A Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Getúlio Vargas, localizada no coração do bairro Areal, em Porto Velho, não é apenas um prédio antigo. É um símbolo de luta, educação e transformação social. Construída na década de 1970 e oficialmente registrada em 26 de fevereiro de 1981, a escola foi, durante muitos anos, referência no ensino público da capital.
Ali se formaram gerações. Ali funcionavam aulas nos três turnos — manhã, tarde e noite. Ali a comunidade vivia a escola em sua plenitude: esportes na quadra coberta aos fins de semana, fanfarras, jogos escolares, festas juninas, eventos culturais e cívicos. A escola pulsava. Era viva. Era patrimônio do povo.
E não se trata de memória vaga ou saudosismo. Trata-se de história concreta. Em 1971, quando Rondônia ainda era território federal, um aluno da própria Escola Getúlio Vargas, Adaídes Batista dos Santos — conhecido por todos como Dadá — foi escolhido Governador Mirim, superando candidatos da elite da época em um concurso escolar. Esse fato simboliza o verdadeiro papel que a escola sempre desempenhou: ser um espaço de oportunidade, onde filhos do povo podiam sonhar, crescer e vencer.
Mas o que fizeram com esse patrimônio coletivo?
Em 2023, retiraram a escola de sua comunidade, transferindo suas atividades para outra unidade e implantando o modelo cívico-militar. E qual foi o legado deixado ao bairro Areal? Nenhum benefício concreto. O que permaneceu foi o vazio, o abandono e o silêncio.
Hoje, o prédio da Escola Getúlio Vargas se encontra em estado de descaso. Há lixo na entrada, lixo em seu interior e sinais evidentes de deterioração. Um espaço que antes formava cidadãos foi transformado em depósito de materiais descartados de outras escolas. O que antes era instrumento de transformação social agora serve ao acúmulo de sucata.
Isso não pode ser chamado de gestão. Isso é desrespeito à memória coletiva, à educação pública e à própria comunidade que ajudou a construir essa história.
O mais grave é que prometeram reforma, valorização e recuperação do espaço. Dois mandatos se passaram, e nada foi feito. O abandono se prolonga, enquanto outras escolas tradicionais enfrentam o mesmo processo de esvaziamento e esquecimento.
A pergunta que permanece é inevitável: a quem interessa apagar a história do bairro Areal?
Vão permitir que a Escola Getúlio Vargas desabe, como já aconteceu com outros patrimônios públicos? Ou consumarão de vez esse processo de degradação, transformando um patrimônio histórico em depósito oficial?
A comunidade está cansada do silêncio. Cansada de promessas não cumpridas. Cansada de assistir, impotente, ao abandono de um espaço que ajudou a construir tantas vidas. E mais grave ainda: cansada da omissão de agentes públicos que conhecem a importância histórica da escola e, ainda assim, permanecem inertes.
Nós, ex-alunos, ex-professores e moradores do Areal, não aceitaremos esse apagamento histórico.
A Escola Getúlio Vargas não é apenas um prédio. É parte da nossa identidade, da memória do bairro Areal e da própria história de Porto Velho.
E seguiremos lutando para que ela volte a cumprir sua verdadeira missão: educar, formar cidadãos e servir à comunidade onde nasceu.
O bairro Areal vai se levantar e lutar contra o desrespeito à sua história. A comunidade não permitirá, em hipótese alguma, que a Escola Getúlio Vargas chegue ao ponto de ser demolida — intenção que, ao que tudo indica, parece estar em curso — como aconteceu com a Escola Samaritana.
Chega de descaso. A história da Getúlio Vargas merece respeito.
Augusto César Passos Cruz - Professor Municipal, Agitador Cultural, fundador e presidente do bloco carnavalesco “O Canto da Coruja”, morador do bairro do Areal e ex-aluno da Escola Getúlio Vargas



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