PORTO VELHO, RO - Faltam dez dias para o primeiro turno das eleições de 2026 e a disputa pelo Governo de Rondônia chegou a uma fase em que as principais características dos seis candidatos já estão expostas. Depois de semanas de campanha, debates, confrontos diretos, pesquisas e movimentações políticas, Marcos Rogério, do PL; Adaílton Fúria, do PSD; Hildon Chaves, do União Brasil; Expedito Netto, do PT; Samuel Costa, do PSB; e Pedro Abib, do MDB, chegam ao estreitamento final da eleição em posições bastante diferentes.
Os números ajudam a dimensionar esse cenário.
Na pesquisa Veritá realizada entre 7 e 12 de setembro, Marcos Rogério apareceu com 47,8% das intenções de voto. Adaílton Fúria registrou 19,7%, Hildon Chaves 11,8%, Expedito Netto 10,4%, Samuel Costa 0,8% e Pedro Abib 0,4%. Brancos e nulos somaram 2,9%, e 6,3% não souberam ou não responderam.
Uma semana depois, em novo levantamento do mesmo instituto, realizado entre 14 e 19 de setembro e divulgado apenas no cenário de votos válidos, Marcos Rogério apareceu com 50,3%, Fúria com 22,2% e Hildon com 14%. Os demais candidatos foram apresentados de forma agrupada, somando 13,5%. Como a primeira rodada foi divulgada sobre o total de entrevistados, os números das duas não são diretamente comparáveis. Convertidos para a mesma base de votos válidos, os resultados de 7 a 12 de setembro davam 52,6% a Rogério, 21,7% a Fúria e 13% a Hildon, diferenças que ficam dentro da margem de erro.
Mais do que indicar movimentos de subida ou queda, que as duas rodadas não permitem afirmar, os levantamentos mostram que Rogério chega aos últimos dez dias em posição destacada, enquanto Fúria permanece como o nome mais próximo e Hildon tenta se manter dentro da disputa intermediária.
Existe, porém, uma peculiaridade política nessa eleição.
Marcos Rogério ocupa a primeira colocação, mas não tem recebido uma pressão proporcional à vantagem que construiu. Em vários debates, o comportamento dos adversários produziu uma situação incomum: em vez de uma concentração de ataques contra o líder, a maior parte da pressão acabou distribuída entre os demais concorrentes, sobretudo Adaílton Fúria. Talvez porque compreendam o primeiro lugar como algo consolidado; logo, a ideia seria desestabilizar o segundo lugar: no caso, o ex-prefeito de Cacoal.
Já no primeiro debate, realizado em agosto, Rogério atravessou o encontro em situação relativamente confortável, enquanto Fúria foi colocado sob forte pressão e Hildon enfrentou críticas pelo desempenho.
A situação se repetiu, em diferentes graus, nas semanas seguintes.
Rogério participou dos confrontos, respondeu aos adversários e apresentou seu próprio discurso de campanha, mas não se transformou no eixo permanente dos ataques. Isso é politicamente relevante porque o primeiro colocado normalmente tende a funcionar como referência para todos os demais: quem está atrás precisa reduzir a distância e, para isso, costuma tentar desgastar quem está na frente.
Em Rondônia, grande parte dessa energia tomou outro rumo.
Adaílton Fúria acabou se tornando uma das principais vidraças da eleição.
O candidato do PSD construiu sua campanha sobre a experiência administrativa em Cacoal. Sua estratégia é apresentar a gestão municipal como demonstração de capacidade para governar o Estado. Escolas, creches, estrutura de saúde e serviços implantados ou ampliados no município aparecem repetidamente em sua argumentação.
Ao mesmo tempo, essa credencial passou a ser confrontada pelos adversários.
Pedro Abib já utilizou debates para questionar Fúria sobre Ciência, Tecnologia e Inovação e sobre pontos do próprio plano de governo do candidato do PSD. A cobrança foi apresentada justamente como teste da capacidade de transpor a experiência municipal para uma administração estadual mais ampla.
Outros adversários também passaram a mirar o candidato.
No debate da SIC TV, Fúria voltou a figurar entre os mais atacados, enquanto Marcos Rogério enfrentou confrontos mais pontuais. A cobertura posterior do encontro registrou que Fúria esteve entre os candidatos submetidos ao maior volume de cobranças.
O efeito é evidente: o segundo colocado vem absorvendo uma parcela da pressão que, pela lógica convencional de uma disputa majoritária, poderia estar concentrada sobre o primeiro.
Fúria ainda passou a carregar outro problema nesta reta final: a perda do apoio do governador Marcos Rocha, presidente estadual do próprio PSD.
O candidato afirmou, durante sabatina da SIC TV, que perdeu o apoio do governador e que Rocha passou a apoiar “outro candidato” da capital. Fúria relacionou o afastamento à sua posição contrária à privatização da Caerd.
A declaração abriu uma situação politicamente desconfortável.
Fúria concorre ao Governo pelo PSD, enquanto o presidente estadual da legenda e atual governador deixou de apoiá-lo. Nos bastidores, o movimento passou a ser associado a Hildon Chaves. A afirmação pública de Fúria não citou Hildon nominalmente, mas a movimentação política passou a ser interpretada dessa forma na cobertura local.
Isso cria duas campanhas acontecendo ao mesmo tempo em torno de Fúria.
De um lado, ele precisa enfrentar os adversários diretos que testam suas propostas e a extensão de sua experiência administrativa. De outro, precisa conviver com o rompimento político dentro do próprio campo partidário.
Hildon Chaves enfrenta um problema diferente.
O ex-prefeito de Porto Velho entrou na disputa amparado por dois mandatos na capital e por uma imagem de gestor construída desde 2016. Sua candidatura procura utilizar justamente esse histórico como prova de capacidade administrativa.
Nos debates, entretanto, surgiu uma diferença perceptível entre o Hildon de 2026 e aquele que apareceu eleitoralmente uma década atrás.
O próprio candidato reconheceu publicamente que teve desempenho abaixo do esperado nos dois primeiros debates e mencionou dificuldades de concentração e episódios de esquecimento. Também recordou o perfil mais combativo que exibiu na campanha de 2016.
As críticas não ficaram restritas a um único encontro.
Depois dos primeiros debates, análises políticas passaram a apontar dificuldades de organização das respostas, lentidão para concluir raciocínios e perda de contundência em comparação com o Hildon que surgiu na eleição municipal de 2016.
A diferença é relevante porque a experiência administrativa, por si só, não resolve uma campanha.
Debates exigem velocidade, domínio do tempo, capacidade de síntese e reação imediata. Hildon possui oito anos de experiência à frente da Prefeitura de Porto Velho, mas nem sempre conseguiu transformar esse estoque administrativo em desempenho equivalente diante das câmeras.
Em setembro, chegou a cancelar a participação no debate-show do Rondoniaovivo e optou por cumprir agenda no interior. A ausência ocorreu depois de dois encontros marcados por críticas à sua atuação.
Ainda assim, Hildon permanece dentro de um bloco eleitoral relevante. Na pesquisa de 7 a 12 de setembro, apareceu com 11,8% do total de entrevistados, o equivalente a 13% dos votos válidos. No levantamento seguinte, que divulgou apenas votos válidos, marcou 14%, uma oscilação dentro da margem de erro.
Nesse mesmo espaço intermediário está Expedito Netto.
O candidato do PT conseguiu construir uma presença eleitoral mensurável e aparece muito acima das candidaturas de Samuel Costa e Pedro Abib no levantamento em que os seis nomes foram apresentados individualmente.
A identidade de sua campanha também é bastante clara.
Netto assumiu integralmente a vinculação ao PT e ao presidente Lula. Não tenta disputar a eleição escondendo a legenda ou minimizando a associação nacional. Pelo contrário: incorpora os governos petistas, programas sociais e a agenda econômica federal ao próprio discurso estadual. A despeito do voto a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2016, parece ter recebido perdão integral por parte da militância local da legenda em decorrência do discurso de arrependimento.
Essa estratégia lhe oferece uma base eleitoral reconhecível.
O PT possui identidade partidária consolidada, e Netto procura converter essa identificação em votação estadual. A pesquisa de 7 a 12 de setembro o colocou com 10,4%, em empate técnico com Hildon, que tinha 11,8%.
Mas a campanha de Netto também passou a carregar um elemento que tomou proporções próprias: o confronto com Samuel Costa.
Os dois protagonizaram alguns dos momentos mais agressivos da campanha.
No debate do Rondoniaovivo, Netto questionou Samuel sobre propostas para a educação e sobre a origem dos recursos necessários para financiá-las. Samuel iniciou a resposta deslocando o confronto para o financiamento das campanhas e acusando o adversário de incoerência antes de apresentar sua proposta educacional.
A tensão aumentou.
No debate da SIC TV, realizado em 21 de setembro, última segunda-feira, os dois novamente protagonizaram uma das discussões mais duras da noite. A cobertura política posterior tratou o confronto como uma espécie de “vale-tudo verbal” e registrou que a troca entre Netto e Samuel ultrapassou o nível das divergências programáticas.
Essa rivalidade acabou criando uma disputa paralela dentro da eleição.
Netto e Samuel não estão brigando apenas contra os demais candidatos. Passaram também a disputar entre si narrativa, credibilidade e espaço político.
Para ambos, existe um custo.
Cada minuto utilizado numa guerra particular é um minuto que deixa de ser usado para pressionar os candidatos colocados acima deles nas pesquisas.
Netto ainda dispõe de uma base eleitoral significativamente maior. Samuel, não.
O candidato do PSB apareceu com 0,8% na pesquisa Veritá realizada entre 7 e 12 de setembro.
Jornalista e professor, Samuel construiu a campanha com discurso de renovação, defesa de causas sociais, direitos humanos e crítica às estruturas tradicionais de poder.
Nos debates, porém, a disposição para o confronto passou a ocupar um espaço importante de sua candidatura.
Isso lhe proporciona visibilidade, mas não há evidência, até aqui, de que essa exposição tenha se convertido em crescimento eleitoral capaz de alterar a posição registrada nas pesquisas.
A diferença entre visibilidade e voto é central nessa reta final.
Samuel aparece com frequência nos confrontos, participa das discussões mais duras e produz momentos de repercussão. O desafio eleitoral é transformar essa presença em adesão.
Pedro Abib enfrenta uma equação diferente.
O candidato do MDB é o nome mais identificado com uma abordagem tecnocrática.
Professor e cientista de dados, costuma estruturar intervenções em torno de informações técnicas, ciência, planejamento, inovação e análise de políticas públicas. No debate do Rondoniaovivo, voltou a criticar aquilo que chama de “velha política” e defendeu uma administração baseada em ciência e dados.
Em outros confrontos, demonstrou familiaridade com temas como segurança pública, fronteiras, inovação, agricultura familiar, ciência e tecnologia. Ao mesmo tempo, análises de seu desempenho apontaram que o excesso de linguagem técnica pode dificultar a tradução das propostas para um público mais amplo.
Essa é uma característica bastante definida da candidatura.
Abib tenta se diferenciar menos pelo confronto pessoal e mais pela demonstração de conhecimento técnico.
Em sua primeira disputa por um cargo dessa dimensão, porém, isso ainda não se transformou em força eleitoral expressiva. Na pesquisa de 7 a 12 de setembro, apareceu com 0,4%, a menor marca numérica entre os seis candidatos, em empate técnico com Samuel Costa, que tinha 0,8%.
A candidatura, portanto, vive uma eleição com objetivos e limites bastante diferentes daqueles dos líderes.
Enquanto Rogério tenta administrar a liderança e Fúria busca reduzir a distância, Hildon e Netto tentam ampliar presença dentro do bloco intermediário. Samuel e Abib chegam aos dez dias finais tentando aumentar um eleitorado ainda muito pequeno nas pesquisas.
Esse desenho ajuda a compreender também o comportamento dos debates.
Rogério tem administrado uma posição de vantagem sem receber uma ofensiva constante de todos os adversários.
Fúria tornou-se alvo recorrente porque querem o seu lugar na segunda posição e agora precisa lidar também com a fratura envolvendo Marcos Rocha.
Hildon tenta fazer sua experiência administrativa voltar a aparecer com mais clareza nos confrontos públicos.
Netto mistura a defesa da identidade petista com uma guerra cada vez mais intensa contra Samuel.
Samuel aposta fortemente no confronto para ampliar visibilidade.
Abib tenta ocupar o espaço da candidatura técnica.
Faltam dez dias.
A partir daqui, há pouco espaço para reconstruções profundas de imagem.
Os principais argumentos já foram apresentados, os debates já revelaram estilos e dificuldades, as alianças já produziram suas contradições e as pesquisas já estabeleceram um quadro inicial bastante claro.
O aspecto mais incomum continua sendo a distribuição da pressão.
Marcos Rogério lidera, mas não se tornou o alvo preferencial de toda a campanha.
Adaílton Fúria recebeu uma parcela maior do fogo adversário.
Hildon gastou parte da campanha respondendo às críticas sobre o próprio desempenho.
Netto e Samuel desviaram grande quantidade de energia para um conflito particular.
Abib concentrou esforços em estabelecer uma identidade técnica.
A consequência política é simples: enquanto os candidatos colocados atrás dividem ataques entre si, o líder encontra mais espaço para administrar a própria posição.
As urnas de 4 de outubro dirão se esse desenho será mantido ou se os últimos dez dias ainda serão capazes de reorganizar uma disputa que chega à reta final com papéis muito mais definidos do que no início da campanha.
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Dados técnicos das pesquisas citadas:
• Instituto Veritá — pesquisa realizada entre 7 e 12 de setembro de 2026, por telefone; 1.220 eleitores de Rondônia com 16 anos ou mais entrevistados; margem de erro de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos; nível de confiança de 95%; levantamento realizado por iniciativa própria e com recursos próprios do Instituto Veritá; registros na Justiça Eleitoral RO-01935/2026 e BR-02389/2026. Resultados divulgados sobre o total de entrevistados; os percentuais de votos válidos citados no texto correspondem ao cálculo que exclui brancos, nulos e quem não soube ou não respondeu.
• Instituto Veritá — pesquisa realizada entre 14 e 19 de setembro de 2026; 1.220 eleitores entrevistados; margem de erro de 3 pontos percentuais, para mais ou para menos; nível de confiança de 95%; levantamento realizado por iniciativa e a pedido do próprio Instituto Veritá; registros na Justiça Eleitoral RO-05848/2026 e BR-07923/2026. Divulgação parcial pelo instituto, apenas no cenário de votos válidos, com Marcos Rogério, Adaílton Fúria e Hildon Chaves apresentados individualmente e os demais candidatos agrupados. A divulgação do levantamento é questionada na Justiça Eleitoral pelas coligações de Adaílton Fúria e Hildon Chaves; o TRE-RO negou pedido liminar de suspensão.


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