A articulação do PT com partidos de Centro para isolar o PL na Câmara coloca parte da bancada federal de Rondônia diante de uma escolha política. Cristiane Lopes, Maurício Carvalho, Thiago Flores, Joliane Fúria e Jaime Gazola pertencem a legendas que negociam uma composição destinada a sustentar Hugo Motta (Republicanos-PB) no comando da Casa e ampliar a governabilidade de Lula.
O Podemos, de Cristiane e Gazola, o União Brasil, de Maurício e Flores, e o PSD, de Joliane, integram o agrupamento. São partidos de cinco dos oito deputados federais eleitos por Rondônia para a legislatura que começa em 2027. Os outros três — Lúcio Mosquini, Coronel Chrisóstomo e Sofia Andrade — são do PL, justamente a legenda que a articulação pretende afastar do controle da Câmara. A posição dos partidos ainda não confirma como cada deputado votará.
A negociação ocorre após a derrota de Flávio Bolsonaro para Lula no segundo turno. O senador fugiu para os Estados Unidos, onde recebeu autorização para permanecer com a família por um ano. De lá, divulgou uma carta em que se apresenta como “líder do Brasil” e alega, sem apresentar provas, fraude na eleição presidencial. Enquanto Flávio promete comandar a oposição do exterior, seu partido busca preservar espaço nas negociações pelo comando da Câmara.
Na Câmara, o objetivo da composição foi exposto pelo deputado federal Túlio Gadêlha (PSD). Ao anunciar uma aliança que, segundo ele, reuniria 366 deputados, o parlamentar vinculou o bloco à sustentação do presidente e ao isolamento dos liberais.
“Esse bloco vai garantir ao presidente a governabilidade aqui na Câmara. A gente vai isolar o PL que fez uma bancada grande aqui na Câmara.”
Gadêlha também defendeu a aproximação com partidos que pensam de maneira diferente para aprovar projetos. A busca por governabilidade foi apresentada ainda pelo líder do PT, Pedro Uczai (SC), ao anunciar o apoio da federação petista a Motta.
Em Rondônia, esse entendimento encontra um cenário de alianças com o PL. Cristiane Lopes e Jaime Gazola declararam publicamente apoio à eleição de Flávio Bolsonaro. O Podemos também indicou Rodrigo Camargo para vice na chapa vencedora de Marcos Rogério (PL), consolidando a aliança entre o governador eleito e o prefeito de Porto Velho, Léo Moraes, presidente estadual da legenda.
Assim, o mesmo partido que compartilhará o governo estadual com o PL participa, em Brasília, de uma articulação que busca reduzir o espaço nacional dos liberais. Para Cristiane e Gazola, acompanhar a orientação partidária poderá significar integrar um bloco contrário aos interesses de aliados com os quais caminharam na eleição.
Maurício Carvalho também declarou apoio a Flávio. Durante a apuração do segundo turno, gravou um vídeo questionando a decisão sobre a ampliação do horário de votação e atacando o STF.
“Uma decisão monocrática. De apenas um ministro. Que se acha Deus. Que passou por cima de tudo. Que não respeitou a democracia brasileira”, afirmou Maurício.
Thiago Flores, também do União Brasil, fez críticas públicas ao governo Lula e gravou um vídeo contra a decisão do ministro Cristiano Zanin. Na manifestação, questionou como seria possível reabrir urnas após o encerramento da votação.
“É um absurdo o que o advogado do Lula, o que o ministro do STF está promovendo em todo o Brasil”, declarou Flores.
No PSD, a situação exige uma distinção. Entre os registros reunidos para esta análise, não há manifestação de Joliane Fúria sobre a disputa presidencial. Seu marido, Adailton Fúria, candidato derrotado ao governo de Rondônia, publicou apoio a Flávio após o primeiro turno. A posição dele não pode ser atribuída automaticamente à deputada eleita, mas ajuda a retratar o contexto político de seu grupo.
“Estamos na torcida pela gestão do novo governador Marcos Rogério e pela renovação da presidência nacional com Flávio Bolsonaro”, escreveu Fúria.
A disputa nacional também envolve uma proposta de reforma eleitoral. Motta e lideranças de Centro discutem a adoção do voto distrital misto, em uma movimentação que ganhou força após o crescimento do PL e o desempenho de grandes puxadores de votos. A mudança ainda depende de negociação e aprovação no Congresso.
Esses posicionamentos não impedem os parlamentares de apoiar Hugo Motta. A eleição da presidência da Câmara envolve participação na Mesa, comando de comissões e influência sobre a pauta. Um voto em Motta também não representa adesão integral ao governo Lula. A questão política surge porque o acordo é apresentado por seus articuladores como instrumento de governabilidade e de isolamento do PL.
O cenário permanece em negociação. Segundo a CNN Brasil, os próprios liberais estudam uma aproximação com Motta para preservar cargos e comissões, enquanto o PT sinaliza resistência à presença do PL no mesmo bloco. O desenho poderá mudar antes da eleição da Mesa, em 2027.
Essa resistência já foi apresentada diretamente ao presidente da Câmara. Segundo reportagem do jornal O Globo, a bancada petista pediu a Motta que mantenha o PL fora do bloco, durante a reunião de terça-feira (27) que consolidou o apoio do PT à sua recondução. Motta não se comprometeu a excluir os liberais, mas afirmou que consultará os partidos integrantes antes de admitir outra legenda.
Para Rondônia, a resposta dependerá das escolhas de cada representante. Cristiane, Maurício, Flores, Joliane e Gazola acompanharão seus partidos? E os três deputados do PL permanecerão fora ou participarão de uma eventual acomodação? Caberá aos deputados eleitos explicar aos rondonienses como eventuais acordos em Brasília se conciliam com os compromissos assumidos durante a campanha.


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