O número que mais chama atenção no setor estético brasileiro não tem a ver com volume nem com transformação radical do rosto. Tem a ver com o oposto. Depois de anos de procedimentos pensados para aumentar, projetar e marcar feições, o pedido que cresce nos consultórios é por um resultado que ninguém perceba como intervenção.
Pele descansada, textura uniforme, viço de quem dormiu bem. A mudança de discurso já aparece nas estatísticas e começa a redesenhar o mercado também fora dos grandes centros, em estados como Rondônia.
O ácido hialurônico se firmou como o segundo procedimento não cirúrgico mais procurado no país, atrás apenas da toxina botulínica. Foram mais de 176 mil aplicações em 2024 no Brasil, segundo o relatório anual da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, a ISAPS. No mundo, o mesmo levantamento registrou 6,3 milhões de aplicações no período, alta de 5,2% em relação ao ano anterior.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia, por sua vez, contabilizou aumento de 390% na realização de tratamentos estéticos no país nos últimos anos, com cerca de 80% dos entrevistados em pesquisa relatando já ter feito algum procedimento minimamente invasivo.
O que mudou no pedido do paciente
A virada começou a ficar visível entre 2022 e 2024 e teve consequência prática imediata. Pacientes que aplicaram produtos permanentes nos anos anteriores passaram a procurar dermatologistas pedindo para desfazer aplicações antigas. A queixa se repetia. O resultado parecia artificial, exagerado, envelhecedor.
Esse movimento empurrou a demanda na direção de procedimentos reabsorvíveis e ajustáveis. O ácido hialurônico de uso médico é uma substância naturalmente presente no organismo, biodegradável e absorvida pelo próprio metabolismo ao longo de 12 a 18 meses.
A diferença em relação a alternativas permanentes, como o polimetilmetacrilato, é justamente essa possibilidade de retorno. Substâncias permanentes foram associadas a quadros graves de inflamação crônica, granulomas e deformidades, e há anos sociedades médicas desaconselham seu uso em diversas regiões do corpo.
A consulta também mudou de ritmo. Avaliações que duravam quinze minutos passaram a se estender por quarenta, porque a paciente chega com referências salvas no celular e pergunta sobre nome do produto, lote, plano de aplicação e alternativas. O interesse deixou de ser por uma seringa a mais e passou a ser por entender o que está sendo aplicado e por quê.
Pele em vez de volume: a frente que mais cresce
Dentro desse movimento, ganhou espaço uma categoria de tratamento que não tem como objetivo aumentar nenhuma região. A proposta é melhorar a qualidade da pele, e não acrescentar contorno.
Procedimentos como o Skinbooster Skinvive usam ácido hialurônico em formulação mais fluida e diluída, aplicado para hidratar a derme de dentro para fora, melhorar textura, viço e luminosidade. O efeito não é de preenchimento. É de pele saudável.
A lógica explica boa parte da procura atual. A produção natural de ácido hialurônico pelo organismo começa a cair a partir dos 30 anos, o que contribui para a perda de firmeza, o ressecamento e o surgimento de linhas finas.
Repor essa substância nas camadas mais profundas estimula a retenção de água e a produção de colágeno, com resultado que aparece de forma gradual. Para o público que rejeita o aspecto trabalhado, essa progressão lenta é parte da atração.
Os tratamentos voltados à qualidade da pele costumam ser indicados em protocolo de algumas sessões iniciais, com intervalos de poucas semanas, seguidas de manutenção a cada quatro a seis meses.
De acordo com Dra. Mariana Cabral, especialista em dermatologia na capital goiana, a aplicação é feita por microinjeções e leva de dez a quinze minutos, sem afastar a pessoa da rotina.
A simplicidade aparente, porém, esconde uma decisão técnica que depende de avaliação médica, e é nesse ponto que o mercado se divide.
Por que o reabsorvível ganhou o mercado
A característica reabsorvível oferece dois ganhos concretos ao paciente. O primeiro é a possibilidade de calibrar o resultado a cada nova aplicação, ajustando volume, posição e intensidade conforme a própria pele evolui.
O segundo é a margem de correção. Existe uma enzima específica, a hialuronidase, capaz de dissolver o produto em situações de complicação ou de resultado fora do esperado. Essa rede de segurança não existe nas alternativas permanentes.
A técnica também amadureceu. O que se pratica hoje trabalha em pontos anatômicos específicos para devolver estrutura e proporção, com volumes menores e distribuição planejada, em vez do excesso concentrado num único ponto.
A imagem distorcida que o procedimento carregou por anos vem justamente da prática antiga, comum até a metade da década passada, responsável pelos resultados artificiais que agora muitas pacientes pedem para reverter.
O reflexo em Rondônia
Por muito tempo, quem morava em Porto Velho e queria um procedimento estético conduzido por dermatologista titulado pensava em viagem. São Paulo, Brasília, Goiânia e Cuiabá concentravam a oferta de especialistas, e o deslocamento fazia parte do cálculo.
Esse cenário começou a mudar com o retorno de profissionais que terminaram residência em centros maiores e abriram clínicas próprias na capital e em cidades como Ji-Paraná, Vilhena e Ariquemes.
A economia regional ajuda a sustentar essa expansão. Rondônia vem registrando uma das menores taxas de desemprego do país e crescimento consistente do agronegócio, o que amplia a renda em segmentos urbanos e cria demanda contínua por procedimentos de manutenção, sobretudo nas faixas entre 30 e 55 anos.
O resultado é uma rede local de atendimento que cresce no mesmo passo do interesse, reduzindo a necessidade de viajar para tratar a pele.
O efeito sobre a economia local aparece em camadas. Clínicas estruturadas geram empregos qualificados, movimentam fornecedores de tecnologia e atraem pacientes de municípios menores, em fluxo que se soma ao turismo de saúde já presente em outras especialidades médicas do estado.
A descentralização do mercado estético, antes concentrado nas capitais do Sudeste, beneficia cidades médias com infraestrutura médica em formação, e Rondônia entra nessa conta.
A procura que se espalha pelo país
O movimento não é exclusivo do Norte. Em Mato Grosso do Sul, veículos de imprensa local documentaram como a procura por ácido hialurônico acompanhou a expansão da rede de clínicas dermatológicas e a chegada de pacientes vindos de cidades menores, num fenômeno que o próprio setor já chama de turismo estético.
O padrão se repete em diferentes estados, com sinais parecidos. Mais especialistas titulados no interior, mais pacientes informados e uma demanda que migra do permanente para o reabsorvível.
O dado de mercado reforça a leitura. As vendas nacionais de higiene e beleza alcançaram R$ 156,5 bilhões em 2023, alta de 12,7% segundo a Associação Brasileira de Embalagens, em curva que sustenta a interiorização do setor.
O crescimento não se concentra mais apenas nas grandes capitais, e a presença de profissionais qualificados em estados como Rondônia é parte da explicação.
Como separar o procedimento seguro do arriscado
A popularização atraiu um problema conhecido. Junto da demanda legítima cresceu um mercado paralelo de aplicações feitas por pessoas sem formação médica, em ambientes inadequados e, em alguns casos, com produtos sem registro na Anvisa.
A Sociedade Brasileira de Dermatologia tem reforçado em comunicados que procedimentos estéticos invasivos são ato médico, e que aplicações por profissionais não habilitados representam risco real, de complicações estéticas a quadros infecciosos graves.
O Conselho Federal de Medicina levou o tema à Anvisa em diferentes ocasiões durante 2024, com pauta voltada ao controle da venda e da aplicação de injetáveis por quem não tem formação em medicina. Para quem avalia fazer o procedimento, a verificação de credenciais é o primeiro passo de proteção e pode ser feita gratuitamente nos sites dos conselhos regionais de medicina.
A orientação das sociedades médicas é direta. Paciente bem informada não escolhe pelo preço mais baixo, e sim pela combinação entre formação do profissional, produto certificado e protocolo de avaliação claro. O histórico clínico, as medicações em uso, as condições da pele e a expectativa realista de resultado entram na decisão antes de qualquer aplicação.
Em alguns casos, a indicação não é o ácido hialurônico, e sim outra técnica, ou nenhuma técnica naquele momento. Esse filtro é o que separa um atendimento médico de uma sessão comercial, e é também o que sustenta a tal naturalidade que move a procura atual. O rejuvenescimento que parece espontâneo é, no fundo, resultado de decisão informada.



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