PORTO VELHO, RO - O debate promovido pelo Rondoniaovivo conseguiu fazer aquilo que um encontro eleitoral precisa fazer para ser útil: retirar os candidatos da zona confortável das peças de campanha e obrigá-los a responder diante dos adversários. A iniciativa capitaneada pelo empresário Paulo Andreoli, fundador do veículo, e conduzida pelos jornalistas Iule Vargas e Ivanilson Frazão reuniu Expedito Netto, do PT; Pedro Abib, do MDB; Adaílton Fúria, do PSD; Marcos Rogério, do PL; e Samuel Costa, do PSB, em um formato no qual perguntas, réplicas e tréplicas abriram espaço para confronto de propostas, cobranças políticas e ataques diretos.
Houve, porém, uma cadeira politicamente importante fora desse choque. Hildon Chaves, do União Brasil, não participou. A ausência ficou visível até no funcionamento do programa: em determinado sorteio do terceiro bloco, o nome de Hildon chegou a ser retirado, mas a organização precisou seguir adiante porque ele não estava presente. Em um debate cujo principal valor está justamente em submeter propostas à contestação dos concorrentes, a ausência retirou do público a possibilidade de vê-lo responder aos mesmos questionamentos enfrentados pelos demais.
Entre os presentes, Adaílton Fúria atravessou uma sequência particularmente extensa de confrontos. Pedro Abib abriu uma das frentes ao questionar como seria possível enfrentar a segurança pública diante do déficit policial e da situação fiscal apresentada no debate. Fúria respondeu propondo o fim de contratos terceirizados no setor, concurso público, aumento de efetivo, bases policiais e patrulhamento comercial. Pedro rebateu dizendo que “segurança pública é coisa séria” e contrapôs às propostas a necessidade de inteligência e integração entre as polícias. Fúria voltou defendendo o trabalho do BPFROM (Batalhão de Polícia de Fronteira e Divisas) e a ampliação do videomonitoramento utilizado em Cacoal.
O choque com Expedito Netto foi ainda mais direto. Depois de Fúria defender ações nos distritos e assumir compromisso com União Bandeirantes, Expedito cobrou a origem do dinheiro. Disse que propostas não poderiam ficar apenas na “voz vazia” e questionou o adversário sobre como financiaria aquilo que prometia. Fúria já havia defendido participação direta do Estado e parceria com municípios, mas, pelo desenho do bloco, não voltou a falar depois da crítica de Expedito. O episódio colocou no centro uma das perguntas que atravessaram o debate inteiro: não apenas o que cada candidato pretende fazer, mas como pretende pagar a conta.
Foi Samuel Costa, entretanto, quem levou o confronto com Fúria para o terreno mais político. O candidato perguntou sobre o afastamento de setores do governo estadual da campanha, mencionou retirada de adesivos e quis saber como Fúria interpretava o movimento. A resposta foi a afirmação de independência. Fúria disse que não mudaria princípios em troca de apoio, que havia chegado até ali “caminhando com as próprias pernas” e desejou boa sorte ao governador em seu caminho depois do mandato.
Samuel aumentou a temperatura na réplica. Citou recursos de campanha, falou em aliados que teriam se afastado, mencionou a demissão do marqueteiro e questionou a forma como Fúria lida com o contraditório. A resposta do prefeito de Cacoal foi uma das frases mais claras daquela sequência: “Depende do que você fala de negociar. Eu não negocio os meus princípios, eu não negocio o governo do Estado.” Em seguida, Fúria deslocou a discussão para financiamento político, citando Caixa 2 e candidatos financiados por empresários que, segundo ele, depois passariam a influenciar governos. Tratavam-se, ali, de acusações feitas no calor do debate, não de fatos demonstrados naquele espaço.
Marcos Rogério também entrou nesse circuito de tensão. Ao responder cobrança de Fúria sobre a saúde de Ji-Paraná e sobre um hospital que ainda não havia se tornado realidade, o senador lembrou recursos que disse ter enviado aos municípios e mencionou um ex-prefeito que chamou de aliado de Fúria. A reação veio imediatamente: Fúria negou a aliança, atribuiu a proximidade a Marcos Rogério e respondeu trazendo para o palco uma acusação relacionada a outro prefeito ligado à campanha do senador. Foi um daqueles momentos em que o debate deixou o terreno da proposta pública e mergulhou na disputa sobre companhias políticas e responsabilidades indiretas.
Mas o confronto de maior densidade administrativa envolvendo Fúria surgiu quando Expedito Netto trouxe a pandemia para o centro da discussão. O candidato lembrou a decisão de manter atividades funcionando em Cacoal e questionou se Fúria repetiria a estratégia em uma nova crise sanitária. Fúria não fugiu da responsabilidade pela escolha. Disse que seu posicionamento havia sido alinhado ao então presidente Bolsonaro e afirmou que comércio, igrejas e feiras permaneceram abertos por decisão de sua administração, ao mesmo tempo em que enumerou hospital de campanha, ações sanitárias e vacinação. Expedito respondeu dizendo que ciência não deveria ser tratada como pauta de esquerda ou direita e classificou como “negacionismo” a postura que, em sua avaliação, expôs trabalhadores. Fúria retrucou afirmando que a gestão cuidou simultaneamente da vida, do emprego e da renda.

Cena do bastidor: Fúria repousa ao lado da cadeira vazia reservada a Hildon Chaves / Reprodução-Rubens Coutinho (Instagram)
Também houve embate ideológico entre Fúria e Marcos Rogério. Fúria questionou a trajetória partidária do senador e perguntou se sua identidade política de direita era consistente. Marcos negou ter sido líder do governo Dilma, explicou sua trajetória e afirmou que seus princípios não eram definidos pela legenda. Fúria respondeu dizendo que pessoas ligadas ao adversário o atacavam nas redes sociais chamando-o de candidato de esquerda e afirmou ser um político de direita que respeita pessoas de diferentes posições. Marcos encerrou recusando prolongar a discussão partidária e tentando devolver o debate para saúde, estradas, segurança e educação.
Os demais também estiveram longe de passar ilesos. Marcos Rogério e Expedito Netto divergiram sobre regularização fundiária e sobre o papel dos governos estadual e federal. Expedito e Pedro Abib discutiram concursos públicos e limites fiscais. Pedro e Samuel Costa divergiram sobre o que deveria ser prioridade entre necessidades imediatas e uma agenda de ciência, tecnologia e inovação. No bloco nacional, Marcos cobrou Samuel sobre a política econômica do governo federal; Samuel respondeu pregando redução da polarização. Depois, Samuel questionou Pedro sobre a posição política de seu campo partidário, e os dois convergiram parcialmente na crítica à transformação de Lula e Bolsonaro em “heróis” que impediriam o diálogo.
Pedro Abib ainda confrontou Expedito Netto sobre corrupção e instituições. Expedito respondeu defendendo Lula, seus programas e o próprio campo político; Pedro retrucou dizendo que o combate à corrupção não poderia se resumir a narrativa e discurso, mas ao fortalecimento das instituições. A troca ajudou a fechar um debate em que nenhum dos cinco presentes conseguiu permanecer apenas repetindo slogans sem ser confrontado em algum momento.
Samuel Costa também reservou suas considerações finais para uma cobrança coletiva. Acusou os demais concorrentes de terem atuado para retirar outro debate de Ariquemes e disse considerar isso um desrespeito ao interior. Como foi o último a falar, os outros candidatos não tiveram nova oportunidade de responder à acusação naquele encontro.
O saldo daquele palco está menos em descobrir um vencedor — conclusão que cabe ao eleitor — do que no contraste criado quando candidatos são obrigados a sair da apresentação ensaiada. Marcos Rogério precisou explicar trajetória partidária e defender suas propostas. Expedito Netto respondeu por seu alinhamento ao governo federal e bateu de frente com adversários em temas fiscais e sanitários.
Pedro Abib insistiu em planejamento, dados, limites financeiros e crítica à polarização. Samuel Costa apostou no confronto político, questionou alianças e procurou tensionar candidaturas adversárias. E Fúria, colocado sucessivamente diante de cobranças sobre segurança, dinheiro para promessas, apoios políticos, condução da campanha, pandemia e identidade ideológica, precisou defender não apenas suas propostas, mas decisões anteriores e a própria forma de fazer política.
Foi exatamente aí que a iniciativa do Rondoniaovivo encontrou sua maior utilidade. Debate não existe para produzir conforto. Existe para colocar afirmação diante de contestação, promessa diante de cobrança e candidato diante de candidato. Os cinco que compareceram aceitaram esse risco. A cadeira ausente não passou pelo mesmo teste.


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