PORTO VELHO, RO - O ex-prefeito de Porto Velho e pré-candidato ao governo de Rondônia, Hildon Chaves, do União Brasil, afirmou em entrevista ao SIC News, da SIC TV, afiliada da Rede Record em Rondônia, que decidiu entrar na disputa estadual impulsionado, segundo ele, pela cobrança popular e pelo reconhecimento recebido após os dois mandatos na capital. Ao justificar a pré-candidatura, relatou episódios em que teria sido abordado por moradores em diferentes pontos de Porto Velho e disse que esse retorno das ruas fortaleceu sua convicção de disputar o Palácio Rio Madeira. Segundo ele, a principal motivação está na possibilidade de transferir ao governo estadual a experiência administrativa acumulada durante oito anos à frente da prefeitura.
A parte mais contundente da entrevista concentrou-se nas críticas à situação da saúde pública estadual, especialmente ao Hospital e Pronto-Socorro João Paulo II e à não concretização do chamado Heuro (Hospital de Urgência e Emergência). Ao tratar do tema, Hildon disse acompanhar o problema do João Paulo II “há muitos anos”, desde o período em que atuava como promotor de Justiça na área da saúde. Na avaliação apresentada por ele, a manutenção da situação atual se tornou insustentável. Ao comentar o projeto do novo hospital, afirmou que o problema “não foi o modelo, foi a modelagem” e declarou que a intenção do atual governo existia, mas que a equipe teria errado na formulação. Também disse que a unidade não saiu “não por falta de dinheiro, foi por papel”, associando o atraso a entraves burocráticos e não à ausência de recursos.
Ao comentar a escolha do consórcio responsável pelo projeto do Heuro, Hildon também fez críticas diretas à empresa envolvida. Disse que o líder do grupo já havia sido preso quatro vezes e afirmou que chegou a alertar o governo à época. Em tom contundente, declarou: "Eu também conheço picareta, empresário picareta com dois minutos de conversa", associando o episódio a falhas na condução do processo e reforçando que, na avaliação dele, o problema não foi financeiro, mas de modelagem e escolha.
Em outro trecho, foi ainda mais duro ao classificar a situação do João Paulo II como “caos” e “vergonha”, embora, ao mesmo tempo, tenha feito elogios à equipe da unidade, afirmando que médicos, enfermeiros e técnicos realizam “um trabalho extraordinário”.
Ainda sobre a saúde, Hildon mencionou que, em caso de eleição, acredita ser possível entregar o Heuro em dois anos e meio ou, no máximo, em três anos. Durante a mesma resposta, trouxe um relato para reforçar a centralidade do João Paulo II na rede de urgência e emergência. Disse que, se o presidente da República estivesse em Porto Velho e sofresse um acidente grave ou atentado, teria de ser levado para o João Paulo II. Em seguida, classificou esse cenário como um risco para a capital e ampliou a argumentação ao lembrar o caso do advogado Manuel Jurado, baleado durante um assalto, ocasião em que, segundo relatou, o acompanhou até a unidade hospitalar e desaconselhou a remoção para hospital privado em razão da estrutura de urgência e emergência existente no João Paulo. Hildon sustentou que o hospital concentra permanentemente especialidades médicas, mas insistiu que o quadro estrutural do local precisa de solução imediata. Em complemento, lembrou um levantamento feito quando era promotor, segundo o qual havia média de 58 dias de espera para cirurgias de trauma, como fraturas de pernas e braços, ressaltando que não sabia informar a situação atual, mas insistindo que se trata de um problema a ser enfrentado sem demora.
Também em tom crítico, Hildon atacou a situação do pedágio e disse ver pouca capacidade de intervenção jurídica neste momento. Ao comentar a concessão, afirmou que a bancada federal deveria ter atuado “no momento próprio”, durante a modelagem e o acompanhamento do processo licitatório. Em sua fala, chamou atenção para o percentual de deságio concedido, que classificou como mínimo, “de 0,1%”, e afirmou que, em sua experiência administrativa, duvidava da realização de uma licitação relevante “com preço cheio”. Apesar disso, ponderou que o contrato já foi assinado e é válido, motivo pelo qual afirmou acreditar haver pouco a ser feito do ponto de vista jurídico. A crítica política, porém, foi direta: para ele, “a bancada cochilou”. Na sequência, admitiu que, como usuário da rodovia, também sente o impacto financeiro das tarifas, relatando que paga pedágio na ida e na volta sempre que vai à fazenda.
Outro bloco de declarações com forte carga política envolveu os conflitos fundiários e as ações em áreas consideradas reservas. Questionado sobre moradores que estariam sendo expulsos de suas terras, inclusive com casas incendiadas, Hildon respondeu que o país vive uma realidade complexa e usou a frase “até o passado é incerto” para resumir o cenário. Disse que, após episódio recente que classificou como lamentável na região central do estado, houve recuo institucional, mas registrou que plantações foram destruídas e que a situação configurou, em suas palavras, “um desastre”. Hildon relatou ainda ter participado de audiência em Brasília com a presença do Ibama e declarou ter percebido “pouca vontade” de resolver a questão. Como saída, defendeu um caminho político e institucional que envolveria a mobilização da bancada federal, a eventual criação de um instituto de terras e a transferência ao Estado de Rondônia da responsabilidade sobre áreas que hoje seriam devolutas da União. Para reforçar a necessidade de articulação, recordou que, antes de assumir a prefeitura pela primeira vez, promoveu um jantar com a bancada federal e, segundo ele, obteve a maior emenda de bancada da história de Porto Velho até aquele momento, no valor de R$ 120 milhões, há nove anos.
Na agricultura, as declarações também vieram carregadas de crítica ao cenário atual. Hildon afirmou que, depois do governo Cassol, a agricultura familiar teria sido praticamente esquecida. Citou nominalmente o PROMEC, descrevendo o programa como iniciativa que disponibilizava horas-máquina “na porteira dentro” para facilitar o plantio de café e de outras culturas em pequenas propriedades. Também citou o Balde Cheio, programa federal que, segundo ele, foi replicado com intensidade em governos anteriores, especialmente nos dois governos de Ivo Cassol. Na visão do pré-candidato, políticas desse tipo são fundamentais para manter o homem do campo produzindo. No mesmo raciocínio, lamentou o encolhimento da Emater, afirmando que o órgão tem hoje algo em torno de oitocentos técnicos, embora já tenha tido mais de mil e, segundo a intervenção do entrevistador, mais de mil e setecentos. Para Hildon, trata-se de uma contradição em um estado que depende da produção rural. Ainda nesse eixo, afirmou que a pecuária leiteira rondoniense “está morrendo” e disse não ver sentido em o consumidor do estado comprar leite de fora enquanto a cadeia local estaria “absolutamente negligenciada há muitos anos”. Embora tenha dito não se referir a um governo específico, sustentou que o setor vem sofrendo abandono prolongado.
Na área da segurança pública, Hildon também apontou o que chamou de “apagão de soldados”. Segundo ele, as forças de segurança teriam hoje contingentes formados “de cabo pra cima”, sem recomposição das bases operacionais. Disse que é necessário resgatar essa estrutura e defendeu a manutenção de certa equivalência salarial com estados da região, mas evitou assumir promessas numéricas em pré-campanha. Ainda assim, vinculou a possibilidade de valorização das categorias à capacidade operacional do governo, sustentando que, em Porto Velho, a redução de desperdícios e desvios permitiu valorizar servidores e ampliar entregas. No mesmo campo de infraestrutura, afirmou que o Departamento de Estradas de Rodagem terá papel “fundamental” em eventual governo seu e citou a existência de mais de cem pontes de madeira sob responsabilidade estadual, classificando o problema como incompatível com a necessidade de crescimento de Rondônia. Associou a expansão do agro à exigência de infraestrutura mais eficiente e disse pretender conversar com o setor produtivo e visitar Mato Grosso para conhecer modelos adotados naquele estado, sob o argumento de que “ninguém precisa reinventar a roda”.
As críticas se estenderam ainda ao saneamento básico. Hildon declarou ser favorável à privatização do setor e disse que a falta desse serviço empurra os indicadores de qualidade para baixo. Ao comentar o assunto, afirmou que Porto Velho praticamente não tem saneamento básico e que a cobertura é muito reduzida. Na leitura dele, a pauta estaria caminhando no atual governo e poderia estar pelo menos iniciada até o fim do ano.
Em meio às críticas, Hildon também falou de construção de alianças e da composição política de sua pré-candidatura. Disse que a filiação recente ao União Brasil colocou sua candidatura em um partido bem estruturado e citou a aproximação com PP, Republicanos e a possibilidade de entrada do PSDB, seu antigo partido. No plano majoritário, elogiou Mariana Carvalho e Sílvia Cristina, destacando o trabalho da deputada federal na área da saúde e de construção de hospitais. Também falou do deputado estadual Cirone Deiró, apresentado como vice, afirmando que ele é uma unanimidade na região central do estado e que tem capacidade “de sobra” para ser inclusive governador. Em uma das frases mais fortes da entrevista sobre a chapa, declarou que, se o projeto avançar, haverá “praticamente dois governadores”, com Cirone atuando no interior pelo conhecimento que teria de distritos e localidades.
No terço final da entrevista, o tom migrou para observações mais administrativas, políticas e pessoais sobre campanha, equipe e trajetória. Hildon afirmou que, se voltasse ao início da experiência na prefeitura, faria um ajuste na composição de secretarias e adjuntorias, acrescentando nomes mais afeitos à política ao lado de quadros técnicos, por considerar que a ausência de políticos dentro da administração foi um ponto que “pecou um pouco” em sua gestão municipal. Disse que o plano de governo ainda está em elaboração e observou que todos os candidatos tendem a priorizar saúde, educação, segurança e infraestrutura, embora sustente que Rondônia exige atenção especial à infraestrutura e ao setor produtivo.
Ao falar de educação, citou resultados obtidos em Porto Velho, dizendo que, historicamente, a capital figurava entre os últimos lugares entre as capitais brasileiras e que, no último ano de seu mandato, alcançou a quinta colocação. Atribuiu isso a um conjunto de ações, como climatização das salas de aula, reformas e ampliações de unidades e criação de premiações a educadores com melhor desempenho, incluindo passagens com acompanhante para qualquer lugar do país, custeadas pela prefeitura. Também recordou sua ligação com o Grupo Atenas Educacional, mencionando atuação em Rondônia, Acre e Mato Grosso e a existência de 1.300 empregados no grupo, sob presidência de sua esposa, Ieda Chaves, citada em tom descontraído durante a entrevista.
No campo eleitoral, Hildon disse acreditar que o segundo turno deve reunir dois candidatos mais alinhados à direita, embora admita que “em eleições, tudo é possível”. Questionado sobre a possibilidade de a divisão desse campo favorecer um nome da esquerda, afirmou considerar mais provável uma disputa entre dois nomes da direita e disse esperar ser um deles. Sobre apoio de prefeitos, minimizou o peso determinante dessas alianças, sustentando que “os votos são das pessoas, não são dos prefeitos”, ainda que tenha reconhecido a importância de lideranças locais, vereadores e do contato direto com a população. Também afirmou que a repercussão de sua pré-candidatura no interior o surpreendeu e relatou que, depois do anúncio, passou a ouvir que “agora nós temos em quem votar”.
Hildon também abordou a relação com Porto Velho em eventual governo estadual. Ao ser perguntado se ajudaria a capital independentemente do prefeito, respondeu que não haveria dúvida quanto a isso e disse que, eleito, daria apoio ao atual chefe do Executivo municipal. Evitou, no entanto, atribuir nota à gestão de Léo Moraes, sustentando que o sucesso de um governo só pode ser aferido ao fim do mandato, embora tenha declarado acreditar que o prefeito esteja fazendo “um bom trabalho”. Em outra passagem, afirmou manter posição republicana e disse que o cargo de governador existe para cuidar de todo o estado, não apenas de uma cidade ou grupo político.
Na reta final, o ex-prefeito mencionou ainda que sua pré-candidatura tinha menos de duas semanas e afirmou que a notícia de seu lançamento saiu antes da hora, resultado, segundo definiu, de um “vazamento intencional, não intencional”. Disse que, a partir daquela noite, sua vida “não voltou mais a ser a mesma” em razão da repercussão em Rondônia. Ao encerrar, agradeceu ao apresentador, pediu que o acompanhassem pelas redes sociais e reforçou a ideia de que pretende seguir dialogando com a população ao longo da pré-campanha.
DEZ FRASES DE HILDON CHAVES AO SIC NEWS
01) "O problema não foi o modelo, foi a modelagem."
Ao falar do novo hospital, Hildon separou a ideia de contratação em si da forma como ela teria sido estruturada pelo governo e atribuiu ao desenho do projeto o fracasso da iniciativa.
02) "O Heuro não saiu, não foi por falta de dinheiro, foi por papel."
A declaração apareceu quando ele afirmou que os entraves para a construção do hospital não decorreram de ausência de recursos, mas de burocracia e formulação documental.
03) "Eu também conheço picareta, empresário picareta com dois minutos de conversa."
A frase foi usada ao comentar a empresa ligada ao consórcio do Heuro, depois de mencionar que o líder desse grupo já teria sido preso quatro vezes e que ele próprio teria alertado o governo.
04) "Que se justifica você não fazer uma obra por falta de dinheiro, mas não por falta de papel."
Nesse trecho, Hildon reforçou a crítica à condução administrativa do projeto hospitalar e voltou a dizer que a paralisação não se explica, na visão dele, pela falta de verba.
05) "O que não é razoável de maneira nenhuma é nós termos esse caos, essa vergonha."
A fala foi dirigida à situação do João Paulo II, após ele reconhecer a importância do hospital na urgência e emergência e elogiar os profissionais da unidade.
06) "A bancada cochilou."
A afirmação surgiu quando analisou o processo do pedágio e disse que os parlamentares federais deveriam ter atuado durante a modelagem da concessão, antes da assinatura do contrato.
07) "Depois do governo Cassol, praticamente a agricultura familiar, ela foi esquecida."
Hildon usou essa formulação ao defender retomada de políticas públicas voltadas ao pequeno produtor e ao criticar o esvaziamento de programas que, segundo ele, fortaleciam o campo.
08) "A pecuária leiteira hoje está morrendo, está morrendo, isso é lamentável."
A frase apareceu no momento em que ele descreveu a situação da cadeia do leite em Rondônia e reclamou da perda de espaço do setor local.
09) "Até o passado é incerto."
A expressão foi empregada ao comentar os conflitos fundiários e as disputas sobre áreas ocupadas, em meio ao debate sobre expulsões, destruição de plantações e insegurança jurídica.
10) "Nós temos um apagão de soldados."
Hildon resumiu dessa forma o déficit de efetivo nas forças de segurança, dizendo que faltou recomposição das bases e que hoje o contingente estaria concentrado “de cabo pra cima”.



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