PORTO VELHO, RO – Em Rondônia, o bolsonarismo chega à fase decisiva da pré-campanha de 2026 liderando as três disputas de maior alcance político. Flávio Bolsonaro aparece à frente na corrida pelo Palácio do Planalto dentro do Estado, Marcos Rogério ocupa a primeira posição na sucessão estadual e Fernando Máximo encabeça a competição pelas duas vagas ao Senado.
A coincidência dos três nomes no topo não é apenas uma fotografia circunstancial da pesquisa. Ela revela a permanência de uma identidade política que atravessa eleições nacionais e estaduais, sobrevive à ausência de Jair Bolsonaro na urna e continua capaz de organizar parte expressiva do eleitorado rondoniense.
O levantamento da Real Time Big Data, divulgado em 16 de julho de 2026, foi registrado na Justiça Eleitoral sob os códigos BR-05580/2026 e RO-04369/2026. A pesquisa ouviu 1.600 eleitores nos dias 14 e 15 de julho, possui margem de erro estimada em dois pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%.
No cenário presidencial de primeiro turno em Rondônia, Flávio Bolsonaro, senador pelo PL do Rio de Janeiro, alcançou 58% das intenções de voto. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva apareceu com 25%. Em uma disputa direta entre os dois, a vantagem do senador aumentou: 66% contra 24%.
A diferença de 42 pontos percentuais no confronto de segundo turno ajuda a dimensionar o peso do sobrenome Bolsonaro no Estado. Flávio não construiu carreira eleitoral em Rondônia, não representa os rondonienses no Congresso Nacional e não possui uma trajetória administrativa diretamente vinculada à população local. Sua vantagem nasce principalmente da identificação do eleitorado com o movimento político liderado pelo pai.
Essa relação já havia sido demonstrada nas urnas. Em 2022, Jair Bolsonaro recebeu 70,6% dos votos válidos em Rondônia no segundo turno, diante de 29,3% de Lula. Quatro anos depois, embora o nome apresentado seja outro, a divisão política fundamental permanece visível.
O bolsonarismo consolidou-se em Rondônia como algo maior do que uma preferência pessoal pelo ex-presidente. Tornou-se uma identidade eleitoral associada a valores conservadores, segurança pública, agronegócio, religião, propriedade e oposição ao campo político representado pelo PT.
A força de Flávio Bolsonaro no Estado contrasta com o cenário nacional citado no levantamento, no qual pesquisas como a Quaest apontam Lula à frente do senador fluminense. Rondônia, portanto, não acompanha automaticamente o comportamento médio do país. Possui uma dinâmica política própria, mais resistente ao avanço eleitoral da esquerda e mais receptiva aos nomes vinculados ao bolsonarismo.
Esse domínio também aparece na disputa pelo Governo do Estado, mas com limites que impedem qualquer conclusão antecipada.
Marcos Rogério, senador pelo PL e principal representante do bolsonarismo organizado na corrida estadual, lidera o primeiro turno com 36% das intenções de voto. Adaílton Fúria, do PSD, aparece com 28%. Hildon Chaves, do União Brasil, registra 13%, enquanto Expedito Netto, do PT, soma 10%.
A vantagem de Marcos Rogério é clara no primeiro turno, mas se reduz de maneira significativa quando a pesquisa testa o confronto mais competitivo da segunda etapa. Contra Fúria, o senador aparece com 44%, diante de 40% do adversário. Considerada a margem de erro de dois pontos percentuais, os dois estão tecnicamente empatados.
A diferença entre liderar e dominar torna-se ainda mais evidente no índice de rejeição. Marcos Rogério é o nome que enfrenta a maior resistência entre os entrevistados: 43% afirmam que não votariam nele de maneira alguma.
O senador começa a disputa sustentado por três vantagens importantes. Possui eleitorado ideologicamente identificado, estrutura partidária organizada e associação direta com a família Bolsonaro. Ao mesmo tempo, carrega o peso de uma candidatura que desperta resistência fora de seu núcleo mais fiel.
A rejeição elevada pode funcionar como uma barreira à expansão. Marcos Rogério parte de um patamar superior ao dos adversários, mas precisará conquistar eleitores que não integram originalmente a base bolsonarista para transformar a liderança do primeiro turno em vitória definitiva.
Fúria surge como o principal beneficiário dessa limitação. Sua candidatura está ligada ao grupo político do governador Marcos Rocha e à reorganização do campo governista em torno do PSD.
Em 30 de janeiro de 2026, Marcos Rocha deixou o União Brasil, filiou-se ao PSD e assumiu o comando estadual da legenda. A movimentação reposicionou o grupo que administra Rondônia e colocou o partido em disputa direta com o PL pela liderança do eleitorado conservador.
Fúria procura combinar apoio institucional, presença municipal e alianças construídas pelo governo. Sua candidatura ocupa uma faixa menos dependente da mobilização ideológica e mais vinculada à capacidade de articulação política, à estrutura administrativa e à continuidade de um projeto de poder.
Essa posição, porém, também traz dificuldades. O apoio do governador oferece estrutura, mas transfere para o candidato parte do desgaste acumulado pelo atual governo.
Em abril de 2025, o Paraná Pesquisas apontava 67,6% de aprovação para Marcos Rocha. Em julho de 2026, a Real Time Big Data registrou 43% de aprovação e 50% de desaprovação. A mudança ajuda a explicar por que o grupo governista, mesmo controlando a máquina estadual, não conseguiu transformar sua posição institucional em favoritismo incontestável.
Hildon Chaves tenta ocupar um terceiro espaço. Ex-prefeito de Porto Velho e filiado ao União Brasil, ele se apresenta como uma alternativa de centro-direita baseada na experiência administrativa e no discurso de gestão.
Sua aposta não está concentrada na mobilização bolsonarista nem na continuidade direta do grupo de Marcos Rocha. O projeto procura valorizar eficiência, capacidade executiva e a experiência adquirida durante o período em que comandou a maior prefeitura de Rondônia.
A sucessão estadual, assim, não se resume a uma competição convencional entre direita e esquerda. A disputa principal ocorre dentro do próprio campo conservador.
Marcos Rogério representa uma direita bolsonarista e ideológica, organizada pelo PL e sustentada pela identificação com Jair Bolsonaro. Adaílton Fúria encarna uma direita governista e pragmática, apoiada na estrutura política de Marcos Rocha e do PSD. Hildon Chaves tenta ocupar o espaço de uma centro-direita gerencial e municipalista, baseada no discurso de administração e eficiência.
As fronteiras entre esses grupos não são absolutas. Os três disputam parcelas semelhantes do eleitorado conservador, religioso, empresarial e ligado ao setor produtivo. O que muda é a forma como cada projeto pretende alcançar o poder.
Marcos Rogério aposta na identidade política e na força da marca Bolsonaro. Fúria depende da presença territorial, das alianças municipais e da estrutura governamental. Hildon busca transformar experiência administrativa em uma alternativa capaz de dialogar com eleitores conservadores menos ligados à polarização partidária.
A insatisfação com o Governo de Rondônia, por isso, não se converteu automaticamente em crescimento da esquerda. O desgaste redistribuiu forças dentro da própria direita.
O PL lidera, o PSD permanece competitivo e o União Brasil procura conservar relevância. Expedito Netto, identificado como representante do PT no levantamento, continua distante dos dois primeiros colocados e apresenta desempenho inferior nos cenários de segundo turno testados.
A oposição eleitoralmente mais perigosa para uma candidatura de direita em Rondônia não é necessariamente uma candidatura de esquerda. Pode ser outro nome conservador, sustentado por uma estrutura partidária diferente, por outra base regional ou por uma abordagem menos ideológica.
O comportamento do eleitorado de Porto Velho em 2024 reforça essa conclusão. Mariana Carvalho liderou o primeiro turno da eleição municipal com 44,53% dos votos, mas perdeu a etapa decisiva para Léo Moraes, eleito com 56,18%.
O episódio mostrou que o eleitorado conservador não funciona como um bloco automático e permanentemente transferível. A mesma população que apresenta posições ideológicas firmes em uma disputa nacional pode adotar critérios mais pragmáticos quando avalia administrações, alianças e candidatos locais.
Esse componente mantém a corrida estadual aberta. Na pesquisa espontânea para governador, 54% dos entrevistados ainda não souberam ou não responderam em quem votariam.
Em abril de 2025, o Paraná Pesquisas havia registrado 72,9% de indecisão ou ausência de resposta nessa modalidade. A redução mostra que as pré-candidaturas começaram a se tornar conhecidas, mas mais da metade do eleitorado ainda não apresenta espontaneamente uma escolha consolidada.
O estágio do calendário eleitoral também exige prudência. As convenções partidárias estão previstas para o período entre 20 de julho e 5 de agosto. O prazo para registro das candidaturas termina em 15 de agosto, e o primeiro turno será realizado em 4 de outubro.
A pesquisa de julho mede, portanto, o desempenho de pré-candidaturas, o grau de conhecimento dos nomes, os índices de rejeição e a capacidade inicial de mobilização. Ainda não incorpora integralmente os efeitos das convenções, das coligações, das escolhas de candidatos a vice e das estruturas formais de campanha.
No Senado, a liderança bolsonarista também existe, mas a fragmentação é maior.

Sílvia Cristina, hoje do PP, já foi do PL, tem boas relações com a família Bolsonaro, mas não é, necessriamente, bolsonarista: e surge em segundo lugar / Reprodução
Fernando Máximo, deputado federal, médico e ex-secretário estadual de Saúde, aparece na primeira posição com 19%. Silvia Cristina registra 14%. Confúcio Moura e Bruno Scheid surgem com 13% cada, enquanto Mariana Carvalho soma 12%.
Acir Gurgacz aparece com 8%, Luís Fernando alcança 4%, Luciana Oliveira e Nilton Souza têm 3% cada, e Neidinha Suruí e Anandreia Trovó registram 1%.
Como Rondônia escolherá dois senadores em 2026, a liderança de Fernando Máximo representa vantagem, mas não encerra a disputa. Silvia Cristina, Confúcio Moura, Bruno Scheid e Mariana Carvalho estão separados por apenas dois pontos percentuais, intervalo contido dentro da margem de erro.
Fernando Máximo reúne elementos que ajudam a explicar sua posição. Sua passagem pela Secretaria de Saúde, o mandato de deputado federal, a formação médica e a aproximação com o eleitorado bolsonarista oferecem uma combinação de visibilidade administrativa e identidade partidária.
Bruno Scheid, pecuarista e vice-presidente estadual do PL, representa uma ligação mais direta entre o partido, o agronegócio e a militância associada a Jair Bolsonaro.
A presença simultânea dos dois nomes demonstra força e risco. O bolsonarismo possui eleitorado suficiente para colocar Fernando Máximo na liderança e Bruno Scheid no bloco competitivo pela segunda vaga. Ao mesmo tempo, os dois procuram votos dentro de uma base política semelhante.
A divisão pode favorecer o PL, caso o partido consiga coordenar os votos e formar uma dobradinha competitiva. Também pode fragmentar o eleitorado e abrir espaço para candidatos de outras legendas.
Silvia Cristina ocupa posição estratégica nesse cenário. Deputada federal, jornalista e professora, aparece numericamente à frente de Confúcio Moura, Bruno Scheid e Mariana Carvalho. Seu desempenho sugere a existência de um voto de centro-direita e de caráter pessoal que não depende exclusivamente da militância bolsonarista.
Confúcio Moura, senador pelo MDB, representa uma corrente diferente. Sua trajetória está associada ao centro institucional, à negociação política e à experiência administrativa, em contraste com candidaturas organizadas em torno de identidades ideológicas mais intensas.
A corrida ao Senado amplia, portanto, as nuances existentes dentro do eleitorado rondoniense. Há candidatos diretamente vinculados ao bolsonarismo, nomes de centro-direita, representantes do campo governista, lideranças institucionais e personalidades regionais buscando o segundo voto.
O resultado não definirá apenas os dois representantes de Rondônia no Senado. Também reorganizará partidos, lideranças e projetos políticos para os anos seguintes.
A força conservadora no Estado possui fundamentos que ultrapassam as candidaturas e as legendas. Rondônia chega a 2026 com população estimada em 1.751.950 habitantes e eleitorado superior a 1,2 milhão de pessoas.
A agropecuária ocupa posição central na economia, enquanto católicos e evangélicos aparecem em proporções próximas de 41% na composição religiosa. Esses elementos não determinam mecanicamente o comportamento eleitoral, mas ajudam a manter temas como propriedade, segurança, religião, agronegócio e valores morais no centro do debate político.
Rondônia possuía aproximadamente 18,1 milhões de cabeças de gado em 2023, o sexto maior rebanho bovino do país, segundo dados do IBGE reproduzidos no levantamento.
Para a safra 2025/2026, projeções baseadas em informações da Conab indicavam expansão da soja para mais de 700 mil hectares e produção estimada em cerca de 2,6 milhões de toneladas.
O agronegócio não atua como um setor periférico. Ele influencia discursos eleitorais, prioridades administrativas, alianças políticas e conflitos relacionados à terra, à preservação ambiental e à expansão econômica.
A dimensão amazônica torna essas questões ainda mais sensíveis. Em Rondônia, discussões sobre desenvolvimento frequentemente se misturam a debates envolvendo regularização fundiária, produção agropecuária, terras indígenas e proteção ambiental.
A política tende a transformar essa complexidade em uma oposição simplificada entre produzir e preservar. A realidade, porém, exige soluções mais amplas do que a escolha automática entre um lado e outro.
A fotografia da Real Time Big Data mostra um Estado onde o bolsonarismo lidera as três principais disputas, mas não controla sozinho todas as formas de expressão da direita.
Flávio Bolsonaro apresenta ampla vantagem na corrida presidencial em Rondônia. Marcos Rogério lidera para o Governo, mas enfrenta rejeição elevada e empate técnico contra Fúria. Fernando Máximo ocupa a primeira posição para o Senado, enquanto a segunda vaga permanece aberta entre candidaturas separadas por diferenças mínimas.
O PL chega ao processo eleitoral com a marca política mais forte. O PSD controla o Governo do Estado e tenta converter estrutura administrativa em continuidade. O União Brasil aposta em uma liderança de perfil gerencial. O MDB ocupa uma faixa institucional, enquanto a esquerda continua distante do protagonismo na sucessão estadual.
Rondônia permanece como um dos principais redutos da direita no país, mas essa definição já não é suficiente para explicar o jogo político de 2026.
A disputa não será apenas para decidir se a direita continuará majoritária. Será para estabelecer qual direita terá força para comandar o Estado, organizar o eleitorado conservador e definir os rumos políticos de Rondônia.
O bolsonarismo começa na frente com Flávio Bolsonaro, Marcos Rogério e Fernando Máximo. A liderança tripla, contudo, não elimina a competição interna, o desgaste de governos, a resistência a determinados nomes nem a possibilidade de decisões pragmáticas do eleitorado.
Existe uma identidade conservadora predominante, mas não existe unanimidade. Há favoritos, mas não há vencedores antecipados. Existem correntes que compartilham parte dos mesmos valores, mas disputam métodos, estruturas, lideranças e espaços de poder.
Em 2026, Rondônia decidirá mais do que seus representantes no Planalto, no Governo e no Senado. Decidirá se o comando político ficará com a direita bolsonarista do PL, com a direita governista organizada pelo PSD ou com uma centro-direita que procura se apresentar como alternativa de gestão. A direita já ocupa o centro da eleição. A dúvida é quem terá autoridade para falar em nome dela quando os votos forem contados.


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