Publicada em 05/02/2026 às 11h36
A crise dos pedágios da BR-364 entrou, nas últimas semanas, em uma nova fase discursiva. Superada a etapa inicial do empurra-empurra — em que quase toda a bancada federal de Rondônia tentou concentrar em Confúcio Moura a responsabilidade política pela concessão —, o foco agora parece deslocar-se para uma estratégia mais sofisticada: emprestar à bancada uma credibilidade que ela própria não construiu a tempo, usando a Aprosoja como sustentação simbólica.
O movimento é visível nas falas e nos registros públicos do senador Jaime Bagattoli, especialmente a partir do momento em que a Justiça Federal suspendeu a cobrança do pedágio no trecho concedido da BR-364. A decisão judicial, amparada em falhas técnicas na verificação das obras iniciais, passou a ser apresentada como resultado de um esforço conjunto entre entidades do setor produtivo e parlamentares — ainda que o histórico recente da bancada revele mais inércia do que protagonismo preventivo.
Nesse novo enredo, a Aprosoja surge como elemento central. Thiago Rocha, representante da entidade em Rondônia e no Mato Grosso, passou a aparecer de forma recorrente ao lado de Bagattoli, tanto em vídeos quanto em postagens nas redes sociais do senador. Nas falas públicas, Rocha reconhece o papel político da bancada e afirma que a solução definitiva para o impasse “passa pela política”, ressaltando a necessidade de atuação parlamentar, audiências públicas e diálogo com a ANTT. Ao mesmo tempo, destaca que a ação judicial foi construída “a várias mãos”, com apoio de entidades e iniciativas individuais de parlamentares.
É justamente nesse ponto que o discurso começa a tensionar os fatos. A ação civil pública que resultou na suspensão da cobrança teve como protagonistas formais a Aprosoja/RO, a Abiove e, em ações reunidas, o partido União Brasil. O Judiciário apontou inconsistências graves no cumprimento das condicionantes contratuais, no método de vistoria dos trabalhos iniciais e na implantação acelerada do sistema free flow. Nada disso surgiu de última hora. A concessão foi celebrada em 2024, adjudicada em 2025 e acompanhada por meses pela Agência Nacional de Transportes Terrestres. Ainda assim, a reação política consistente só ganhou musculatura depois que a tarifa começou a pesar no bolso da população.
Antes desse rearranjo narrativo, a estratégia predominante era outra: concentrar a responsabilidade em Confúcio Moura, único senador da bancada alinhado ao governo Lula. Pressionado publicamente, o emedebista respondeu jogando a origem do processo no colo do ex-presidente Jair Bolsonaro e de Tarcísio de Freitas, então ministro da Infraestrutura. Confúcio lembrou que a modelagem começou em 2019, passou pela ANTT e pelo TCU, e que decisões dessa natureza não dependem da vontade isolada de um parlamentar. Ao fazer isso, tentou se blindar, mas acabou ainda mais isolado politicamente.
O isolamento foi rapidamente explorado pelo líder da bancada federal, Maurício Carvalho, que declarou que praticamente todos os parlamentares de Rondônia teriam sido contrários ao modelo da concessão, com exceção de Confúcio. A fala buscou absolver a bancada como bloco, deslocando a responsabilidade para o Executivo e, posteriormente, para o Judiciário. Trata-se de uma meia-verdade conveniente: embora o Congresso não delibere formalmente sobre contratos de concessão, a bancada teve acesso ao processo, participou de debates e acompanhou cronogramas, sem conseguir — ou sem priorizar — uma reação eficaz antes do início da cobrança.
É nesse contexto que a Aprosoja passa a cumprir um papel funcional para o discurso político. Ao se colocar lado a lado com a entidade, Bagattoli tenta reconfigurar a narrativa, apresentando a bancada como parte ativa da solução e não como corresponsável pelo atraso na reação. Em suas falas, o senador parabeniza a Justiça, credita o êxito à união entre entidades e parlamentares e projeta novos passos, como audiências públicas e até o uso de emendas de bancada para, no futuro, viabilizar obras sem concessão. O tom é de compromisso e engajamento, mas o tempo da ação contrasta com o tempo dos fatos.
A presença constante de Thiago Rocha nos vídeos reforça essa tentativa de legitimação cruzada. Quando o representante da Aprosoja afirma que os parlamentares ingressaram com ações “com tese muito alinhada” à da entidade e que foram “muito solícitos”, constrói-se a imagem de uma bancada diligente, quase protagonista desde o início. O problema é que a cronologia documentada mostra que as fragilidades do contrato, da vistoria e do free flow só ganharam centralidade política depois que a cobrança já estava em vigor e a indignação popular havia explodido.
Assim, a Aprosoja acaba sendo usada como muleta simbólica: não para inventar fatos, mas para suavizar responsabilidades. A entidade, de fato, atuou juridicamente e levantou questões técnicas relevantes. O que se questiona é o uso dessa atuação para reescrever o papel da bancada, especialmente de seu líder, como se a reação tardia pudesse ser confundida com vigilância constante. Ao se apoiar no capital técnico e social do setor produtivo, parte da classe política tenta atravessar ilesa um episódio marcado por omissões e lentidão.
No fim, o risco desse arranjo discursivo é duplo. Para a política, perpetua-se a lógica de agir apenas quando o desgaste já está instalado, convertendo crise em palanque. Para as entidades, corre-se o perigo de vê-las instrumentalizadas como selo de legitimidade de quem não conseguiu impedir, no tempo certo, que o pedágio fosse cobrado antes das melhorias prometidas. A BR-364 segue como símbolo dessa falha coletiva: uma estrada cara, perigosa e transformada em arena de narrativas, onde a responsabilidade tenta, mais uma vez, se apoiar em muletas alheias para não mancar sozinha.



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