O brasileiro já acorda com problemas suficientes — o despertador que não toca, o preço do café, o trânsito barulhento— para ainda ter que lidar com os humores do inquilino da Casa Branca. Novamente Donald Trump resolveu requentar uma velha receita protecionista e taxar nossos produtos. A justificativa? Uma contabilidade criativa digna de um gerente de banco mal-intencionado.
Segundo Washington, o Brasil pratica "táticas injustas" e acumula vantagens. É um espanto estatístico. Nos últimos anos, os americanos ostentam um superavit de mais de 15 bilhões de dólares na nossa relação comercial. Ou seja: pela lógica do Donald, quem está devendo na praça é que deveria ser multado. Se a matemática ainda fizesse algum sentido no hemisfério norte, seríamos nós a sobretaxar a tecnologia deles, só pelo desaforo.
Mas o buraco, como sempre, é mais embaixo. E atende pelo nome de Pix.
A Revolução do Quadradozinho
A Casa Branca, vejam só, resolveu virar a defensora ferrenha das Big Techs. O plano das grandes corporações americanas era colonizar nossos pagamentos com suas próprias ferramentas. Mas o Banco Central brasileiro inventou o Pix. E o Pix, esse danado, passou o rodo no mercado. Devorou a fatia que antes era território sagrado das bandeiras de cartão americanas. O sujeito que antes passava o Visa, hoje aponta o celular para um QR Code e resolve a vida. É a soberania nacional em formato de quadradinho na tela.
Para desespero do Tio Sam, a coisa não para aí. Com Dilma Rousseff presidindo o Banco dos BRICS e o fantasma de uma moeda comum rondando o bloco, a ideia do Pix começou a passear pelo México, Índia e China. Para o império, ver o mundo pagando o pastel de feira e o arroz de Pequim sem passar por Nova York é um pesadelo geopolítico. Reduz a influência deles a um reles detalhe.
Parcerias Improváveis
Mas a cereja do bolo desse banquete de hipocrisia é a questão ambiental. Trump alega que nossa agropecuária destrói a floresta. É de um cinismo monumental.
O mais divertido é notar o seguinte: o governo Lula apoia o setor, mas o agronegócio, em sua grande maioria, torce o nariz para o atual presidente e apoia a oposição. Quando Trump ataca o agro brasileiro usando o argumento do desmatamento, cria uma das maiores comédias ideológicas da história recente.
Para o brasileiro entender o tamanho do absurdo, é preciso desenhar: é como se Donald Trump e Marina Silva marcassem um almoço de domingo para lançar uma agenda ambiental conjunta no cerrado ou na Amazônia.
Diante de tanta hipocrisia, o jeito é fechar a conta. Pagamento no Pix, obviamente. Só para ver o Tio Sam e seus asseclas locais perderem o sono e o controle da nossa moeda.
DANIEL PEREIRA. advogado e ex-governador de Rondônia (2018).



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