Em novo sinal de irritação com o Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta sexta-feira (19) que o governo iraniano "não receberá nenhum dinheiro", após os dois países assinarem o acordo de paz, que prevê compensação financeira a Teerã.
Ele disse que os EUA "cumprirão os 60 dias", em referência ao prazo estipulado para as negociações posteriores ao acordo, sobre o programa nuclear iraniano. E negou ainda ter agido "em desespero", como disse, na quinta-feira (18), o líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei.
Khamenei afirmou que "o presidente dos Estados Unidos, por desespero, usou todo tipo de alavancas" para conseguir um acordo com o Irã.
"Não nos reunimos por desespero, foi o Irã que fez isso. Eles estão ACABADOS! Vamos cumprir os 60 dias. Eles não recebem um centavo, nem um centavo!", disse o presidente norte-americano em uma postagem em sua rede social Truth Social.
Uma das cláusulas do acordo determina a criação de um plano de reconstrução e desenvolvimento econômico do Irã com "valor mínimo de US$ 300 bilhões" e determina que os EUA desenvolverão o plano "junto de seus parceiros regionais" — os países do Golfo Pérsico (leia mais sobre os pontos do acordo abaixo).
A declaração de Trump não foi o único indício de que o acordo pode ruir, dois dias após ser firmado por EUA e Irã:
Na quinta-feira (18), Trump já havia afirmado que os EUA não pagarão o valor de US$ 300 bilhões (cerca de R$ 1,5 trilhão) para ajudar na reconstrução do Irã. O valor é mencionado no texto do acordo;
Também na quinta, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, desistiu de ir à primeira rodada de negociações sobre o programa nuclear iraniano, previstas no acordo, que ocorreria na Suíça. Depois, o governo suíço disse que o encontro entre negociadores dos EUA e de Irã não ocorreria mais;
Nesta sexta, Israel atacou alvos no Líbano, apesar de o acordo prever o fim das hostilidades no país. Segundo o governo libanês, o ataque deixou 18 mortos.
Recado de Trump
Também na quinta-feira, o presidente norte-americano enviou um recado ao aliado Israel para que cumpra o cessar-fogo previsto no acordo de paz que firmou com o Irã. Trump disse esperar "um cessar-fogo completo em todas as frentes, incluindo Líbano, Hezbollah e Israel", em uma postagem em sua rede social Truth Social.
"Encorajamos todos na região do Oriente Médio a manterem seu compromisso de permitir que nossas negociações se desenvolvam da melhor forma possível", escreveu Trump.
Pontos do acordo
O acordo assinado por Estados Unidos e Irã para encerrar a guerra no Oriente Médio foi divulgado oficialmente na quarta-feira (17). O documento tem 14 pontos e inclui garantias de que Teerã nunca terá armas nucleares, a suspensão de sanções norte-americanas contra o país e uma compensação financeira ao governo iraniano.
Veja abaixo os 14 pontos e leia a íntegra ao final da reportagem:
EUA e Irã declaram o fim imediato e permanente da guerra em todas as frentes, incluindo no Líbano, e se comprometem a não iniciar qualquer conflito um contra o outro e a garantir a integridade territorial e soberania libanesa;
EUA e Irã se comprometem a respeitar a soberania e integridade territorial um do outro e a não interferir nos assuntos internos um do outro;
EUA e Irã se comprometem a conduzir negociações para alcançar um acordo final em até 60 dias, com prazo prorrogável mediante consentimento mútuo;
EUA suspenderão seu bloqueio naval ao Irã e retirarão suas forças militares da região ao redor do Irã em até 30 dias após a assinatura do memorando;
Irã reabrirá o Estreito de Ormuz em até 30 dias e se compromete a garantir passagem segura e sem custos de navios comerciais por 60 dias. O Irã também dialogará com o Omã e outros países do Golfo Pérsico sobre a futura administração do estreito;
EUA se comprometem, junto com seus parceiros regionais, a criar um programa para reconstrução e desenvolvimento econômico do Irã, com financiamento mínimo de US$ 300 bilhões;
EUA se comprometem a encerrar todos os tipos de sanções contra o Irã, incluindo resoluções do Conselho de Segurança da ONU, resoluções do Conselho de Governadores da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e todas as sanções unilaterais americanas;
Irã reafirma que não produzirá nem adquirirá armas nucleares, e ambas as partes concordam em tratar da diluição do urânio enriquecido por meio de mecanismo acordado e com supervisão da AIEA. EUA e Irã também concordam em discutir o tema do enriquecimento e outras questões nucleares no futuro;
EUA e Irã concordam em manter o status quo atual até chegarem a um acordo final: o Irã manterá sua atual política nuclear; os EUA não vão impor novas sanções nem aumentarão sua presença militar no Oriente Médio;
EUA se comprometem a permitir que o Irã comercialize seu petróleo e produtos petroquímicos;
EUA se comprometem a liberar totalmente todos os ativos e fundos iranianos que estavam congelados ou restringidos pelas sanções;
Ambas as partes concordam em estabelecer um mecanismo de implementação para supervisionar a execução deste memorando e a futura adesão ao acordo final;
Após a assinatura e início da implementação das cláusulas 1, 4, 5, 10 e 11, as negociações sobre o acordo final se concentrarão exclusivamente nas demais cláusulas;
O acordo final será ratificado por meio de uma resolução vinculante do Conselho de Segurança da ONU em até 60 dias.
Presidente dos EUA, Donald Trump, fala com jornalistas em Paris, em 17 de junho de 2026. — Foto: Reuters/Evelyn Hockstein
Leia abaixo a íntegra do documento:
"Os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irã concordaram conjuntamente e de boa-fé com o seguinte:
Parágrafo 1 – Os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irã, bem como seus aliados na atual guerra, ao assinarem este Memorando de Entendimento (ME), declaram o encerramento imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano, e comprometem-se, a partir deste momento, a não iniciar nenhuma guerra nem qualquer operação militar entre si, a abster-se da ameaça ou do uso da força um contra o outro e a garantir a integridade territorial e a soberania do Líbano. O acordo final confirmará o encerramento permanente da guerra em todas as frentes, incluindo o Líbano, bem como as demais disposições deste parágrafo.
Parágrafo 2 – Os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irã comprometem-se a respeitar a soberania e a integridade territorial um do outro e a abster-se de interferir nos assuntos internos da outra parte.
Parágrafo 3 – Os Estados Unidos da América e a República Islâmica do Irã comprometem-se a negociar e alcançar um acordo definitivo no prazo máximo de 60 dias, prorrogável mediante consentimento mútuo.
Parágrafo 4 – Imediatamente após a assinatura deste ME, os Estados Unidos da América começarão a suspender seu bloqueio naval e qualquer perturbação ou obstáculo imposto à República Islâmica do Irã, e encerrarão completamente o bloqueio naval no prazo de 30 dias. Durante esse período, o tráfego de embarcações será proporcional ao volume de movimentação existente antes da guerra que venha a ser restabelecido pela República Islâmica do Irã. Os Estados Unidos da América comprometem-se ainda a retirar suas forças das proximidades da República Islâmica do Irã no prazo de 30 dias após a assinatura do acordo final.
Parágrafo 5 – Após a assinatura deste ME, a República Islâmica do Irã adotará medidas, empregando todos os esforços possíveis, para garantir a passagem segura de navios comerciais, sem qualquer cobrança e apenas durante 60 dias, do Golfo Pérsico para o Mar de Omã e vice-versa. O tráfego de navios comerciais será retomado imediatamente e — considerando a necessidade de remover obstáculos técnicos e militares, bem como realizar operações de desminagem pela República Islâmica do Irã — estará plenamente restabelecido no prazo de 30 dias. A República Islâmica do Irã iniciará um diálogo com o Sultanato de Omã para definir a futura administração e os serviços marítimos no Estreito de Ormuz, em consulta com os demais Estados costeiros do Golfo Pérsico, em conformidade com o direito internacional aplicável e com os direitos soberanos dos Estados costeiros do Estreito de Ormuz.



Comentários
Seja o primeiro a comentar!