PORTO VELHO, RO - A campanha de Adaílton Fúria ao Governo de Rondônia começa a enfrentar um adversário que não aparece na urna: ela própria. Em uma sequência cada vez mais difícil de tratar como episódios isolados, a candidatura do PSD passou da ruptura com o marqueteiro para o desconforto entre correligionários, chegou à discussão sobre a distribuição dos recursos eleitorais e agora convive com sinais de possível deterioração da relação com o governador Coronel Marcos Rocha.
A cronologia ajuda a entender o tamanho do problema. O primeiro grande sinal veio de dentro da própria campanha, com a demissão do marqueteiro. Uma candidatura majoritária exige comando, evidentemente, mas comando não significa transformar profissionais e aliados em peças substituíveis sempre que surgem divergências. A saída de quem conduzia o marketing abriu a primeira rachadura visível em uma estrutura que deveria estar ocupada em conquistar votos, não em administrar conflitos internos. Fúria chegou a dizer que vai tocar a campanha "do seu jeito"; direito dele, claro, mas denota e desnuda-se, com ainda mais ênfase, uma personalidade centralizadora, poucop capar de delegar missões ou confiar naqueles que o orbitam.
Depois do marketing, o dinheiro colocou combustível na crise.
Júnior Lopes, candidato a deputado federal pelo PSD, registra R$ 100 mil em receitas. Joliane Fúria, também candidata a deputada federal e esposa de Adaílton Fúria, chega a R$ 1,5 milhão. São R$ 1,4 milhão de diferença entre dois candidatos ao mesmo cargo pelo mesmo partido. Joliane concentra mais de quinze vezes o volume registrado por Júnior.
O contraste fica ainda mais incômodo quando entra Luís Fernando, candidato do PSD ao Senado. A candidatura dele soma R$ 1 milhão em receitas. Joliane aparece R$ 500 mil acima do candidato a uma das vagas mais importantes da chapa majoritária do partido.
A fotografia política é péssima.
De um lado, Júnior Lopes disputa uma cadeira na Câmara com R$ 100 mil. De outro, a esposa do candidato ao Governo, disputando exatamente o mesmo cargo, aparece com R$ 1,5 milhão. No meio dessa equação está Luís Fernando, candidato ao Senado, com menos recursos que Joliane.
Não é necessário transformar a situação em acusação de ilegalidade para enxergar o problema. O incômodo é político e moral. Uma diferença dessa magnitude dentro da mesma legenda exige critérios capazes de justificá-la perante os próprios candidatos. Quando justamente a esposa do cabeça da chapa aparece extremamente privilegiada financeiramente, enquanto correligionários reclamam da condução partidária, a percepção de favorecimento familiar torna-se inevitável.
É aí que surge uma espécie de nepotismo político ou moral, ainda que não necessariamente jurídico. O termo não está relacionado à contratação de familiar para cargo público, mas à concentração de vantagens ao redor do núcleo familiar de quem comanda o projeto eleitoral. Política não é feita apenas dentro dos limites do Código Eleitoral. Também é feita de sinais, tratamento, confiança e percepção de justiça entre aqueles que disputam juntos.

Esposa de Fúria recebeu R$ 1,5 milhão / Reprodução-IA
E Júnior Lopes resolveu dizer que há algo errado nessa relação.
A manifestação pública do candidato a deputado federal marca uma nova etapa da crise porque rompe a barreira que separava insatisfação de bastidor de conflito partidário aberto. Lopes preservou Marcos Rocha, elogiou a atuação do governador na condução do PSD e afirmou que ele havia procurado a direção nacional para garantir recursos aos candidatos da legenda. As críticas foram direcionadas a Adaílton Fúria e Expedito Júnior, apontados por ele como personagens de uma movimentação posterior junto à direção nacional.
Lopes foi além de reclamar de dinheiro. Atacou o método. Falou em respeito à hierarquia partidária, aos aliados e ao próprio partido. Quando um candidato da legenda precisa vir a público para cobrar exatamente essas três coisas, o problema já não está limitado a quanto cada um recebeu. O questionamento passa a atingir a forma como o PSD está sendo conduzido.
A origem da crítica torna a situação ainda mais grave para Fúria. Não é um adversário tentando desgastar sua candidatura. É um candidato a deputado federal do próprio PSD expondo descontentamento e citando nominalmente o candidato ao Governo e Expedito Júnior.
O que começou com o marqueteiro chegou, portanto, aos candidatos.
E não parou neles.
Na quarta-feira, 9 de setembro, uma série de exonerações publicada no Diário Oficial do Estado passou a alimentar a percepção de que a crise poderia ter alcançado também a relação entre Adaílton Fúria e o governador Coronel Marcos Rocha. Entre os nomes atingidos estaria um parente de Expedito Júnior, personagem justamente citado por Júnior Lopes ao lado de Fúria na disputa interna do PSD. Há quem diga que é blefe, para que Fúria possa suportar apenas o bônus da aliança sem carregar o ônus; mas, ainda que seja, o jogo de cena é igualmente muito bem construído.
Lado outro, se for verdade, a possibilidade de ruptura com Marcos Rocha acrescenta uma dimensão muito maior ao problema. Rocha não aparece na reclamação de Lopes como responsável pelo conflito. Pelo contrário: é elogiado pelo candidato por ter buscado condições para que os nomes do PSD disputassem a eleição. Se o governador estiver efetivamente se afastando do núcleo político formado em torno de Fúria, a campanha terá conseguido algo particularmente difícil: abrir frentes de tensão simultâneas com profissionais, candidatos e aliados que deveriam estar trabalhando por um mesmo objetivo.
A exoneração do nome ligado à família de Expedito Júnior -- junto a outras tantas --, ganha relevância exatamente dentro dessa sequência. Isoladamente, uma exoneração é um ato administrativo. Inserida em um ambiente no qual integrantes do PSD já falam abertamente em desrespeito à hierarquia e aos aliados, ela passa a carregar evidente peso político. Caso a relação entre os acontecimentos seja confirmada, estará materializada também dentro do Governo uma crise que já havia escapado dos corredores partidários.
A linha do tempo, então, começa a formar um padrão. Primeiro, Fúria rompe com o responsável pelo marketing. Depois, aparecem diferenças enormes na distribuição de recursos entre correligionários. Júnior Lopes recebe R$ 100 mil, enquanto Joliane Fúria chega a R$ 1,5 milhão. Luís Fernando, candidato ao Senado, permanece abaixo dela, com R$ 1 milhão. Em seguida, Lopes rompe o silêncio, critica Fúria e Expedito Júnior e cobra respeito à hierarquia e aos aliados. Logo depois, exonerações dentro do Governo alimentam a possibilidade de uma ruptura com Marcos Rocha, atingindo inclusive um nome apontado como ligado familiarmente a Expedito.
É uma sequência difícil de atribuir apenas ao acaso.
O denominador comum é uma candidatura excessivamente concentrada em Fúria e em seu entorno mais próximo. É nesse sentido político que a palavra narcisismo se encaixa na condução da campanha: um projeto que parece girar cada vez mais ao redor de seu protagonista, enquanto pessoas necessárias à sua sustentação vão sendo afastadas, contrariadas ou publicamente descontentadas.
Se tudo aquilo que vem emergindo dessa disputa interna estiver conectado como aparenta, o PSD terá reunido em torno da candidatura ao Governo uma combinação explosiva de centralização, discórdia, personalismo, desprezo percebido pelos aliados e uma pitada particularmente desconfortável de favorecimento familiar.
Uma candidatura majoritária precisa exatamente do contrário. Precisa agregar. Precisa fazer quem está abaixo na chapa acreditar que também participa do projeto. Precisa manter canais com dirigentes, candidatos proporcionais, candidato ao Senado, profissionais de campanha e lideranças que dão sustentação política à candidatura.
Fúria parece caminhar na direção inversa.
O risco agora é o azedume se espalhar. Quando apenas o marqueteiro vai embora, troca-se o marqueteiro. Quando um candidato reclama, tenta-se administrar o candidato. Quando o dinheiro divide a legenda, a crise fica mais difícil. Quando um governador entra na equação e exonerações passam a ser interpretadas politicamente, já não existe marqueteiro capaz de resolver sozinho o problema.
Adaílton Fúria pode descobrir, na reta mais importante da campanha, que tratar aliados como componentes secundários de um projeto pessoal cobra preço alto. Isso sem contar a interpretação possível: se é assim na campanha, como seria na condução do Estado se vencesse o pleito? O PSD ainda está na eleição. Mas, se continuar dessa maneira, corre o risco de chegar ao dia da votação depois de ter travado sua disputa mais destrutiva não contra os adversários, mas dentro da própria casa. E aí em vez de construção é implosão total.


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