PORTO VELHO, RO - O deputado estadual e delegado da Polícia Civil Rodrigo Camargo, do Podemos, afirmou que o atual Governo de Rondônia é “péssimo em todas as áreas” e sustentou que a próxima administração estadual poderá encontrar um cenário de “terra arrasada”. Pré-candidato a vice-governador na chapa liderada pelo senador Marcos Rogério, do PL, Camargo concentrou parte expressiva de sua participação no podcast RD Entrevista em críticas ao governador Marcos Rocha, às políticas estaduais de saúde, segurança, assistência social, infraestrutura e transparência.
Durante a conversa conduzida pelo jornalista Vinícius Canova, do Informa Rondônia, nos estúdios do Rondônia Dinâmica, Camargo disse que não considera os problemas da atual administração restritos a uma única secretaria. Ao justificar por que aceitou participar de uma composição para disputar o Poder Executivo, o parlamentar afirmou enxergar deficiências generalizadas na estrutura estadual.
“O atual governo é um governo péssimo em todas as áreas. Você vai para a segurança pública, não teve concurso para a Polícia Militar, nem para a Polícia Civil, nem para a Polícia Penal. Você vai para a saúde, eu propus a CPI da Saúde e só tem a minha assinatura lá”, declarou.
Camargo afirmou que as dificuldades enfrentadas pela população na rede estadual de saúde podem ser percebidas nas filas por procedimentos básicos. Segundo os números apresentados pelo deputado durante a entrevista, aproximadamente 10 mil pessoas aguardariam a realização de endoscopia e outras 17 mil estariam à espera de eletrocardiograma, etapa anterior a uma eventual consulta com cardiologista.
“Será que somente eu estou vendo que tem 10 mil pessoas aguardando um exame de endoscopia? Será que somente eu estou vendo que hoje tem 17 mil pessoas aguardando um exame de eletrocardiograma, apenas para depois, sabe-se lá quando, conseguir uma consulta com o cardiologista?”, questionou.
O deputado também descreveu o percurso enfrentado por pacientes do interior que necessitam de atendimento ortopédico. Como exemplo, citou uma pessoa que sofra um acidente de motocicleta em Cabixi. De acordo com Camargo, o paciente seria levado de ambulância por aproximadamente mil quilômetros até Porto Velho, poderia permanecer no chão do Hospital e Pronto-Socorro João Paulo II enquanto aguardasse regulação e, posteriormente, ser encaminhado a Guajará-Mirim, onde o Estado manteria contrato para cirurgias ortopédicas.
Camargo sustentou que a demora entre o acidente e o procedimento pode fazer com que a fratura comece a se consolidar de forma inadequada, exigindo uma nova intervenção durante a cirurgia. Ele também mencionou os gastos e as dificuldades enfrentadas pelos familiares que precisam acompanhar o paciente durante o deslocamento e o período de internação.
Na área da assistência social, o pré-candidato estabeleceu uma comparação entre os orçamentos estaduais de 2017 e 2026. Segundo ele, Rondônia contava com um orçamento aproximado de R$ 7 bilhões em 2017 e destinava R$ 6 milhões a políticas voltadas às pessoas em situação de vulnerabilidade. Para 2026, com um orçamento próximo de R$ 18 bilhões, o valor reservado para essa finalidade seria de R$ 1,9 milhão.
“Rondônia não apenas parou no tempo nesses últimos oito anos. Rondônia retrocedeu quase uma década. Em 2017, o Estado tinha um orçamento de aproximadamente R$ 7 bilhões e separou R$ 6 milhões para pessoas em situação de vulnerabilidade. Em 2026, com um orçamento de aproximadamente R$ 18 bilhões, separou R$ 1,9 milhão. Ou seja, diminuiu 60% o investimento nessa pasta, mesmo tendo um orçamento quase três vezes maior”, afirmou.
Ao apresentar essa comparação, Camargo incluiu entre o público atendido pela área pessoas com deficiência, população em situação de rua, grupos ligados à diversidade racial e pessoas envolvidas com drogas. Para o parlamentar, a redução demonstraria uma alteração nas prioridades da administração estadual.
“É um governo que não olha mais para as pessoas. É um governo que olha para contratos. É um governo que olha para CNPJ. Estão terceirizando tudo. A gente precisa resgatar esse olhar humano do Governo do Estado”, disse.
Camargo também dirigiu críticas ao Departamento Estadual de Estradas de Rodagem e Transportes. Ele afirmou que, nos últimos oito anos, o órgão teria executado aproximadamente 150 quilômetros de pavimentação nova, média que calculou em cerca de 20 quilômetros por ano.
“Como uma secretaria de um Estado como Rondônia, com R$ 18 bilhões, consegue fazer asfalto novo em apenas 150 quilômetros? É uma média de 20 quilômetros por ano, pouco mais de um quilômetro por mês”, declarou.
Segundo o deputado, o DER teria aproximadamente 1,4 mil servidores, sendo cerca de 500 concursados e 900 ocupantes de cargos comissionados. Camargo classificou essa proporção como demonstração de ineficiência administrativa e afirmou que a estrutura teria se transformado em um espaço de indicações políticas.
O parlamentar também acusou o governo de adotar medidas incompatíveis com a transparência prometida à população. De acordo com ele, informações relacionadas às viagens internacionais do governador e das comitivas que o acompanhavam foram submetidas a sigilo por até dez anos.
“O governador Marcos Rocha fez exatamente o que o Governo Federal do Lula fez: colocou sob sigilo, por até dez anos, os gastos dele com viagens internacionais e das comitivas que o acompanham. O dinheiro público ficou sob sigilo”, afirmou.
Camargo relatou que encaminhou questionamentos formais sobre o assunto e que o governo posteriormente alterou a medida por meio de um decreto. Ele disse ter votado contra a proposta e argumentou que a população e os deputados deveriam ter acesso aos nomes dos integrantes das viagens, aos valores pagos em diárias, às fontes utilizadas para custear as despesas e aos resultados obtidos para Rondônia.
Na educação, o deputado mencionou uma mobilização de profissionais que foram ao Centro Político-Administrativo buscar realinhamento salarial e valorização. Segundo Camargo, a polícia foi chamada para acompanhar a manifestação, tratamento que ele comparou à abordagem destinada a criminosos.
Ao falar sobre segurança pública, área na qual construiu sua carreira profissional, o delegado afirmou que organizações criminosas conquistaram espaços dentro e fora das unidades prisionais. Entre os episódios mencionados, Camargo citou a execução de um motorista de aplicativo supostamente gravada por um tribunal do crime, ameaças contra empresários do Cone Sul, consumo de cocaína em escolas e áreas de Porto Velho nas quais moradores precisariam baixar os vidros dos veículos e se identificar para entrar.
O parlamentar relatou o caso de um proprietário de provedor de internet que, segundo ele, teria recebido uma exigência para entregar 30% do faturamento a uma organização criminosa. Após a recusa, a empresa teria sido incendiada e sua rede de fibra óptica, danificada.
“O Estado e as forças policiais precisam recuperar os territórios que as facções criminosas tomaram, seja na sociedade, seja dentro dos presídios, porque estão comandando o crime de dentro das unidades prisionais do Estado de Rondônia”, declarou.
Apesar de sua atuação como delegado, Camargo afirmou que não existe acordo para que ele assuma a Secretaria de Estado da Segurança, caso a chapa de Marcos Rogério seja eleita. Segundo o pré-candidato, a vice-governadoria permitiria uma atuação mais ampla, com acompanhamento de diferentes secretarias e participação no processo de tomada de decisões.
“Não tem nada combinado. Eu não tenho pretensão alguma de exercer essa função. Acho que o meu papel na vice-governadoria é ajudar o governador Marcos Rogério no processo de decisões”, explicou.
O deputado acrescentou que assumir uma única pasta reduziria sua capacidade de acompanhar áreas que considera igualmente importantes, especialmente as políticas para pessoas com deficiência. Camargo afirmou ser pai de uma pessoa com deficiência e marido de uma mulher diagnosticada com autismo e altas habilidades. Segundo ele, o filho também possui deficiência intelectual.
A experiência familiar, conforme relatou, influenciou a atuação parlamentar em defesa das famílias atípicas. Camargo afirmou que estudantes com deficiência devem contar com monitor em sala de aula, cuidador no pátio e plano de ensino individualizado.
A pré-candidatura a vice-governador também foi abordada em razão das diferentes possibilidades eleitorais discutidas anteriormente. Camargo afirmou que seu projeto inicial era disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados, mas que as conversas realizadas ao longo do período indicaram que poderia contribuir de maneira mais efetiva em uma candidatura ao Executivo estadual.
Segundo ele, não houve briga com outros integrantes do grupo político. O deputado afirmou que as decisões foram discutidas pessoalmente e classificou como fofocas as versões de que existiria uma disputa interna.
“Houve fofocas, que fazem parte da velha política, dizendo que teria havido uma briga. Isso não aconteceu. Foi algo conversado, dialogado, olho no olho, sem problema algum”, afirmou.
Camargo declarou que não possui um “projeto de poder” e que aceitou a posição de pré-candidato a vice por entender que poderia ajudar a impedir a continuidade do atual grupo no comando do Estado. Ao ser questionado sobre o risco de abandonar uma reeleição considerada competitiva para disputar o Executivo, ele afirmou que não entrou na política para preservar cargos ou buscar vantagens pessoais.
“Eu não vim para a política para ficar rico. Eu não vim para a política para ter poder. Eu vim para servir as pessoas. Quando você vem com o espírito de servir, não importa se vai servir no Parlamento, no Executivo ou em outra função”, declarou.
Vinícius Canova também questionou se a composição com Marcos Rogério poderia reproduzir uma divisão de papéis na qual Camargo concentraria os ataques ao governo, enquanto o senador apresentaria propostas e evitaria repetir o comportamento eleitoral de 2022. O deputado rejeitou a interpretação e afirmou que nenhuma estratégia dessa natureza havia sido combinada.
“Não há nenhuma divisão de papéis aqui, porque não somos atores que querem aparentar algo que não são. Nós somos preocupados, de fato, com o destino do nosso Estado”, respondeu.
Camargo afirmou que acompanha a execução orçamentária, os gastos das secretarias e os indicadores de diferentes áreas. Segundo o deputado, sua contribuição à chapa de Marcos Rogério seria fornecer dados e informações que ajudassem na tomada de decisões.
Ao avaliar a situação administrativa que poderá ser encontrada pelo próximo governador, Camargo empregou uma das expressões mais duras da entrevista.
“Se no ano que vem nós estivermos no Executivo, ou se, pela vontade de Deus, estiver outro candidato, o cenário que será encontrado será de terra arrasada. Por ineficiência, o atual Governo do Estado tem muitos, mas muitos déficits para serem corrigidos”, declarou.
Questionado sobre a possibilidade de disputar protagonismo com Marcos Rogério durante uma eventual gestão, Camargo afirmou respeitar a experiência do senador. Ele observou que possui aproximadamente três anos e meio de atuação política, enquanto Marcos Rogério já exerceu mandatos de vereador, deputado federal e senador, além de ter disputado anteriormente o Governo de Rondônia.
Camargo disse que o senador reconheceu erros cometidos na campanha de 2022, especialmente a dificuldade de dialogar, e afirmou perceber uma mudança de comportamento. Segundo ele, Marcos Rogério atualmente realiza uma escuta mais ativa nas conversas com aliados e representantes políticos.
“O Marcos Rogério está preparado para governar o Estado de Rondônia. Ele mesmo fala que, nas últimas eleições, perdeu para ele próprio, porque deixou de dialogar. Ele amadureceu”, afirmou.
O pré-candidato assegurou que pretende atuar como auxiliar e não disputar espaço com o titular da chapa. Ele também disse que comentários sobre um suposto desejo de protagonismo tentariam atingir sua vaidade, mas declarou não possuir essa motivação.
Em outro momento, Canova perguntou se a aliança formada ao redor de Marcos Rogério não seria excessivamente conservadora e se haveria espaço para diálogo com setores de centro. Camargo respondeu que governar exige conversar com diferentes correntes políticas.
Como exemplo, citou a postura do prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, ao receber o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante a apresentação de recursos federais destinados à construção ou aquisição de um hospital municipal. Camargo afirmou que, embora seja contrário à reeleição de Lula, uma eventual gestão estadual formada por ele e Marcos Rogério buscaria verbas federais.
“Dinheiro público não tem cara de partido nem de ideologia. Não existe dinheiro de esquerda, de direita ou de centro. O dinheiro é meu, é seu, é de todos nós”, declarou.
O deputado acrescentou que, caso Lula permanecesse na Presidência, Marcos Rogério e ele iriam a Brasília solicitar recursos destinados a Rondônia, apesar das divergências políticas.
“Pode ter certeza de que, se for preciso, o governador Marcos Rogério e o Camargo irão até o Governo Federal pedir recursos para investimentos no Estado, porque, acima de tudo, Rondônia tem que estar em primeiro lugar”, afirmou.
Camargo também explicou por que deixou a carreira policial para ingressar na política. Ele relembrou um episódio ocorrido em 2021, quando exercia a função de delegado regional e recebeu a presidente de uma Apae. Duas baterias do ônibus utilizado para transportar crianças haviam sido furtadas, e a instituição não possuía recursos para adquirir novos equipamentos.
Como delegado, Camargo determinou buscas em pontos de venda de objetos usados e verificou a possibilidade de emprestar baterias apreendidas cujos proprietários não haviam sido identificados. Segundo ele, essa foi a solução possível dentro das atribuições da Polícia Civil.
Depois de assumir o mandato parlamentar, afirmou ter destinado 100% de suas emendas individuais às Apaes, em um total aproximado de R$ 5 milhões. O recurso inicialmente permitiria a aquisição de 38 veículos adaptados, um para cada unidade no Estado. Com o rendimento do dinheiro durante a tramitação do processo, teria sido comprado um 39º automóvel.
“O máximo que a minha caneta de delegado conseguiu fazer foi emprestar duas baterias velhas para as Apaes. Assim que entrei como deputado, peguei 100% das minhas emendas individuais e mandei para as Apaes. Compramos 39 veículos zero quilômetro adaptados”, relatou.
Camargo apresentou o episódio como explicação para sua preferência pelo exercício do mandato. Para ele, a mesma pessoa, com a mesma intenção, pode alcançar resultados mais amplos quando possui instrumentos orçamentários e legislativos.
O deputado também atribuiu parte de sua atuação à equipe formada no gabinete. Segundo ele, após assumir o mandato, publicou um edital para receber currículos de interessados em trabalhar na estrutura parlamentar. Aproximadamente 500 pessoas teriam participado do processo, que incluiu análise técnica, entrevistas e levantamento da vida pregressa dos selecionados.
Camargo declarou que, quando atuava como delegado, foi apontado em 2022 por um levantamento do site Delegados.com.br como o melhor delegado do Brasil na categoria destaque. Já como deputado, afirmou ter sido indicado pelo site Esplanada como o parlamentar estadual mais produtivo do país, a partir da análise de proposições, requerimentos, indicações e outras atividades legislativas.
O pré-candidato atribuiu os resultados ao trabalho das equipes e afirmou que a capacidade de selecionar pessoas seria uma de suas contribuições para uma eventual administração estadual.
Na Assembleia Legislativa, Camargo disse manter relações pessoais respeitosas com diferentes parlamentares, mas afirmou que não deixa de adotar posições isoladas quando considera necessário. Ao comentar uma discussão com o deputado Jean de Oliveira, declarou que o parlamentar e o pai haviam sido condenados por corrupção. Em seguida, diferenciou convivência institucional de concordância política.
Camargo também disse ter sido o único deputado a votar contra uma medida que, em sua avaliação, beneficiaria a Energisa por meio do perdão de uma dívida bilionária. Reafirmou ainda que foi o único parlamentar a assinar a proposta de abertura da CPI da Saúde.
“Eu fui o único deputado que se manifestou contra esse absurdo de beneficiar a Energisa com perdão de dívida bilionária. Eu fui o único deputado a assinar uma CPI da Saúde. Então, eu prefiro caminhar sozinho a ter que ir mal acompanhado”, afirmou.
Na parte final do programa, o deputado pediu que os eleitores pesquisem o histórico dos candidatos, verifiquem eventuais denúncias, envolvimento em compra de votos e outros registros antes de decidir em quem votar. Camargo afirmou que a população passou a associar a atividade política à corrupção, ao enriquecimento com recursos públicos e à prática de rachadinha, mas defendeu que o eleitor não abandone a esperança de mudança.


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