PORTO VELHO, RO - O médico Sérgio Basano afirmou, em entrevista ao podcast Resenha Política, apresentado por Robson Oliveira em parceria exclusiva com o Rondônia Dinâmica, que a tecnologia já permite ampliar o alcance da saúde pública em áreas remotas de Rondônia, mas sustentou que o Estado continua convivendo com entraves estruturais, formação médica em expansão sem controle posterior suficiente e uma rede hospitalar pressionada por demandas que, segundo ele, não conseguem mais ser absorvidas com a estrutura existente. Ao longo da conversa, o entrevistado concentrou parte relevante de suas falas em temas sensíveis, como a precariedade do atendimento hospitalar, a demora por cirurgias eletivas, o peso dos acidentes de trânsito sobre o sistema e a abertura crescente de cursos de medicina no país.
Ao tratar da saúde pública, Basano disse que atua há quase três décadas em Rondônia e que sua trajetória profissional esteve ligada ao serviço público, com trabalho no Cemetron, no ambulatório de HIV da prefeitura, na docência e na pós-graduação. Nesse trecho, ele afirmou que a gestão da saúde pública opera sob dificuldades permanentes e descreveu o cargo de secretário de saúde como um dos mais difíceis da administração pública. Questionado sobre convites para assumir a função, declarou que já foi procurado várias vezes, inclusive recentemente, mas disse que essa não é sua área de atuação principal.
No ponto mais sensível da entrevista sobre a estrutura hospitalar, Basano afirmou que Rondônia triplicou sua população em cerca de 30 anos, enquanto o Hospital João Paulo II, segundo ele, remonta ao período da construção da Usina de Samuel. A partir dessa comparação, sustentou que a estrutura física, a quantidade de leitos e o número de profissionais já não acompanham a demanda atual. Ao responder sobre o pronto-socorro da capital, ele reconheceu que houve algum alívio com a divisão de atendimentos para Cacoal, onde, nas palavras dele, o hospital regional passou a funcionar melhor, mas declarou que o cenário continua “muito aquém”. Sem usar adjetivações próprias, o entrevistado relatou que, para quem espera vaga, espaço ou profissional disponível, a situação é “muito ruim”.
A demora para procedimentos eletivos também apareceu como um dos pontos de maior desgaste mencionados na conversa. Basano disse que, a depender do tipo de cirurgia, há casos em que o paciente encontra milhares de pessoas à frente na fila. Na sequência, deslocou o foco do problema para a porta de entrada da emergência e sustentou que o sistema hospitalar, especialmente no pronto-socorro, é consumido por ocorrências ligadas a causas externas, com destaque para acidentes de carro e, sobretudo, de moto. Segundo ele, esse tipo de ocorrência produz forte impacto social e econômico porque atinge, em grande medida, uma população jovem, que muitas vezes morre cedo ou sobrevive com sequelas incapacitantes.
Ainda nesse eixo, o médico afirmou que os casos ortopédicos ligados a acidentes dominam a pressão cirúrgica da rede. Indagado por Robson Oliveira sobre a informação de que 70% dos problemas cirúrgicos do hospital seriam ortopédicos, respondeu de forma direta: “Disparado. Disparado”. Em seguida, explicou que esse peso não decorre apenas do número de mortes, mas também do impacto prolongado sobre a vida produtiva dos pacientes e sobre o orçamento público, já que, conforme relatou, materiais utilizados em cirurgias ortopédicas, como componentes de titânio, elevam o custo da assistência. Na avaliação apresentada por ele, trata-se de uma área que exigiria mais investimento e que, apesar da relevância, acaba ficando em segundo plano.
Basano também relacionou saúde a fatores externos ao atendimento estritamente hospitalar. Ao comentar doenças e agravos na Amazônia, afirmou que a intervenção humana sobre a natureza gera consequências e citou o fenômeno chamado por ele de spillover, ou transbordamento, para descrever situações em que o avanço sobre áreas naturais amplia o contato com vetores e patógenos. Nessa linha, sustentou que a saúde não pode mais ser pensada apenas sob um ponto de vista biológico, mas precisa ser conectada a clima, saneamento, mobilidade e bem-estar. A fala foi inserida no contexto de Rondônia como área amazônica endêmica, onde a malária segue presente, ainda que em patamar inferior ao observado nas décadas anteriores.
Quando o assunto passou da assistência para a formação médica, a entrevista ganhou outro tom de confronto. Basano afirmou que o Brasil saiu de pouco mais de 70 faculdades de medicina, quando ele se formou, para um cenário que, segundo suas palavras, se aproxima de 500 cursos. Ao mesmo tempo em que reconheceu que a oferta anterior era insuficiente para um país extenso e desigual, disse não concordar com o estágio atual, que, em sua visão, assumiu feição comercial. O médico afirmou que o Ministério da Educação mantém critérios objetivos para abertura de cursos, mas declarou que o problema se agrava depois da autorização inicial, porque, sob seu ponto de vista, parte das instituições perde qualidade ao longo do tempo sem sofrer controle equivalente.
O entrevistado foi ainda mais direto ao associar o crescimento do setor a interesses econômicos. Disse que há empresas especializadas em assessorar a abertura de faculdades e afirmou que a medicina se transformou, em muitos casos, em negócio. Em um dos trechos mais contundentes da entrevista, declarou que existe empresa listada na bolsa de valores com dezenas de cursos médicos no país, o que, segundo ele, coloca a formação dentro de um “modo de produção”. Ao comentar os efeitos regionais dessa expansão, observou que municípios do interior passam a desejar cursos de medicina também pelo impacto econômico local, citando o aumento da circulação de renda e até dos aluguéis.
Basano também questionou a eficácia de um dos critérios utilizados na autorização de cursos, o da relação médico-população, quando analisado de forma isolada. Segundo ele, o dado matemático não resolve o problema concreto da fixação profissional. Afirmou que, por muito tempo, a impressão entre médicos da região era a de que mais de 70% dos recém-formados em Rondônia deixavam o Estado, atraídos por mercados maiores, especialmente no Sul e em São Paulo. Disse que hoje percebe algum movimento de retorno, sobretudo de profissionais que saem para subespecializações e depois voltam, mas declarou que a carência permanece em vários pontos, ao mesmo tempo em que o Estado convive com longos períodos sem concurso público para fixação de médicos.
O ensino médico a distância foi outro ponto sensível abordado de forma categórica. Embora tenha dito não ser contra o ensino remoto de maneira geral e reconhecido o papel das aulas teóricas online, Basano afirmou que a medicina não pode abrir mão da dimensão humana, interpessoal e presencial. Para sustentar essa posição, definiu a medicina como ciência e arte, disse que o professor transmite não apenas conteúdo formal, mas também experiência própria e elementos filosóficos da prática, e acrescentou que o contato com o paciente é insubstituível. Na mesma linha, diferenciou o uso da tecnologia para apoiar diagnósticos, triagens e encaminhamentos da ideia de substituição do médico. Ao citar ferramentas de captura de imagem da retina e envio de laudos a especialistas, apontou que a tecnologia pode ampliar a capacidade de resposta da rede, mas não eliminar a presença humana na assistência.
Na parte final da entrevista, o médico foi questionado sobre a proposta de prova para obtenção de registro profissional após a graduação em medicina. Basano declarou que há necessidade de mecanismos regulatórios melhores do que os atuais e afirmou que “alguma coisa tem que ser feita”, mas ponderou que a fiscalização deveria ser mais efetiva ao longo da formação, e não apenas ao fim do curso. Para ele, a eventual prova pode acabar penalizando o estudante sem enfrentar integralmente o problema estrutural da qualidade dos cursos. Na mesma resposta, reforçou que não considera plausível que, diante da abertura de centenas de faculdades, tão poucas tenham sido fechadas, e voltou a defender verificação mais rigorosa sobre corpo docente, experiência de professores e manutenção da qualidade após a autorização inicial.
Antes desse bloco sobre formação e regulação, Basano havia detalhado a experiência que coordena com o professor Luiz Marcelo, pesquisador da Universidade de São Paulo radicado em Monte Negro, dentro de um projeto de telemedicina voltado a comunidades ribeirinhas do Médio Madeira, entre Humaitá e Manicoré. Segundo relatou, a iniciativa já se aproxima de dois anos e foi concebida como projeto piloto para testar, em território remoto, o que a telemedicina efetivamente consegue resolver. Ele explicou que o trabalho foi chamado de híbrido porque, antes das consultas remotas, a equipe foi pessoalmente às comunidades, visitou casas, identificou pacientes com GPS, examinou moradores e permaneceu no local por mais de uma semana, além de retornar periodicamente a cada três ou quatro meses.
A partir dessa base presencial, o projeto passou a funcionar com apoio de agentes comunitários treinados, internet via Starlink, computador instalado em uma antiga escola transformada em unidade de saúde e energia solar fotovoltaica. Basano relatou que, todas as sextas-feiras pela manhã, moradores eram atendidos em tempo real, com ele em Porto Velho e Luiz Marcelo em Monte Negro. O entrevistado afirmou que a telemedicina não resolve tudo e citou, como exemplo, situações extremas de trauma, mas disse que a ferramenta se mostrou útil inclusive em episódios de urgência. Entre os casos narrados, mencionou um paciente com forte dor abdominal em que, com orientação remota a uma agente comunitária treinada, foi possível identificar sinais compatíveis com apendicite, acionar a secretaria de saúde e providenciar transporte fluvial para remoção de uma pessoa que estava a sete horas de barco da central de Humaitá.
Basano também relatou uma frente específica de capacitação para acidentes com animais peçonhentos e afirmou que o Cemetron dispõe dos soros antiofídicos. Segundo ele, a unidade recebe, em média, um acidente com cobra a cada dois dias, além de atender mordidas de animais silvestres, inclusive onça, nos casos em que há necessidade de soro antirrábico. Ao mesmo tempo, destacou que a telemedicina tem grande potencial sobretudo no acompanhamento de doenças crônicas não transmissíveis e no controle continuado de quadros como diabetes, hipertensão e hepatites. Nesse trecho, observou ainda que Rondônia continua registrando casos de hepatite e classificou a hanseníase como uma doença frequentemente invisível, já que muitos pacientes só buscam ajuda quando o quadro está avançado.
Nos minutos finais, a conversa derivou para aspectos pessoais. Basano informou ser paulistano e viver em Rondônia há 31 anos. Disse que gosta da gastronomia amazônica e da gastronomia em geral, mas afirmou que não come carne de porco por questão de religiosidade. O encerramento ainda teve espaço para uma troca descontraída sobre futebol, com referências ao Palmeiras, ao Flamengo e à final da Libertadores em Lima, antes do convite de Robson Oliveira para uma nova entrevista sobre medicina voltada à Amazônia.
FRASES DE BASANO NO RESENHA POLÍTICA:
01) "Tem uma empresa que tá na bolsa de valor que tem quase 40 faculdades de medicina no Brasil, então entra naquele modo de produção mesmo."
A frase foi dita quando Sérgio Basano discutia a expansão dos cursos de medicina e sustentava que a formação médica passou a operar, em muitos casos, sob lógica comercial.
02) "Eu acho que 500 está chegando no número e que eu acho que precisa ter melhores meios de estar fiscalizando, vendo."
A declaração apareceu no momento em que o entrevistado comparou o número atual de faculdades com o cenário da época em que se formou e defendeu maior controle sobre a qualidade dos cursos.
03) "Não é possível que você abriu 500 faculdades de medicina, eu acho que menos de 5 foram fechadas."
Basano usou essa formulação ao questionar a eficiência da fiscalização posterior à abertura dos cursos e ao sugerir que o sistema de controle não acompanha a expansão.
04) "Dependendo do tipo de cirurgia, às vezes tem 10 mil pessoas na frente."
A fala surgiu no trecho em que o médico abordou a fila para cirurgias eletivas e descreveu a demora enfrentada por pacientes na rede pública.
05) "Hoje a estrutura até física, o número de leitos, o número de profissionais não conseguem mais dar conta."
O entrevistado afirmou isso ao comentar a pressão sobre o Hospital João Paulo II e relacionar o crescimento populacional de Rondônia à insuficiência da estrutura disponível.
06) "Disparado. Disparado."
A resposta foi dada quando Robson Oliveira perguntou se a maior parte dos problemas cirúrgicos atendidos no hospital estava ligada à ortopedia, especialmente em razão dos acidentes.
07) "A principal causa de morte no Vale do Jamari é acidente de carro, de acidente automobilístico, principalmente de moto."
Basano fez essa afirmação ao explicar por que considera os acidentes de trânsito um dos maiores fatores de pressão sobre a assistência pública e sobre os indicadores de mortalidade.
08) "A medicina... é uma especialidade humana, não é uma especialidade biológica."
A frase foi usada no debate sobre ensino a distância na formação médica, quando o entrevistado defendeu a centralidade do contato humano e da experiência presencial.
09) "Alguma coisa tem que ser feita."
Basano resumiu assim sua posição sobre a discussão em torno de prova para obtenção de registro médico, ao reconhecer falhas regulatórias e a necessidade de intervenção.
10) "Você consegue sim melhorar a saúde e dá pra ter uma intervenção muito grande."
A fala foi proferida no balanço que fez sobre o projeto de telemedicina em comunidades ribeirinhas, após relatar resultados concretos em acompanhamento e urgências.



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