A morte de Humberto da Silva Guedes, ocorrida nesta quinta-feira (18), em Brasília (DF), aos 103 anos, encerra um dos capítulos mais importantes da história política e administrativa de Rondônia. Ex-governador do então Território Federal de Rondônia entre 1975 e 1979, o coronel do Exército foi um dos principais responsáveis por estruturar as bases institucionais, urbanas e administrativas que permitiriam, poucos anos depois, a transformação do território no mais novo estado da Federação brasileira. Seu legado permanece presente na organização dos municípios, no planejamento territorial e em diversas instituições públicas que ajudou a consolidar.
Nomeado pelo presidente da República, o general Ernesto Geisel, em um período marcado pela expansão da fronteira agrícola e pela intensa migração para a Amazônia, Humberto Guedes governou Rondônia em um momento decisivo de sua formação histórica. Reconhecido por contemporâneos e estudiosos como o governante que “plantou as bases do Estado”, sua gestão foi marcada pelo planejamento de cidades, pela organização administrativa do território e pela construção dos alicerces que sustentariam o processo de emancipação política concretizado em 1981. Com sua partida, Rondônia se despede de uma de suas figuras mais emblemáticas, cuja trajetória se confunde com a própria construção do estado moderno.
Quando o coronel do Exército Humberto da Silva Guedes assumiu o governo do então Território Federal de Rondônia, em 20 de maio de 1975, a região vivia uma das fases mais decisivas de sua história. Rondônia ainda era um território administrado diretamente pela União, possuía infraestrutura precária, baixa capacidade administrativa e enfrentava os desafios provocados pelo intenso fluxo migratório que chegava à Amazônia impulsionado pelos projetos de colonização federal.
Naquele momento, o Brasil vivia o período do regime militar, sob a presidência do general Ernesto Geisel. O governo federal buscava integrar a Amazônia ao restante do país por meio de grandes projetos de ocupação territorial, abertura de estradas e incentivos à agricultura. A BR-364 transformava-se no principal eixo de desenvolvimento da região, atraindo milhares de migrantes do Sul, Sudeste e Nordeste em busca de terras e oportunidades.
Foi nesse cenário que Humberto Guedes iniciou uma administração que, anos depois, seria reconhecida por historiadores e estudiosos como uma das mais importantes para a futura transformação de Rondônia em estado.
Nomeado pelo presidente Geisel, Humberto Guedes governou Rondônia até abril de 1979. Seu mandato coincidiu com um período de planejamento intenso e de construção institucional. Diversos pesquisadores e antigos integrantes de sua equipe afirmam que foi durante sua gestão que se iniciou, de forma organizada, a preparação da estrutura administrativa necessária para que Rondônia deixasse a condição de território federal.
O economista Sílvio Persivo, que integrou a equipe de planejamento daquele governo, chegou a afirmar que Guedes foi quem "começou a estruturar o Estado", reunindo especialistas, economistas, urbanistas e técnicos para pensar o desenvolvimento de longo prazo da região.
Entre os profissionais convidados para colaborar com esse planejamento estavam especialistas de universidades brasileiras e até mesmo o renomado geógrafo Milton Santos, que participou de estudos voltados para a organização territorial e urbana de Rondônia.
II A criação dos municípios e a interiorização do desenvolvimento
Uma das marcas mais importantes da administração de Humberto Guedes foi o incentivo à emancipação municipal.
Até meados da década de 1970, Rondônia possuía poucos municípios, aliás, somente dois: Porto Velho e Guajará Mirim, e uma enorme extensão territorial praticamente sem estrutura administrativa local. Guedes compreendeu que a criação de novas unidades municipais era fundamental para garantir governabilidade, serviços públicos e representação política.
Durante sua gestão avançaram os processos que consolidaram municípios estratégicos ao longo da BR-364, como Ariquemes, Ji-Paraná, Cacoal, Pimenta Bueno e Vilhena, localidades que se transformariam posteriormente nos principais polos econômicos do estado.
Ao estimular a municipalização, o governador criava as condições necessárias para uma futura estrutura estadual, uma vez que nenhum território poderia aspirar à condição de estado sem uma rede administrativa minimamente consolidada.
A gestão de Humberto Guedes também ficou marcada por investimentos em infraestrutura pública.
Entre suas realizações estão:
Transformação da Guarda Territorial na futura Polícia Militar de Rondônia;
Construção do quartel da corporação;
Construção da sede do Instituto Médico Legal (IML);
Implantação do primeiro prédio do Tribunal de Contas;
Construção do Fórum Rui Barbosa, que se tornaria a base do futuro Poder Judiciário estadual;
Reforma do Palácio das Secretarias;
Início da Esplanada das Secretarias, em Porto Velho;
Conclusão dos estudos e do projeto da futura Usina Hidrelétrica de Samuel;
Reestruturação da segurança pública territorial.
Essas obras tinham um significado que ultrapassava a simples execução física. Elas representavam a construção das instituições permanentes de um estado que ainda não existia formalmente.
III Agricultura, colonização e crescimento econômico
O governo Guedes coincidiu com a expansão dos projetos de colonização promovidos pelo Incra. Milhares de famílias chegaram ao território para ocupar áreas agrícolas e desenvolver atividades produtivas.
Sua administração apoiou projetos agropecuários, estimulou a abertura de estradas vicinais e buscou integrar economicamente as regiões que surgiam ao longo da BR-364. Programas federais como o Polamazônia encontraram em Rondônia um dos principais espaços de implantação.
Foi nesse período que o território começou a deixar para trás uma economia baseada principalmente no extrativismo e passou a construir uma base agropecuária que, décadas depois, transformaria Rondônia em um dos maiores produtores de carne e grãos da Amazônia brasileira.
A história de Humberto Guedes também é associada à atuação de sua esposa, Gilsa Guedes, lembrada por ações voltadas às famílias mais pobres.
Um dos episódios mais marcantes foi a retirada de famílias de áreas sujeitas a alagamentos para a formação do bairro Meu Pedacinho de Chão, em Porto Velho, iniciativa que se tornou símbolo da política social desenvolvida naquele período.
A atuação da primeira-dama lhe rendeu o reconhecimento popular de "mãe dos pobres", permanecendo na memória de muitos rondonienses que viveram a expansão urbana da capital na década de 1970.
Embora a criação oficial do Estado de Rondônia tenha ocorrido apenas em 22 de dezembro de 1981, durante o governo do coronel Jorge Teixeira de Oliveira, diversos historiadores apontam que as bases administrativas, econômicas e institucionais da transformação foram lançadas por Humberto Guedes.
A própria historiografia regional costuma atribuir a Guedes o papel de quem "plantou o Estado", enquanto Jorge Teixeira teria sido o responsável por conduzir a etapa final do processo de emancipação política.
Quando deixou o governo em 1979, Rondônia já possuía uma estrutura muito mais robusta, municípios em expansão, planejamento territorial em andamento e instituições públicas em formação. Essas condições seriam decisivas para convencer o governo federal de que o território estava preparado para tornar-se a mais nova unidade federativa brasileira.
Passadas várias décadas, o nome de Humberto da Silva Guedes permanece associado a uma fase de transição fundamental da história rondoniense. Seu governo representou a passagem de um território ainda marcado pelo isolamento para uma região que começava a construir sua identidade política, administrativa e econômica.
Se Jorge Teixeira entrou para a história como o governador da instalação do Estado, Humberto Guedes é lembrado por muitos estudiosos como o governante que preparou o terreno, organizou as bases institucionais e lançou os alicerces que permitiram a transformação do antigo Território Federal de Rondônia em Estado da Federação.
Sua trajetória confunde-se com um dos períodos mais importantes da história amazônica: a ocupação, a integração e a construção de Rondônia como a conhecemos hoje.
OBS: O título da coluna “CULTURA & HISTÓRIA EM TRÊS TEMPOS” é uma homenagem ao jornalista Paulo Queiroz.



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