PORTO VELHO, RO - A candidata ao Senado Neidinha Suruí, do PSB, afirmou ter enfrentado dentro do próprio partido uma situação que classificou como “violência política de gênero” e declarou que não pretende dividir palanque com Expedito Netto. Durante participação no RD Entrevista, apresentado por Vinícius Canova e realizado no Rondônia Dinâmica em parceria com o Informa Rondônia, ela também garante Samuel Costa como seu candidato ao Governo enquanto ele permanecer na disputa, falou sobre financiamento eleitoral, a doação de R$ 100 mil recebida de João Moreira Salles, ameaças de morte, agronegócio, povos indígenas, clima, cultura, turismo e desenvolvimento econômico.
Ao ser questionada sobre o desgaste provocado pelas disputas internas do PSB, Neidinha disse que, apesar de já ter passado por conflitos relacionados à atuação ambiental e indigenista, não estava preparada para enfrentar uma situação semelhante dentro da legenda. “Eu já passei por vários tipos de violência. Quem me conhece sabe que eu sou uma mulher combativa. Já passei por violência com madeireiro que invadia terra indígena, com garimpeiro, com grileiro. Já passei por vários tipos de violência, mas sofrer violência política de gênero é novidade para mim e eu confesso para vocês que eu não estava preparada para isso”, declarou.
A candidata afirmou que o episódio se tornou ainda mais difícil por ter partido, segundo sua avaliação, da direção da própria sigla. “E quando essa violência vem do próprio partido em que você está, é bem difícil de entender essa violência. [...] E aí, de repente, vem da alta cúpula essa violência. Eu não entendi”, afirmou. Neidinha acrescentou que considera esse tipo de situação uma prática que não se restringe ao PSB e passou a relacionar o problema à maneira como mulheres são inseridas nas chapas eleitorais.
Ao aprofundar a crítica, afirmou que candidaturas femininas muitas vezes são tratadas pelas estruturas partidárias como instrumentos para cumprimento de exigências eleitorais. “Nós mulheres somos vistas como cota, nós somos cotas no partido. Cota para garantir que homens concorram, porque, se não tem mulher, os homens não vão concorrer”, disse. Na sequência, questionou até quando mulheres aceitariam esse tratamento e criticou a baixa presença feminina, indígena e negra em espaços institucionais.
A distribuição dos recursos de campanha também foi apresentada pela candidata como parte dessa discussão. Neidinha afirmou que, até aquele momento da entrevista, não havia recebido dinheiro do fundo partidário do PSB e disse que sua estrutura eleitoral estava sendo sustentada por contribuições de apoiadores e por uma campanha de financiamento coletivo. Ao comparar a situação com outros partidos, mencionou casos de candidatos que, segundo ela, receberam valores muito diferentes dentro da mesma legenda.
O financiamento da candidatura levou a entrevista à doação de R$ 100 mil realizada por João Moreira Salles. Questionada sobre a aparente contradição entre críticas feitas por setores da esquerda a bilionários e o recebimento do recurso, Neidinha respondeu de forma direta: “O João, para mim, é um bilionário do bem”. Ela disse conhecer trabalhos de Salles relacionados à Amazônia e afirmou ter procurado pessoalmente o empresário para pedir contribuição à campanha.
Neidinha também relacionou a publicidade das doações à transparência eleitoral. Segundo ela, a exposição do valor recebido pode gerar a impressão de que sua campanha dispõe de mais dinheiro do que realmente possui, mas a possibilidade de consulta pública aos recursos tem um aspecto positivo. “Eu não quero esconder nada e eu vou fazer minha prestação de contas quando terminar essas eleições. Vai estar lá no TRE e eu também vou falar por que eu gastei, entendeu? Porque eu acho importante. Você tem que saber a origem”, afirmou.
A disputa pelo Governo de Rondônia entrou na conversa quando Neidinha foi questionada sobre Samuel Costa. A candidata reafirmou a posição: “Meu candidato ao Governo se chama Samuel Costa. É o candidato do meu partido enquanto não tirarem ele da disputa”. Ela acrescentou que, caso Samuel deixe a eleição, pretende conversar com outros candidatos que considere viáveis.
A possibilidade de aproximação com Expedito Netto, porém, recebeu uma resposta diferente. Neidinha reiterou que não pretende subir no mesmo palanque do candidato e relacionou essa decisão à atuação política dele no processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Ao mesmo tempo, fez questão de separar sua posição sobre Netto de sua relação com integrantes do PT, citando nominalmente Luciana Oliveira e outros militantes com quem disse manter amizade.
“Eu defendo mulheres. Como que eu posso subir num palanque com a pessoa que votou no impeachment da Dilma?”, questionou. Neidinha ressaltou que não pertence ao PT, mas afirmou que sua defesa das mulheres independe da legenda em que elas estejam filiadas. “Não me importa se a mulher está no partido de direita, no partido de esquerda, no partido de centro. Eu faço a defesa de mulheres”, declarou.
Outro dos momentos mais incisivos da entrevista ocorreu quando a candidata foi confrontada com sua defesa ambiental em um estado marcado pela produção agropecuária. Neidinha rejeitou a ideia de ser adversária do setor produtivo e criou uma diferenciação entre o que chama de agronegócio e “ogronegócio”.
“Eu não sou contra o agronegócio, eu sou contra o ogronegócio. Entenda isso. Eu sou contra o ogronegócio”, afirmou. Na definição apresentada por ela, o termo se refere a grandes empresários que, mesmo dispondo de patrimônio, estariam envolvidos em desmatamento, invasão de terras indígenas, ocupação de unidades de conservação e grilagem. A candidata sustentou ainda que pequenos agricultores seriam utilizados para ocupar áreas inicialmente e acabariam expostos aos conflitos.
A expressão foi ampliada por Neidinha para alcançar também agentes públicos. Ela falou em “político do ogronegócio” para descrever lideranças que, segundo sua avaliação, incentivam pessoas a permanecer durante anos em áreas sem conseguir resolver a situação fundiária e retomam a promessa a cada eleição. “Ele está te enganando para ganhar teu voto”, disse, ao argumentar que o prolongamento desses conflitos seria usado eleitoralmente.
A atuação ambiental também levou a conversa para as ameaças recebidas pela candidata. Neidinha afirmou possuir atualmente um protocolo de segurança e integrar um programa de proteção do Governo Federal. Disse que ela e uma pessoa próxima já chegaram a ser acompanhadas pela Força Nacional por causa de ameaças de morte. “Não tenho medo. Eu já disse isso. Não tenho medo. Deveria ter, eu deveria ter”, declarou.
Ao ser questionada sobre os riscos de manter uma agenda pública de campanha, Neidinha disse acreditar que a proteção e a exposição eleitoral funcionam, naquele momento, como fatores de inibição. A candidata afirmou confiar no acompanhamento realizado por sua equipe de segurança e avaliou que uma agressão violenta contra ela não seria vantajosa para quem pudesse pretender interromper sua atuação.
A entrevista também abordou a diferença entre ser indígena e atuar como indigenista. Sem entrar em confronto pessoal com Rosângela Cipriano, mencionada na pergunta, Neidinha afirmou respeitar posições divergentes de outras mulheres e preferiu explicar como compreende sua própria trajetória.
Na definição apresentada por ela, indigenista é a pessoa que dedica a vida a trabalhar “em prol e com” os povos indígenas. Neidinha relatou ter crescido até os 12 anos em território indígena, disse ter nascido em Plácido de Castro, no Acre, e chegado a Rondônia ainda criança. Ao discutir autodeclaração, afirmou que, além da declaração individual, considera fundamental o reconhecimento pelos próprios povos.
Ela afirmou que sua identidade está ligada a décadas de convivência e atuação junto às comunidades e disse não sentir necessidade de reivindicar publicamente um rótulo. “Eu tenho reconhecimento pela minha luta, pela minha vivência”, declarou. Neidinha disse ainda que Rondônia possui 65 povos indígenas e relatou como sua relação com os Suruí foi construída ao longo da vida, inclusive por meio do casamento realizado segundo o sistema cultural do povo.
A candidata contou que ela e Almir Suruí atuavam em projetos e mobilizações ambientais, nem sempre concordando sobre os métodos utilizados, até que a relação pessoal evoluiu. Também relatou vínculos familiares estabelecidos dentro da comunidade, afirmou ter cinco filhos e mencionou a participação na construção de um plano de gestão projetado para 50 anos.
Esse planejamento de longo prazo foi usado por Neidinha para defender continuidade administrativa. Ela argumentou que governos deveriam preservar políticas positivas iniciadas por gestões anteriores, independentemente da origem partidária. Na avaliação da candidata, a interrupção constante de projetos impede a conclusão de hospitais, obras viárias, pavimentação e outras iniciativas públicas.
A discussão chegou então ao saneamento básico e às mudanças climáticas. Neidinha criticou a baixa cobertura de saneamento na capital e afirmou que Rondônia possui uma política climática que, em sua avaliação, não é efetivamente implementada. Defendeu que economia, recursos hídricos, equilíbrio climático e meio ambiente sejam discutidos de maneira conjunta, sob o argumento de que o estado não é formado apenas por grandes produtores rurais.
Pequenos e médios agricultores, agricultura familiar, cultura e economia criativa apareceram entre os segmentos que, para a candidata, precisam receber mais atenção do poder público. Neidinha criticou governos e prefeituras que destinam grandes cachês a artistas de fora enquanto produtores culturais rondonienses encontram dificuldades para receber remuneração e manter seus trabalhos.
Ela citou diferentes manifestações culturais, do rock ao samba, passando pelo teatro, artes plásticas, artesanato, hip-hop e festas tradicionais. Também afirmou utilizar roupas e produtos feitos em Rondônia e na Amazônia durante viagens e palestras como forma de divulgação espontânea da produção local.
Turismo e logística completaram esse bloco da entrevista. Neidinha defendeu mais investimento nos atrativos turísticos de Rondônia e afirmou que empresários do setor enfrentam dificuldades, principalmente de deslocamento. Ao comentar o preço das passagens aéreas, comparou os custos de chegar a Porto Velho e a outros municípios do estado com viagens internacionais.
A candidata também defendeu estímulo a agroindústrias, apoio maior a pequenos e médios produtores e valorização salarial de professores. Formada em História e professora, ela disse considerar incompatível a remuneração da categoria com a responsabilidade de formar profissionais de diferentes áreas.
Na reta final, Neidinha apresentou sua candidatura como uma tentativa de ampliar a presença no Senado de grupos que, segundo ela, não possuem representação proporcional. Citou mulheres, povos indígenas, extrativistas, ribeirinhos, quilombolas, periferias, trabalhadores rurais e integrantes da cultura. Disse ainda que sua atuação nessas áreas antecede a candidatura e afirmou que pretende levar esse histórico para o mandato caso seja eleita.


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