou desapreço pelo voto recebido; a continuidade de um governo impopular é herança ou fardo; a omissão parlamentar diante de uma concessão rodoviária que encareceu a vida do rondoniense deve ou não ser cobrada nas urnas. O problema é a embalagem. Quando a crítica à situação fiscal de Cacoal vem embrulhada na metáfora da onça pequenininha, quando o questionamento sobre o loteamento de cargos vem vestido de piada sobre amantes, quando a cobrança por compromisso com o estado vira insinuação sobre Miami, o conteúdo se perde e sobra o ruído. O eleitor memoriza a frase de efeito e esquece o mérito, e os pré-candidatos, todos eles, saem menores do que entraram. Cresce a percepção de que tanto Marcos Rogério quanto Adailton Fúria terão de enfrentar cobranças constantes sobre seus históricos, alianças e posicionamentos, e o mesmo vale para Hildon Chaves, cujas metáforas de julho o retiraram definitivamente da posição de observador distante. Em ambiente de alta exposição e pressão pública, os pré-candidatos deverão ser cobrados a esclarecer contradições, responder críticas e apresentar propostas concretas. Rondônia merece que a disputa de 2026 seja decidida pelo que cada um pretende fazer com o Palácio Rio Madeira, e não pela farpa mais compartilhável da semana. Até aqui, porém, o que se vê é um ringue montado antes do palanque — e um eleitorado que, entre uma provocação e outra, segue esperando alguém falar com ele, e não apenas contra o adversário.


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