Publicada em 17/01/2026 às 09h16
As eleições de 2026 em Rondônia começaram antes do calendário oficial. Embora o mês seja janeiro e a legislação ainda enquadre o período como pré-campanha, os movimentos registrados nas últimas semanas indicam que o processo sucessório do Palácio Rio Madeira já está em curso, com rearranjos partidários relevantes, discursos mais agressivos e a entrada em cena de atores que, até pouco tempo atrás, mantinham postura cautelosa.
O primeiro marco desse novo momento foi a decisão do governador Coronel Marcos Rocha, do União Brasil, de não disputar o Senado Federal. A confirmação veio em entrevista ao vivo à SIC News, na qual Rocha sustentou que a permanência até o fim do mandato decorre da quebra de confiança com o vice-governador, sem citá-lo nominalmente, mas deixando clara a motivação. Ao afirmar que não entregaria o governo “nas mãos de alguém que me traiu”, Rocha inviabilizou, na prática, qualquer projeto eleitoral pessoal em 2026, ao mesmo tempo em que retirou do tabuleiro um nome que, até então, era considerado central no jogo majoritário.
A decisão do governador abriu espaço para uma reorganização imediata no campo governista e no centro-direita. Informações de bastidores indicam que Marcos Rocha teria negociado a saída do União Brasil e uma eventual filiação ao PSD, legenda presidida em Rondônia por Expedito Júnior. Esse movimento estaria associado à tentativa de preservar influência política na sucessão estadual, com a construção de uma chapa majoritária no PSD, tendo o prefeito de Cacoal, Adailton Fúria, como possível cabeça de chapa. Nesse desenho, surge também o nome do empresário e ex-deputado estadual Everton Leoni, magnata da comunicação local, cogitado para a vaga de vice-governador, articulação atribuída diretamente ao próprio governador.
Enquanto o centro-direita se reorganiza, a esquerda também formalizou seu primeiro movimento concreto. A Federação Brasil da Esperança, composta por PT, PV e PCdoB, oficializou a filiação do ex-deputado federal Expedito Netto ao Partido dos Trabalhadores e aprovou, em instância federativa, sua pré-candidatura ao Governo de Rondônia. A decisão foi comunicada por nota pública após reuniões realizadas na sede do PT, em Porto Velho, e representa uma tentativa explícita de reorganizar o campo progressista no estado, que vem acumulando derrotas sucessivas em disputas majoritárias.
Expedito Netto, atualmente secretário nacional de Pesca, passa a ocupar o papel de pré-candidato da esquerda, com discurso alinhado ao governo federal e à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A filiação e a aprovação da pré-candidatura foram descritas pela federação como resultado de “amplo, democrático e qualificado debate”, com aceitação unânime dos dirigentes presentes.
É nesse contexto que um terceiro elemento altera o tom da disputa: a entrada mais explícita do prefeito de Vilhena, Flori Cordeiro, no debate estadual. Em entrevista exclusiva ao Extra de Rondônia, veículo de forte influência no Cone Sul, Flori confirmou sua pré-candidatura ao governo e adotou um discurso duro, sem o verniz habitual da pré-campanha. Ao comentar a movimentação envolvendo Expedito Júnior, no PSD, e Expedito Netto, no PT, o prefeito classificou a estratégia como uma tentativa de subestimar o eleitorado.
“Acham que o eleitor rondoniense é idiota”, afirmou Flori, ao sustentar que pai e filho estariam com “os pés em duas canoas”, um na direita e outro na esquerda, buscando tirar vantagem política de todos os campos. Para o prefeito de Vilhena, essa dualidade não passaria despercebida pela população e não se sustentaria eleitoralmente. A crítica foi além e alcançou também o prefeito de Cacoal, Adailton Fúria, descrito como alguém que tenta se apresentar como gestor acima de ideologias. Flori ironizou essa postura, dizendo que Fúria estaria sendo “morno” e tentando “enganar a esquerda e a direita”.
Ao usar termos como “cavalos peludos” para se referir a figuras experientes da política rondoniense que cercariam Fúria, Flori não apenas marcou posição, como sinalizou o início de uma campanha mais virulenta, com confrontos diretos entre caciques regionais. Trata-se, até aqui, do movimento mais acintoso da pré-campanha, tanto pelo conteúdo quanto pelo tom adotado.
A entrevista ao Extra de Rondônia também serviu para Flori apresentar credenciais administrativas, especialmente nas áreas de saúde e segurança pública, apontadas por ele como os dois maiores gargalos do estado. O prefeito citou rankings do Ministério da Saúde para sustentar avanços obtidos em Vilhena e comparou indicadores com outros municípios, incluindo Cacoal. Ao fazê-lo, elevou o debate para além do discurso político e introduziu elementos técnicos na disputa narrativa.
O que se observa, portanto, é que o cenário eleitoral de 2026 em Rondônia deixou de ser especulativo e passou a operar em modo prático. A desistência de Marcos Rocha do Senado reorganizou forças; a filiação de Expedito Netto deu forma ao campo progressista; as articulações de Expedito Júnior no PSD redesenham o centro-direita; e a fala de Flori Cordeiro rompeu o protocolo da cautela, antecipando um embate que tende a ser marcado por disputas duras, personalizadas e com muitos protagonistas de peso.
Ainda que o calendário diga “pré-campanha”, o discurso, as alianças e os ataques indicam que a eleição já começou. E, ao que tudo aponta, será uma disputa de muitos caciques, pouca paciência e nenhum espaço para ingenuidade eleitoral.



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